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"A minha referência e inspiração é precisamente Aníbal Cavaco Silva", disse Montenegro
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▲"A minha referência e inspiração é precisamente Aníbal Cavaco Silva", disse Montenegro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲"A minha referência e inspiração é precisamente Aníbal Cavaco Silva", disse Montenegro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em plena crise na Saúde, Cavaco recorda a Montenegro dois princípios: remodelar é difícil, mas erros não se escondem

Em dia de homenagem, Cavaco reconheceu que remodelar o Governo é duro, mas pode ajudar a renovar maiorias. Montenegro lembrou como antigo PM foi sempre mais popular entre os eleitores do que na bolha.

O clima era de festa e não se pode dizer exatamente que Aníbal Cavaco Silva a tenha estragado. Mas as palavras contam e as palavras do antigo primeiro-ministro e ex-Presidente da República, conhecido por escolher cirurgicamente aquilo que quer dizer, contam ainda mais. Numa semana (mais uma) particularmente difícil para a ministra da Saúde escolhida e reconfirmada por Luís Montenegro, Aníbal Cavaco Silva aproveitou a sessão que assinalo os 40 anos da sua tomada de posse como primeiro-ministro, para recordar dois princípios básicos: remodelar é difícil; mas, em política, erros não se escondem.

Enquanto discursava, Aníbal Cavaco Silva decidiu partilhar com a audiência, cheia de atuais e antigos ministros, aquilo que tinha sido, para si, o melhor e pior momentos como primeiro-ministro. Se, no primeiro caso, Cavaco Silva falou sobre a revisão constitucional de 1989, no segundo caso, o antigo primeiro-ministro elegeu a remodelação governativa que fez nos últimos dias desse ano de 1989, “num tempo que era de feriados e festas”, como o seu momento mais difícil como chefe do Executivo.

“Tive então que preparar e concretizar a substituição de cinco ministros, incluindo o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, que tinha acabado de pedir a demissão. Foi, para mim, muito pesada e profunda a solidão que normalmente assalta um primeiro-ministro quando tem de remodelar o governo”, começou por recordar Aníbal Cavaco Silva.

Intencionalmente ou não, as palavras do antigo primeiro-ministro têm particular relevância numa altura em que se discute a possível saída de Ana Paula Martins. Tal como explicava o Observador, com base em fontes próximas, a ministra da Saúde está “muito cansada” e “farta” dos “interesses instalados” que tem enfrentado. Ainda que esteja disposta a continuar no cargo, a mesma Ana Paula Martins tem uma data na cabeça: dezembro é o mês para reavaliar tudo — precisamente o mês que Cavaco Silva aproveitou para despachar cinco ministros em 1989.

Já depois de o Observador ter dado conta do estado anímico de Ana Paula Martins, também o Expresso, citando uma conversa que a ministra terá tido com um dirigente sindical do setor, escreveu que a governante pediu a Luís Montenegro para sair e que já só espera pelo aval do chefe de Governo. Ora, ainda falando sobre a remodelação que fez em 1989, Cavaco Silva não deixou de sugerir outra coisa: cada crise pode ser uma oportunidade.

“O anúncio da remodelação, no dia 2 de janeiro de 1990, apanhou de surpresa a comunicação social e o país político. Apesar de tudo, esta crise política não impediu a repetição da maioria absoluta do PSD nas eleições legislativas que se seguiram em 1991″, fez questão de sublinhar o antigo primeiro-ministro e ex-Presidente da República. Por outras palavras: as remodelações são “pesadas” e “solitárias”; mas, feitas no devido tempo, podem traduzir-se em vitórias eleitorais.

Se a mensagem de Cavaco Silva já parecia ser um recado claro para o momento que o atual Governo atravessa, o que veio a seguir só reforçou essa leitura. Mesmo criticando a comunicação social, que “inventa” erros para serem “notícia com estrondo”, às vezes, sugeriu Cavaco, há mesmo que assumir as falhas. “Por mais que um governo trabalhe intensamente e se esforce, é impossível evitar falhas e erros. Como costumo dizer ‘nobody is perfect’ [ninguém é perfeito]. Em política, os erros cometidos por um Governo, mesmo que tal seja humano, não podem ser escondidos“, atirou o homenageado.

"Como Cavaco Silva, hoje sentimos a responsabilidade de sermos um farol para dar ao país uma orientação para o rumo que queremos seguir, como fez Cavaco Silva há 40 anos, com o intuito de não deixar nenhum português para trás, com o intuito de dar a todos as mesmas oportunidades"

Montenegro cumpre o ciclo e assume: “A minha inspiração é Cavaco”

Antes de Aníbal Cavaco Silva discursar, coube a Luís Montenegro a oportunidade de homenagear o antigo primeiro-ministro, o homem que, nas palavras do seu assumido herdeiro, “construiu as bases de um Portugal moderno, virado para o futuro, que finalmente almejou estar ao nível dos países mais desenvolvidos da Europa”. “Há um Portugal antes e depois de Cavaco Silva”, sintetizou o atual primeiro-ministro.

Mas se o discurso de Cavaco Silva teve subtilezas, o de Luís Montenegro não foi muito diferente. Dias depois de Pedro Passos Coelho ter feito a crítica mais severa ao rumo escolhido pelo atual Governo, o presidente social-democrata, que chegou à liderança da bancada parlamentar do PSD precisamente pela mão de Pedro Passos Coelho, fez questão de se assumir como herdeiro de Aníbal Cavaco Silva.

“Quero aqui dizer, sem nenhum problema, pelo contrário, com muito gosto, que do ponto de vista da inspiração governativa, da forma de estar, lidar e executar a tarefa de coordenação do Governo, a nossa e a minha referência e inspiração é precisamente Aníbal Cavaco Silva”, assinalou o atual primeiro-ministro. “Como ele, hoje sentimos a responsabilidade de sermos um farol para dar ao país uma orientação para o rumo que queremos seguir, como fez Cavaco Silva há 40 anos, com o intuito de não deixar nenhum português para trás, com o intuito de dar a todos as mesmas oportunidades.”

A adesão de Montenegro à herança e simbologia do cavaquismo não é segredo para ninguém. Em grande medida, a aproximação do atual primeiro-ministro à política aconteceu na terceira e última campanha eleitoral de Cavaco Silva para o cargo de primeiro‐ministro, que resultou na renovação da maioria absoluta. A ascensão na cadeia alimentar da política fez-se depois com Luís Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e, finalmente, Pedro Passos Coelho, que lhe deu a cadeira de sonho para um parlamentar. Anos depois, quando se candidatou pela primeira à liderança do partido (e perdeu), Montenegro era ainda um assumido representante do passismo.

A derrota contra Rui Rio obrigou-o a fazer uma travessia no deserto. Finalmente, quando chegou à presidência do PSD e se dirigiu pela primeira vez aos congressistas sociais-democratas, no congresso de julho de 2022, Montenegro falou na ambição de ser mais Aníbal Cavaco Silva do que José Manuel Durão Barroso ou Pedro Passos Coelho, que, pese embora o esforço corretivo do primeiro e, sobretudo, o “ato patriótico” do segundo, tinham involuntariamente transformado o partido num mero gestor de crises. “Está cada vez mais difícil recordar aquela década que foi a grande década de desenvolvimento social e económico do país, que foram os governos do PSD com o professor Cavaco Silva.”

A 25 de novembro de 2023, depois da queda repentina de António Costa e quando o PSD começou a acreditar seriamente que podia mesmo voltar ao poder, Luís Montenegro preparou cirurgicamente a presença de Aníbal Cavaco Silva num congresso partidário, a primeira vez que tal acontecia em mais de três décadas. Estava consumada a elevação de Cavaco a santo padroeiro deste PSD.

Montenegro acabaria por revelar em livro que a sua “maior referência” política era mesmo Aníbal Cavaco Silva. “Foi aquele que me despertou mais para a vida política. Foi aquele que me impôs mais pensamento, mais reflexão. Acho que o projeto dele foi o único, verdadeiramente, que teve um princípio, um meio e um fim. Não tínhamos essa relação, nem ele é muito de ter uma partilha assim muito diversificada com as pessoas, mas gosto muito dele.”

Posteriormente, tendo — tal como Cavaco Silva — visto o seu primeiro ciclo como primeiro-ministro interrompido prematuramente no Parlamento, o líder social-democrata fez um campanha eleitoral com a mensagem “Deixem o Luís trabalhar”, uma frase tirada a papel químico do “Deixem-nos trabalhar” de Aníbal Cavaco Silva. Esta quarta-feira, no dia em que o homenageou, Luís Montenegro não só se assumiu como herdeiro de Cavaco, acrescentou uma outra alegada semelhança entre os dois: também ele teve no “intermediário” — a comunicação social — um obstáculo ao seu reconhecimento popular.

“Não obstante às vezes algumas imagens a quererem — sobretudo na praça pública e na comunicação social — evidenciar uma relação de maior afastamento, a verdade é que chamados a pronunciarem-se, sem nenhum intermediário, os portugueses disseram ‘é em si que nós confiamos’.” Montenegro estava a falar sobre Cavaco Silva. Mas podia muito bem estar a falar sobre si próprio.

▲ A homenagem a Cavaco Silva contou com uma exposição de fotografias de Rui Ochôa e a presença de atuais e antigos ministros

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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