Júlia Vieira Branco: “Às vezes não faz mal falhar, posso encontrar os resultados que quero de outra forma” /premium

04 Agosto 2019591

Júlia Vieira Branco pertence ao Mundo. Aos 14 anos foi estudar para o mar, aos 15 para Xangai, e aos 18, antes de ir para Abu Dhabi, vai fazer voluntariado para Timor. Entrevista de Laurinda Alves.

Quando tinha apenas 14 anos, Júlia Vieira Branco chegou ao pé dos pais com uma ideia: queria deixar a escola convencional e ir estudar para um barco, no meio do mar. O sonho acabou mesmo por acontecer. Depois de angariar dinheiro, foi estudar durante seis meses para o “School at Sea”. Mais tarde, e porque Júlia não pertence a apenas um lugar, partiu para Xangai, para a United World College. Agora, com 18 anos, quer fazer voluntariado em Timor e no próximo ano tem à espera um lugar na  universidade “NYU Abu Dhabi”. Júlia Vieira Branco juntou-se à lista de “Imperdíveis”, o programa de Laurinda Alves na Rádio Observador, todos os domingos, às 11h.

[Ouça aqui a entrevista de Laurinda Alves a Júlia Vieira Branco]

Júlia Vieira Branco, 18 anos, nasceste em Lisboa, cresceste no Faial e convidei-te para esta conversa por seres uma pessoa extraordinária. Mas antes de continuar, já te embaracei, gostava que te apresentasses.
Eu sou a Júlia, tenho 18 anos e acabei de voltar de uma enorme aventura na China, onde vivi, estudei e viajei durante dois anos.

E aos 14 anos fizeste uma outra grande aventura.
Sim.

E esta combinação de grandes aventuras numa pessoa que desde os 14 anos não parou de se aventurar no mundo, é que te traz cá. E gostava só de dizer que eu já escrevi uma crónica neste jornal sem te conhecer, só por conhecer a tua história, e esperei dois anos para te poder conhecer hoje mesmo, fisicamente, e para te poder entrevistar, porque acho fascinante a tua história, a maneira como tu te atiras à vida e te fazes ao caminho.
Obrigada.

Portanto, vamos começar pelo princípio, Júlia. Então o que é que aconteceu aos 14 anos?
Quando tinha 14 anos estava a viver no Faial com a minha família. Todos os anos passam por lá imensos barcos e eu sempre gostei de vela e, então, ia visitar os barcos. Houve um dia que fui visitar um que foi “O” barco. Era um veleiro de 48 metros onde estavam a viver mais ou menos trinta alunos. Estavam a dar a volta ao Oceano Atlântico enquanto estudavam também. Então, fui visitar com alguns amigos, alguns colegas de escola, e apaixonei-me completamente pelo conceito “School at Sea”, a maneira de viver, de estudar.

Chama-se “School at Sea”, ou seja, a escola no mar.
Exato. De conciliar, explorar o mundo, explorar outras culturas, explorar outras realidades enquanto estudo e enquanto também me exploro a mim como pessoa.

Isso fez com que tenhas ido visitar esse barco, como foste visitar não sei quantos outros barcos e voltaste outra pessoa, digamos assim. Ou, pelo menos, com outras ideias para poderes vir a ser outra pessoa.
Sim, eu entrei no barco e quando saí fui a correr para casa dizer aos meus pais “Olhem vou embarcar num barco durante seis meses, espero que estejam OK com isso”.

Aos 14 anos?
Sim.

E os teus pais ficaram ok com isso?
No princípio ficaram assim um pouco estupefactos, porque perguntaram-me: “Ah, OK e quanto é que isso custa?”. E eu disse-lhes: “21 mil euros”. E eles disseram-me: “Talvez não seja assim tão impossível como tudo isso”.

21 mil euros é muito dinheiro.
Sim.

Não acharam desconcertante também que uma filha de 14 anos, que no fundo é uma miúda, de repente põe o pé num barco que é uma escola, que anda à volta do oceano, e chega a casa e diz “Eu vou”. Acreditaram?
Acho que no princípio eles ficaram a pensar que era só um sonho, uma ideia que surgiu ali mas que ficaria por alí.

Um entusiasmo do momento?
Exato, que ficaria por ali, que não iria muito longe.

Mas tu no próprio dia fizeste coisas?
Nesse dia de manhã, antes de ir visitar o barco, tinha passado por uma sessão final de uma sessão de consultas com uma psicóloga, porque estava no final do 9.º ano a tentar escolher para que área é que havia de seguir e estava extremamente descontente com toda esta ideia de ter que escolher uma só área.

Porquê? Tinhas várias áreas de que gostavas de combinar?
Sim, porque sempre achei que este conceito de termos que nos…

Dividir?
Dividir entre uma área ou outra. Não poder, por exemplo, conciliar a economia e biologia.

Que era o que tu gostarias?
Exato. Eu nessa altura ainda não sabia exatamente o que é que eu queria, por isso, achava que toda aquela ideia de ter que escolher um só foco era algo ridícula. Então estava a tentar conversar com uma psicóloga para ver se organizava as minhas ideias.

E o que é que a psicóloga tinha dado como conselho?
No final dessa sessão a ideia com que nós concluímos foi que eu agora estava bem por casa, que ficaria ali por mais uns tempos e que o meu real conforto vinha de estar com a minha família, com a realidade que me é mais confortável.

E isso foi na manhã em que foste ao barco?
Exato. Os meus pais ouviram aquilo e estavam “OK, pronto tudo bem”. E depois eu voltei a casa ao fim da tarde com esta ideia de “Ah, afinal não quero ficar em casa coisa nenhuma, quero ir viajar durante seis meses”.

Ou seja “Afinal, já percebi o que é que eu quero”, não é?
Exato, sim.

E, realmente, eles acharam primeiro que podia ser o entusiasmo do momento, há aquele ar desconcertante depois e há um lado que parece impossível não é? 21 mil euros, nós não o temos e, se calhar, se tivessem, também não o punham assim às cegas, não é? Só por um capricho, aquilo que pode parecer um capricho ou um entusiasmo do momento. O que é que tu fizeste? Nesse dia aconteceram muitas coisas, a psicóloga diz isto, tu vais ao barco e depois a seguir tu voltas e começas a dar passos para conseguir angariar esse dinheiro, ou não?
Sim, nesse dia eu comecei, já estava com aquela ideia na cabeça, então comecei a pesquisar na internet o que é que poderia fazer para conseguir esses 21 mil euros que os meus pais não tinham, que não me podiam mesmo dar. E, então, comecei a pesquisar empresas que me poderiam apoiar, comecei a escrever rascunhos de e-mails, a escrever cartas e a partir daí comecei o processo de fundraising [“angariação de fundos”].

Com 14 anos.
Sim (risos).

Com 14 anos, Júlia Vieira Branco foi estudar para o "School At Sea" (Fotografia: School At Sea/Facebook)

Há quatro anos.
Exato.

Na ilha do Faial.
Sim.

Estamos a falar de uma realidade que é um bocadinho mais micro do que macro e estamos a falar de uma idade em que não é comum uma pessoa fazer um fundraising e de um volume de dinheiro que é expressivo.
Sim, mas a partir desse momento, quando os meus pais viram que tudo o que eu estava a fazer era… Eu estava mesmo convicta de que era aquilo que eu queria e eles começaram-me a apoiar. Por isso, releram as minhas cartas, ajudaram-me a pensar em possíveis empresas que me poderiam ajudar.

E juntaram-se a ti, no fundo.
Exato, foi muito importante.

E esse apoio é absolutamente essencial.
É muito. Foi crucial que os meus pais me apoiassem.

É decisivo.
Sim.

E depois a quem é que escreveste, onde é que conseguiste os primeiros fundos? Como é que isso aconteceu?
No princípio pode ser um pouco desmotivante, porque recebi imensos “nãos” e estava a pensar: “Bolas onde é que eu vou agora?”, mas depois comecei a receber alguns “”Sim” que foram de uma euforia gigante. Por exemplo, recebi o apoio da Cofaco, da Bom Petisco, que me deu uma quantia muitíssimo relevante destes 21 mil euros.

Ou seja, quase metade, tanto quanto sei.
Sim.

O que é espetacular.
Sim, foi uma ajuda incrível porque, entretanto, eu contei a história a um amigo meu, que teve todo o interesse em juntar-se, e começámos a fazer o processo de angariação de fundos juntos.

Como é que ele se chama?
Bartolomeu.

E o Bartolomeu tinha a mesma idade que tu?
Não, ele estava no 12º, acho que tinha 17 ou 18.

E ele juntou-se e vocês fizeram um fundraising a dois é isso?
Exato, sim.

E isso resultou mais? Havia ali um princípio de credibilidade reforçada, digamos assim, por serem dois?
Sim.

E por ele ser um bocadinho mais velho?
Não sei, nós éramos uma equipa e funcionamos sempre do princípio como uma equipa. E acho que funcionou bem, acho que foi bom para as empresas verem que não era só um jovem sozinho, mas eram vários jovens que estavam interessados em fazer algo diferente.

"Muitas vezes, eu e colegas meus sentimos que a escola estava muito focada em teorias algo obsoletas, que não refletem em quase nada aquilo que nós precisamos no mundo em que vivemos. Sentia que precisávamos de algo mais motivante, algo que nos virasse mais para o mundo, não só para a realidade portuguesa".

O que é que dizias nessas cartas? Qual era assim aquilo que tu achas que tocava o coração ou a perceção de quem recebia as cartas?
O que eu tentei mostrar nessas cartas foi essencialmente que eles estarem a apoiar-nos nesta aventura seria eles estarem a apostar numa educação diferente, numa educação que vai para além de decorar matéria para fazer testes, que vai para além de estar sentado numa sala durante horas e horas sem explorar o que é realmente importante para os alunos. Usei muito esta ideia, em que acredito mesmo.

De seis meses numa escola num barco à volta do Atlântico…
Poderia ser o princípio de algo maior, de eles estarem a apoiar uma iniciativa educativa diferente.

Saíndo um bocadinho do barco e voltando ainda à escola, só porque pegaste por aí, achas que a escola precisava de ter mais portas de entrada e de saída?  Porque há muitas pessoas que não se adaptam à escola ou mesmo as que se adaptam precisariam de mais qualquer coisa, precisariam de que a sala de aulas fosse transformar o mundo, o oceano, outros países, a diversidade, numa sala de aula?
Sim. Muitas vezes, eu e colegas meus, amigos, sentimos que a escola estava muito focada em teorias algo obsoletas, que não refletem em quase nada aquilo que nós precisamos no mundo em que vivemos. Sentia que precisávamos de algo mais motivante, algo que nos virasse mais para o mundo, não só para a realidade portuguesa. De algo que nos ajudasse a explorarmo-nos a nós próprios como pessoas, por exemplo, em vez de estarmos, como disse, a decorar matéria para testes, podemos investigar e tentar perceber…

Tentar compreender…
Nós próprios, aquilo que estamos a tentar explorar e compreender. Senti que faltava muito estas iniciativas. Por muito que tivesse professores que me motivassem e que me tentassem apoiar, o sistema em si limitava de grande forma.

Mas tiveste, de certeza absoluta, grandes mestres, porque acho que alguém que, aos 14 anos como tu, se atreve e se aventura para o mundo, teve de certeza bons professores e pessoas que puseram na tua cabeça e que puseram no teu imaginário e que te deixaram sonhar, não é? Mesmo que a escola não tenha sido o sítio melhor para tudo, foi muito bom como base, não é?
Sim, e pais também.

E pais também, exatamente. E depois o que é que aconteceu? Tu conseguiste os 21 mil euros mas depois também não é imediato, “tenho aqui o dinheiro, agora deixem-me lá entrar no barco”. Não é assim?
Não, não.

Tenho o dinheiro, tenho 14 anos, quero entrar no barco e ficar lá seis meses.
Não, acho que foi um processo algo em simultâneo. Enquanto estava a angariar fundos estava também a passar por um processo de seleção da “School at Sea”, portanto, tive de fazer primeiro uma avaliação escrita em que escrevia algumas cartas a explicar porque é que queria ir, o que é que fazia em casa, quais é que eram os motivos que me levavam a ter…

Quem és tu, não é? Esse “School at Sea” é este barco, este navio, este veleiro é uma escola holandesa.
Sim é uma organização holandesa, mas que tem aceitado alunos internacionais.

De todo o mundo?
Sim, no ano em que eu fui éramos dois portugueses, um alemão e o resto eram tudo holandeses, mas eu sei que eles têm interesse em abrir…

Em abrir cada vez mais a uma diversidade maior. Então nesse processo de seleção tu chegaste a ir a Amesterdão?
Sim, depois de ter passado na fase escrita, eles convidaram-nos, às pessoas que passaram, a ir a um fim de semana de seleção em Amesterdão, em que estivemos num género de um campo em que passamos por atividades de team building para eles verem como é que nós jogávamos em equipa, como é que nós funcionávamos como pessoa. E falamos também um pouco pessoalmente com os responsáveis do projeto.

Monitores, mentores…
Exato.

E tu sempre com 14 anos e sempre a sentires-te em casa, fora de casa (risos).
Claro que tive algumas inseguranças.

Tinhas medos? Além das inseguranças também tiveste medos?
Tive, acho que houve momentos em que estava assustada, porque por muito que estivesse entusiasmada e que tivesse a certeza que era aquilo que eu queria, acho que houve poucos momentos em que eu não tive algum medo de… “Será mesmo que é isto que eu fui feita para fazer?”. Mas acho que a vontade era tanta de fazer que…

E a retaguarda dos teus pais também era tão forte que…
Sim.

Superou os medos e as inseguranças.
Exato.

Depois desse campo houve alguma coisa que te marcou em Amesterdão ou que te fez reforçar a vontade de ir? Ou já era tão forte que acontecesse o que acontecesse…”Eu quero ir para o barco”?
Eu acho que desde o momento em que fui visitar o barco que tinha a certeza que queria ir. Quando fui lá e fizemos todos aqueles jogos, aprendi um bocadinho de holandês, conheci pessoas que me pareceram incríveis. Acho que a vontade…

Já estava desenhada.
Sim, já estava sólida.

E neste barco, que é um veleiro de quarenta e oito metros, quantas pessoas são da tripulação, digamos assim? Vocês têm que ser também crew?
A tripulação éramos nós, mas nós tínhamos um capitão, quatro adultos responsáveis pela parte de vela e quatro pela parte pedagógica de aulas.

Portanto, um capitão, quatro adultos responsáveis pela vela e quatro pela parte pedagógica, OK.
Sim, estes quatro da parte da vela.

Nove adultos.
Funcionava porque nós tínhamos turnos e eram quatro turnos. Cada adulto estava num destes turnos.

"Trouxe os objetivos curriculares da minha escola e eu própria fiz um plano de como é que eu iria atingir estes objetivos durante os seis meses. E, depois nestes dias de escola, nós aplicávamos o currículo, o plano que nós fizemos."

OK, e vocês são…eram uma turma de 30 e…?
34.

Portanto, estamos a falar de 43 pessoas a bordo. E depois vocês, como é que era a métrica de estar a comandar um barco, um veleiro e estudar? Um dia estão ao leme e outro dia estudam? 
Trouxe os objetivos curriculares da minha escola e eu própria fiz um plano de como é que eu iria atingir estes objetivos durante os seis meses. E, depois nestes dias de escola, nós aplicávamos o currículo, o plano que nós fizemos, e no dia de turno — nós tínhamos turnos, por exemplo, na maior parte do tempo eu tive um turno entre as cinco e as nove…

Cinco da manhã?
Sim, entre as cinco e as nove da manhã e entre as cinco e as nove da tarde, ou também tive outro entre a uma e as cinco da manhã e uma e cinco da tarde, em que nós éramos responsáveis por tudo o que tinha a ver com velejar, desde ir ao leme, garantir que estamos a ir no rumo certo, içar velas, baixar velas… Também tínhamos um turno de cozinha. A cada mais ou menos dez dias, um grupo de três pessoas era responsável pela parte de cozinhar.

Essa responsabilidade e até mesmo a auto-responsabilização por um plano de estudos aos 14 anos diz muito sobre uma pessoa. E conseguiste sempre conjugar isto tudo? Tiveste medo, ansiedades? Saudades, certamente que hás de ter tido, ou não?
Sim, claro, claro que tive, ainda por cima porque o nosso contacto com a família era muito limitado. Tínhamos o telefone por períodos muito pequenos. Por exemplo, quando atravessamos o Atlântico, foram mais ou menos 18 dias, e nestes 18 dias não conseguimos falar com ninguém de casa porque não tínhamos telefone enquanto estávamos no mar. Depois, quando parávamos em terra, tínhamos o telefone durante mais ou menos duas, três horas. Variava um bocadinho e aí podíamos conversar com as nossas famílias, mas eram sempre períodos muito limitados. Por isso, houve momentos em que eu tive, de facto, algumas saudades. Mas acho que também nós estávamos todos a passar pela mesma situação. Por isso foi, sem dúvida, uma grande ajuda o apoio que tínhamos uns dos outros.

Estamos a falar de jovens entre os 14 e os 18 anos, é isso?
Sim, exato.

E com esses tais nove adultos também muito comprometidos, e que no fundo fazem mentoria, e que não são uns professores convencionais, nem clássicos, mas que também têm esse lado de orientação pedagógica. Queres contar algum episódio que tenha acontecido e que tenha sido marcante? Quer dizer, todos os dias devem ter sido marcantes. (risos) Não sei se é fácil eleger assim alguma história.
Acho que posso contar dois. Talvez no mar, acho que viver no mar é algo que enriquece muito uma pessoa porque nós temos que estar sempre a adaptar-nos àquilo que está a acontecer. Lembro-me de num dia estar cansadíssima, estar a dormir, estávamos nas Caraíbas nessa altura, estava a tentar dormir no meu camarote, porque nós partilhávamos camarote com quatro pessoas, e eu tinha a janela aberta e a minha cama era exatamente por baixo da janela que ia dar para o convés. E eu acordei, estava a sentir assim um cheiro mesmo esquisito e então acordei e tinha um peixe que tinha caído na minha cama. E isso foi um daqueles momentos em que eu me apercebi…

É um sonho, é a realidade, não é?
Sim, eu estava mesmo “Uau, estou mesmo a viver no mar”. Mas em terra acho que uma das partes mais interessantes desta experiência foi que nós, em dois momentos, por exemplo, quando estávamos no Panamá e quando estávamos em Cuba, fomos em grupos de alunos, oito alunos com um destes tais mentores, de uma ponta à outra do país com um orçamento muitíssimo limitado e tínhamos que tentar procurar fazer coisas que nos enriquecessem culturalmente e que nos permitissem conhecer o país. Tivemos que ir de boleia, por exemplo. Quando estávamos em Cuba apanhámos boleia numa transportadora de cana de açúcar, dormimos na praia, fizemos tudo isto e depois as pessoas eram tão simpáticas que nos apoiaram, por isso nós percebemos muito o quão longe podemos ir através de conversarmos com as pessoas e tentarmos perceber um bocadinho o que é que elas precisam.

Nos relacionarmos.
Sim.

E não só porque há dinheiro.
Exato.

"Tenho tido a sorte enorme de contactar com pessoas que me ensinam tanto. E agora eu olho para o mundo de forma um pouco mais crítica do que olhava antes, por exemplo."

Porque o dinheiro paga tudo e compra tudo.
Sim.

E esse despojamento trouxe-te o quê, hoje que já estás outra vez no mundo de consumo e de alta velocidade? 
Trouxe-me muito. Acho que tenho tido a sorte enorme de contactar com pessoas que me ensinam tanto. E agora eu olho para o mundo de forma um pouco mais crítica do que olhava antes, por exemplo.

Mas também mais segura? 
Talvez.

Sentes-te mais segura? A olhar para um mundo cheio de inseguranças mas tu, se calhar, mais segura das ferramentas interiores que trazes contigo.
Sim, sinto-me segura porque conseguimos fazer alguma coisa para mudar as coisas que não estão bem e sinto-me mais segura. E um dos ensinamentos que o capitão do barco nos estava sempre a dizer é que nós temos que ligar o botão que temos por detrás das nossas orelhas e é isso que eu tenho andado a tentar fazer: ligar este botão e olhar para o mundo de forma mais crítica e mais pró-ativa.

É isso que esse botão ativa? É o olhar crítico e esse dinamismo? No fundo, é um botão que tu clicas e a tua consciência abre e a tua vontade de fazer coisas dispara, é isso? 
Sim, eu acho que sim (risos).

Isso é interessante. E na relação entre pares, ou seja, entre vocês, é fácil ou não é muito fácil? Toda a gente sabe que não é fácil viver em espaços exíguos, em que as pessoas têm que se respeitar muitíssimo e respeitar as rotinas, e realmente funciona num esquema de entreajuda. Isso aconteceu sempre ou também houve sobressaltos?
Acho que foi muitíssimo bom nós vivermos todos juntos num espaço tão pequeno, porque era um veleiro relativamente pequeno para tantas pessoas.

48 metros para 44 pessoas. 
Sim, nós estávamos quatro pessoas num quarto que era minúsculo, tínhamos quatro casas de banho para 34 pessoas por isso tivemos que aprender a partilhar de uma forma que nunca faríamos em casa ou que faríamos de maneira muito diferente. Acho que, como grupo, crescemos muito e tivemos que, em vários momentos, “Step up for each other” [“Apoiarmo-nos uns aos outros”].

Sim, ajudar e chegarem-se à frente.
Chegarmo-nos à frente, exatamente, para nos ajudarmos uns aos outros. E acho que isto foi um ensinamento muito importante que eles nos deram no barco.

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She could be your home for half a year.⁠⠀ The deadline for School at Sea 2020-2021 is rapidly approaching. Apply now and don't miss out on an amazing experience and a very different way of going to school.⁠⠀ ⁠⠀ #schoolship #schoolatsea #comewithus

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Tu nunca enjoaste?
Ai, enjoei muito.

E como é que uma pessoa supera isso, porque é uma sensação que apetece desistir.
Tenho, por acaso, uma fotografia hilariante em que estou a fazer um teste de matemática no convés e nesse teste de matemática estava tão maldisposta que não parava de vomitar. Mas acho que habituei-me a estar maldisposta. Não foi muito problemático.

Como é que foi a saída do veleiro, desta grande escola no mar. Como é que voltaste a casa? Tiveste equivalência na escola, foi problemático? E depois, o que é que aconteceu na tua vida? De certeza absoluta que não voltaste a mesma pessoa.
Antes de ir tinha várias reuniões com a Direção Regional de Educação porque estava a viver nos Açores e combinámos um esquema que não era ideal, mas que funcionou, para a situação, em que eu tive de fazer exames de equivalência a todas as disciplinas que estava a estudar. Portanto, voltei do barco, fiz esses tais exames, correu tudo bem e passei o ano e fui para o 12º ano, mas…

E aí já tinhas quinze anos?
Sim.

Fizeste quinze anos dentro do barco.
Fiz no barco. Mas, entretanto, quando eu ainda estava no barco estávamos num período de mar e estava a conversar com uma dessas tais mentoras que tínhamos a bordo e ela estava-me a contar que tinha sido professora numa escola que achava que eu gostaria muito.

Como é que se chamava a escola?
Chamava-se “United World College”.

“United World College”, “UWC”.
“UWC”, sim. E eu achei: “Ok, parece interessante”. Ela dizia-me que era para pessoas que têm vontade de fazer outras coisas, que têm vontade de mudar o mundo, que têm vontade de perceber mais sobre o mundo e eu estava já toda entusiasmada, mas não tinha internet no barco, por isso não podia investigar. Mas, quando voltei a terra, depois de chegar dos seis meses, comecei a investigar e apercebi-me que essa seria a minha próxima aventura.

 Queria só fazer aqui um parêntesis para esta questão de não haver internet no barco. Por um lado é impeditivo de uma investigação maior em termos de estudos, mas por outro lado deve ser um descanso.
Tive uma paz nestes seis meses que foi incrível e que eu lembro-me quando voltei, quando acabou o período dos seis meses e me deram o meu telemóvel de volta…

"[Quando me deram o telemóvel] sentia um peso nos bolsos que eu não queria ter, porque é libertador não estar ligado a nada e termos livros em que vamos investigar, conversarmos com as pessoas que estão lá para aprendermos mais. Acho que também foi bom para perceber que podemos aprender de outras formas. Nós temos informação, e é ótimo termos acesso à informação de forma tão fácil, mas também é bom perceber que esta informação não esteve sempre lá e que não está sempre lá."

Não querias?
Não queria!

Eu percebo (risos).
Sentia um peso nos bolsos que eu não queria ter, porque é libertador não estar ligado a nada e termos livros em que vamos investigar, nos livros que temos lá, conversarmos com as pessoas que estão lá para aprendermos mais. Acho que também foi bom para perceber que podemos aprender de outras formas. Nós temos informação e é ótimo termos acesso à informação de forma tão fácil, mas também é bom perceber que esta informação não esteve sempre lá e que não está sempre lá.

Nessas conversas que tu tiveste com os teus colegas, vocês ajudavam-se a estudar para os testes, para os auto-testes que faziam? Ou eram conversas que tinham a ver com a vida em geral?
Acho que falamos de tudo o que se pode pensar que se fala.

Porque cada um tem o seu plano de estudo, não é?
Sim, em termos de escola, a maior parte dos meus colegas estava a fazer o ensino holandês, por isso não tínhamos quase nada em comum. Mas lembro-me de conversar sobre temas que estava a estudar e os outros já tinham estudado, ou vice-versa, por isso havia muito o sentido de cooperação. Por exemplo, pessoas que tinham mais dificuldade na escola, tentar ajudá-los a reforçar o plano que eles fizeram que não estava a correr assim tão bem, portanto, funcionava muito de forma de Cooperação e ajuda.

Tu já tinhas um bom inglês quando chegaste lá? Ou melhoraste incrivelmente?
Sim, eu tinha tido o inglês da escola e sempre acho que tive bons professores de inglês, por isso falava um pouco.

Era suficiente.
Era suficiente para conversar, mas claro que fui melhorando. Só falava inglês. Quando estava lá tive que aprender também holandês, por isso foi bom (risos).

"É sempre um risco sair e voltar, claro que vamos estar diferentes, mas eu acho que voltei para uma família que sempre me apoiou imenso, portanto, eu sabia que dali iria para outro sítio qualquer, e que conseguiria continuar a seguir os meus sonhos, mas houve um período de adaptação em que eu estava algo insatisfeita. Mas que foi uma insatisfação com a minha situação, não com a família e a realidade em que estava"

Quando voltaste a casa e os teus pais te voltaram a ver, sentiram alguma diferença em ti? 
Sim, porque eu no princípio estava pouco satisfeita por ter que voltar à rotina de que estava a tentar sair, mas acho que a pessoa que voltou era a mesma pessoa que eu era, mas a forma como eu comecei a olhar para o mundo é que mudou, não foi tanto a minha personalidade.

Eles viram uma filha com 14 anos sair para o barco durante seis meses, voltou com 15 anos, voltou muito mais madura e com um mundo interior incrível, mas não voltou uma pessoa que de repente em casa está insatisfeita e descontente e caprichosa.
Espero que não (risos).

Porque às vezes pode acontecer, não é? De repente a pessoa sente-se desfasada e isso transforma-se quase numa revolta. E isto agora é um bocadinho a pensar em alguns pais que podem ter filhos mais ou menos nestas idades, ou mais ou menos nesta circunstância de estarem confusos, de não saberem exatamente o que é que hão de escolher. Pais que ajudam, abrem esse mundo, e às vezes até põem do seu dinheiro, às vezes nem podem pôr, mas põem, e os filhos voltam a casa como que descontentes e insatisfeitos e, no fundo, há uma frustração enorme nos pais; não foi o teu caso?

Penso que não. É sempre um risco sair e voltar, claro que vamos estar diferentes, mas eu acho que voltei para uma família que sempre me apoiou imenso, portanto, eu sabia que dali iria para outro sítio qualquer, e que conseguiria continuar a seguir os meus sonhos, mas houve um período de adaptação em que eu estava algo insatisfeita. Mas que foi uma insatisfação com a minha situação, não com a família e a realidade em que estava.

E nem com a vida, em geral?
Não.

As coisas correram tão bem contigo que a tua irmã depois também foi para esse barco, não foi?
Sim, no ano a seguir a eu ter estado no barco, a minha irmã também foi para o “School at Sea”.

"Se isto me ensinou alguma coisa, esta experiência que eu tive e que outros portugueses já têm tido a partir daí, é que qualquer sonho que nós tenhamos é possível ser atingido. É claro que vai exigir esforço e que pode haver imensas adversidades, mas acho que muitas das coisas que nós sonhamos são possíveis de acontecer."

E ela conseguiu também o fund raising
Conseguiu.

Isso é extraordinário, também. É bom saber isso, que é para que mais jovens que tenham este sonho possam saber que aos 14, 15 anos podem sonhar em ir seis meses para ter aulas no mundo. Pode ser no mar ou noutro ponto do universo e podem conseguir fazer um fundraising.
Se isto me ensinou alguma coisa, esta experiência que eu tive e que outros portugueses já têm tido a partir daí, é que qualquer sonho que nós tenhamos é possível ser atingido. É claro que vai [exigir] esforço e que pode haver imensas adversidades, mas acho que muitas das coisas que nós sonhamos são possíveis de acontecer.

Só é impossível aquilo que não tentamos.
Exato.

Dando o salto agora para a China, para Xangai. Tu disseste que chegaste já com a ideia de ir para o “United World Colleges”. E foi fácil esta seleção também, essa candidatura?
O “United World College” é uma organização também incrível e que tem um processo de seleção que está muitíssimo bem pensado, porque o objetivo desta organização é formar jovens que estão prontos para mudar o mundo para melhor, que estão prontos para lutar. A missão é mesmo para lutar por um mundo mais pacífico e sustentável, portanto, toda a seleção é para ver se as pessoas que para lá vão têm mesmo vontade de se darem ao trabalho de perceber mais sobre o mundo, de conhecerem pessoas de todas as partes do mundo para conseguirem fazer a diferença. Portanto, nós também temos uma parte escrita semelhante ao que aconteceu no “School at Sea” e depois temos um fim de semana de seleção em Lisboa.

E aí tu já tinhas 16 anos? 
Exato.

Portanto, 14 veleiro, depois voltas com 15 e aos 16 já estás pronta para ir para Xangai. E chegaste a Xangai e foste aceite para fazer o “IB”, o “International Baccalaureate”. Quem faz um bom “IB”, seja em Portugal ou fora, no fundo está identificado para as melhores universidades, ou é candidata a algumas das melhores universidades no mundo inteiro, não é? Portanto, é de uma exigência muito grande, mas também depois se colhem frutos à frente. Tu sentias-te preparada para essa exigência?
Acho que preparada talvez não, porque foi sempre um desafio, mas o “UWC” tem uma coisa muito importante. Tem comités nacionais em todos os países que nos preparam antes de irmos para lá. Eu não sei tudo sobre o processo, o meu comité nacional saberá explicar melhor o processo de seleção do que eu, mas algo em que eles põem bastante ênfase é em nós percebermos que será um desafio, em não irmos para lá a pensar que vai ser tudo fácil mas percebermos que nós vamos para lá para sairmos da nossa zona de conforto. O que dá também um tom de desafio.

E dá medo também, ou não?
Claro, acho que dá medo mas é um medo saudável.

É um medo para uma pessoa se superar nesses medos também.
Sim.

E a opção Xangai é uma opção tua ou foi para onde foste selecionada?
O “UWC” tem 17 escolas, agora 18, no mundo inteiro, e nós quando nos candidatamos, candidatamo-nos ao movimento educativo, não nos candidatamos a nenhuma escola específica. Eu candidatei-me e a escola para a qual eu fui selecionada foi a da China, ao pé de Xangai, em Shangshu, que é mais ou menos a duas horas de Xangai. Recebi a proposta e disse logo claro que sim.

Claro, o mundo, o futuro passa pela Ásia, isso não há volta a dar. Mas Júlia, se te tivesse sido dada a escolher, o que é que tu terias escolhido? Quais teriam sido as primeiras três opções?
Eu queria mesmo ir para a “UWC”, portanto, não tinha grande escolha, não tinha grandes critérios, mas acho as minhas primeiras três escolas de preferência seriam na Índia, a da China e a da Costa Rica. Queria, essencialmente, sair um bocadinho da Europa, para conhecer culturas que fossem mais radicalmente diferentes daquela que eu conheço.

Porquê? Porque tens isso em ti, isso está no teu DNA, porque viveste e cresceste numa ilha como o Faial ou porque és assim, porque é uma cultura da tua família, porque sempre te viste assim: aberta ao mundo e com vontade de conhecer o mundo e os outros?
Não sei. Eu sempre acreditei que para conhecer o mundo tenho que conhecer as pessoas do mundo. Como já conhecia de alguma forma a realidade europeia, porque tive a sorte de poder viajar para alguns outros países de férias com os meus pais, tive oportunidades que a União Europeia nos deu para ir à Bélgica, para ir a Estrasburgo, queria sair e conhecer as pessoas, para conhecer as culturas de outras partes.

E é muito interessante, porque tu no princípio desta conversa disseste “Eu via barcos passar  e eu gostava de ver os barcos passar e também gostava de conhecer e entrar nos barcos e um dia ir” e foi isso que tu fizeste. Qual foi assim o choque mais radical quando chegaste a Xangai? 
Acho que a forma como vivem na China é muito diferente da forma como nós vivemos.

Isso é, mas isso é uma abstração. Em concreto, o que é que queres dizer com isso?
Não sei…às vezes senti, por exemplo, a pressão que muitos dos chineses tinham para serem os melhores porque há tanta competição, há tantos alunos chineses a competirem para ir para a universidade, para entrar neste mundo académico, que eles sentiam uma pressão que eu nunca antes senti. Fiquei algo chocada com o mundo rigoroso em que eles vivem. Mas também algo que me chocou muito pela positiva foi que eu cresci com muitos estereótipos do que é que a China era e lá tive a possibilidade de os desconstruir e perceber que a China é tanto mais do que aquilo que nós conhecemos.

Ou seja é o debunk the myth, não é? Ou seja, dar cabo de todos os mitos. Para além disso quais eram os outros mitos que tinhas? A comida, a alimentação? 
A alimentação era incrível, a gastronomia chinesa é algo pelo qual me apaixonei completamente. Nós no colégio não comíamos só comida chinesa, mas tínhamos sempre a possibilidade de ir nos fins de semana, e como tínhamos tantos colegas chineses podiam-nos mostrar. Eu fui, por exemplo, passar umas férias com uma amiga minha chinesa, na casa dela, em que conheci pratos que eu não fazia a ideia que existiam.

Tais como?
Já nem sequer me lembro como é que aquilo se chama, mas coisas que eu não…

Mas o quê, baratas?
Não, baratas nunca comi.

Vermes? (Risos)
Isso nunca lá cheguei,

E o esquema do “UWC” é um colégio interno, o colégio interno está no imaginário de todos os jovens, não é? Todos nós quando somos jovens temos aquela ideia mítica de que um dia gostávamos de ir viver para um colégio interno porque vimos num filme ou numa série da BBC, ou o que for, ou lemos nos livros da Enid Blyton no meu tempo, no teu tempo já não sei quais são.
Sim, também li esses livros (risos).

"Foi sem dúvida difícil, porque para além de estar lá a estudar, eu e todos os meus amigos, estávamos a tentar viver esta missão da "UWC", que consiste em participar em trinta mil atividades extracurriculares, em tentar inventar ações que possam trazer benefícios à comunidade local, por isso estávamos sempre envolvidos."

E quando uma pessoa chega a um colégio interno e vai sozinha fazer o “IB”, que é é muito, muito esticado, como se costuma dizer, como é que se organiza, onde é que a pessoa se pode desorganizar, onde é que se vai conseguir outra vez reorganizar para passar para essa fasquia que é muito muito alta?
Eu não consigo dizer que aquilo é só um colégio interno, aquilo foi a minha casa durante dois anos, porque nós…

Tu acabaste de chegar? 
Sim, cheguei agora em maio, no final de maio. São alunos selecionados de todo o mundo, acho que tínhamos mais de 100 nacionalidades representadas no nosso Campus, por isso nós vínhamos todos um pouco sem saber para que é que vínhamos. Íamos, saíamos dos nossos países, das nossas zonas de conforto, sem saber bem aquilo que nos esperava e quando chegámos lá e fomos deparados com um “IB”, que era um currículo que a maior parte de nós não conhecia, não estávamos familiarizados…

Não só não conheciam como a escola portuguesa também não está preparada para lançar os alunos para um “IB”, não é? Porque é de tal maneira exigente e de tal maneira especializado que é difícil. O high level então…
Sim.

É inatingível, quase.
Mas acho que, mais uma vez, tive professores que me ensinaram muito, estava numa escola pública no Faial e tive professores que eram incríveis e que me prepararam.

Grandes mestres.
Exato, que me prepararam para muitos dos desafios.

É uma homenagem bonita aos teus professores do Faial. Acho que mais que merecem porque tem que ter havido grandes mestres, grandes pais, grande retaguarda. Tens uma irmã, tens um irmão, toda a tua família a que faço uma vénia. Mas, como é que fizeste, ou seja, como é que é uma pessoa organizar o seu tempo, o seu dinheiro, as suas rotinas, o seu estudo, os seu tempos de lazer num mundo que é completamente desconhecido e onde tudo nos pode distrair?
Sim, foi sem dúvida difícil, porque para além de estar lá a estudar, eu e todos os meus amigos, estávamos a tentar viver esta missão da “UWC”, que consiste em participar em trinta mil atividades extracurriculares, em tentar inventar ações que possam trazer benefícios à comunidade local, por isso estávamos sempre envolvidos.

É muito dispersante também.
Há sempre imensos desafios superinteressantes em que nós nos podemos envolver, mas de alguma forma…

Desfocam daquilo que é o “core” de estudo.
Sim, mas eu acho que isto ensinou-me de grande forma a priorizar, a perceber que às vezes não faz mal falhar, porque isso era um dos meus desafios: que eu tinha grandes dificuldade em lidar com o meu próprio falhanço e o “UWC” ensinou-me que é OK não ter sempre os resultados que eu quero porque posso encontrá-los de outra forma.

E podes reverter, ou seja, podes aprender com os erros se o fizeres porque errar por errar não leva longe.
Não, exato.

Mas aprender com o falhanço é interessante porque eu acho, e todos conhecemos muitos exemplos de pessoas para quem o primeiro ano foi difícil e não conseguiram ter as notas que gostariam de ter tido e não conseguiram organizar-se como poderiam ter, eventualmente, conseguido organizar-se, mas depois há um à frente, não é? Há um à frente em que as pessoas revertem tudo isso e às vezes até as notas e conseguem transcender-se exatamente porque falharam atrás, é isso? 
Sim, penso que sim. E para além disso nós no “UWC”, não vamos para lá… não são assim largados alunos de todo o mundo, sozinhos sem qualquer género de mentoria. Nós tínhamos professores que serviam como mentores, para nos ajudar para ser o género de uma figura familiar num mundo tão distante daquele que nos era realmente familiar. Portanto, nós também temos adultos lá que nos ajudavam a manter no rumo certo, para além do facto de termos amigos. Por exemplo, eu quando estava agora na China tinha portugueses comigo, e nós também funcionamos um bocadinho como uma família nacional, que nos apoiamos uns aos outros.

Posted by UWC on Monday, March 18, 2019

E cada pessoa que entra para o primeiro ano tem sempre alguém do segundo que também é uma espécie de padrinho ou uma espécie de buddy.
Sim, nós funcionamos muito nesse género de os segundos anos tomarem um bocadinho conta dos primeiros anos, os primeiros anos apoiarem os segundos anos com a carga escolar que é um bocadinho maior por isso. Há um sentido de entreajuda e um bocado um sentido de família.
Qual é o passo a seguir? Qual é a aventura que se segue?
Depois de acabar estes dois anos entrei na universidade “NYU Abu Dhabi”, mas decidi tirar um gap year, entretanto.

É muita coisa em pouco tempo (risos).
Achei que queria explorar outras partes de mim e do mundo, que não tenho possibilidade de o fazer quando estou no meio académico, por isso decidi ficar agora uns meses em Portugal para reconectar com as minhas raízes e para trabalhar também. Estou agora no processo de procurar um trabalho.

No Faial?
Não, aqui em Lisboa, porque, entretanto, a minha família mudou-se aqui para Lisboa.

De onde vocês são, aliás.
Exato, e depois no segundo semestre vou para Timor, onde vou voluntariar, já estou em contacto com uma organização em que vou tentar lá ajudar e aprender com eles.

E porquê Timor?
Porque o meu pai trabalhou em Timor e a minha irmã voluntariou também em Timor neste mesmo sítio.

Voluntariou é mesmo já um inglesismo, volunteer (risos).
Sim (risos).

Voluntariou-se ou foi voluntário, também.
Voluntariou-se, desculpe (risos). Mas ela esteve lá e eu no verão passei lá mais ou menos um mês e apaixonei-me pelo amor que aquelas pessoas emanam. Por isso, decidi ir também para lá.

Será que tu também levas no coração a possibilidade de levar para lá a “UWC”, pôr lá um colégio “UWC”? 
Sim, eu acho que tenho um sonho enorme de formar um “UWC”, nomeadamente em Timor, mas isso é ainda um sonho distante. Quero começar a investigar.

Mas eu preciso de ter cuidado contigo, que tu entre sonhares e concretizares é um fósforo.
Sim, mas é sem dúvida um sonho que eu tenho.

É? 
Já comecei a investigar as minhas possibilidades.

Porquê? Porque tu sentes que acima de tudo tens em ti também uma vontade enorme de partilhar conhecimento e que mais pessoas vivam a experiência que tu viveste.
Acho que as experiências que eu tenho tido a sorte de viver, todas as pessoas, os jovens deviam ter a possibilidade de o fazer se quiserem, portanto, uma das minhas grandes missões de vida é tentar dar estas oportunidades a mais jovens portugueses, do mundo.

E em que é que tu acreditas? 
Ai isso é uma grande pergunta. Acredito no valor da educação, acredito que nós podemos tornar o mundo num lugar mais sustentável, acredito que pode ser um mundo pacífico, mas acho que tudo isso passa por uma educação mais focada em perceber os outros, em perceber o mundo e em perceber, percebermo-nos a nós próprios.

O que é que esperas de Abu Dhabi? Vais para lá daqui a um ano, portanto, estarás a fazer a tua universidade quando tiveres dezanove anos, e vais estar três anos pelo menos lá.
Não necessariamente, porque este campus para onde eu vou é um campus da “New York University”. Eu fui aceite em Abu Dhabi, mas depois tenho a possibilidade de eventualmente saltar para outras partes do mundo, que é o que eu planeio fazer (risos).

Que é o que tu gostas de fazer (risos). 
Mas ainda não sei bem exatamente o que é que eu quero estudar. Acho que talvez dentro da área da educação e psicologia.

"Os meus objetivos foram sempre desenhados por mim, o que acho que é fundamental: sermos nós próprios a desenhar, a designar aquilo que nós queremos alcançar para serem os nossos próprios objetivos."

Ou seja, já te deixaste da biologia, não é?
Sim, a biologia ficou…

Para trás. Gostava que dissesses qualquer coisa sobre o que esta família, esta retaguarda fez de radicalmente importante e decisivo na tua vida para tu seres quem és.
Sempre me ajudaram a sonhar, ajudaram-me a perceber a mim própria, ajudaram-me a perceber que os meus sonhos podem ser a realidade e acho que sonharam comigo, não estava nunca sozinha nestes sonhos, estava sempre com eles.

E ajudaram-te a lidar com os teus erros e os teus fracassos.
Sim, sem dúvida.

E não te castigaram excessivamente por eles. 
Não, nem me puseram pressão para alcançar nada. Os meus objetivos foram sempre desenhados por mim, o que é fundamental: sermos nós próprios a desenhar, a designar aquilo que nós queremos alcançar para serem os nossos próprios objetivos.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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