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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Marcelo e Gouveia e Melo: uma guerra fria com quatro anos que voltou a aquecer

Presidente até gostou do trabalho de Gouveia e Melo em Pedrógão e apoiou escolha para task force, mas na pandemia tudo azedou. Marcelo terá tentado evitar que fosse CEMA e até candidato presidencial.

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Henrique Gouveia e Melo negou que tenha sido uma jogada de Marcelo a principal motivação para avançar para Belém, mas considera que o Presidente da República tentou mesmo impedir que fosse candidato. Na resposta, Marcelo Rebelo de Sousa desafiou a que procurem palavras suas que o comprovem e, pelo meio, sugere desrespeito institucional por parte do almirante candidato. A guerra fria entre o ex-Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) e o comandante supremo das Forças Armadas começou há quatro anos, mas voltou a aquecer com declarações do almirante num novo livro em formato de grande entrevista. Com exceção de um mês, no verão de 2023, numa ‘trégua do ginger ale’, a relação entre ambos tem sido difícil.

Marcelo até pressionou o Governo a escolher Gouveia e Melo para a task force da vacinação, pois queria um militar na organização da mega-operação. Mas, a partir daí, tudo azedou. Tentou travá-lo como CEMA, terá tentado desviá-lo para o topo das Forças Armadas e — mesmo no dia em que lhe concedeu a mais alta condecoração — não deixou de relativizar alguns dos seus feitos na vacinação. O histórico é de conflito e dificilmente vai parar por aqui.

O mais recente episódio da guerra entre o ex-almirante e o ainda comandante supremo

Henrique Gouveia e Melo não gostou de um take que a Agência Lusa publicou sobre o livro As razões, da jornalista Valentina Marcelino, por o título indicar qual foi a ação de Marcelo Rebelo de Sousa para travar a sua candidatura a Belém que o levou a candidatar-se à Presidência da República. O almirante contesta fortemente que tenha sido essa a razão da sua candidatura. Mas, afinal, o que disse Gouveia e Melo?

Na resposta a uma pergunta da jornalista sobre se tinha sido o artigo do Expresso a motivar o avanço para Belém, o almirante respondeu: “Foi esse artigo que me fez definir o rumo. Porque quando o li fiquei mesmo danado.” Ora Gouveia e Melo alega que houve muitas outras razões para avançar e joga no equívoco, uma vez que se podia estar referir ao Governo ou a outras fontes do artigo.

Se aí podem existir outras interpretações é, por outro lado, claro na mesma resposta que Gouveia e Melo considera que tanto Montenegro como Marcelo tentaram travar a sua candidatura: “O Governo e também o senhor Presidente da República não pareciam interessados em nada da Defesa para além de fazer correções dos ordenados dos militares. Assim deduzi que o que pretendiam era que eu ficasse amarrado à Marinha com o eventual prémio de, no fim, poder ser CEMGFA [Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas] e atingir o topo da carreira militar. Pensaram, especulo eu, que ficaria muito contente por me darem essa oportunidade. Mas essas pessoas verdadeiramente não me conheciam porque isso era a única coisa que eu nunca faria: ser príncipe só para cortar fitas.”

Esta citação, ipsis verbis, comprova que Gouveia e Melo valida a tese que o chefe de Estado preferia a sua continuidade na Marinha para que ficasse impossibilitado (“amarrado”) de avançar para Belém. O que aliás se pode ler nas páginas do livro, cedidas ao Observador pela Porto Editora e que aqui publicamos na íntegra.

Abra a fotogaleria para ver as páginas polémicas do livro As Razões, de Valentina Marcelino, na íntegra:

4 fotos

A citações do livro abriram assim uma nova frente de batalha do almirante com o Presidente da República, onde Marcelo não resistiu a entrar. O Presidente começou por dizer que desde o momento em que se tornou candidato presidencial que tem por “princípio não comentar os Presidentes anteriores nem em funções” porque “faz parte do respeito das instituições”. Era um tiro ao almirante: estava a acusá-lo de desrespeito institucional.

Gouveia e Melo, horas depois, na CNN Portugal, mantinha a distância para Marcelo. Desde logo recusou comentar as relações entre os dois (“não é relevante”), mas logo admitiu ter “ficado danado” não apenas com o artigo em causa, mas “mesmo danado com uma frase que ele disse” quando tomou posse como CEMA.

Marcelo tentou mesmo impedir que Gouveia e Melo fosse candidato?

Marcelo foi questionado diretamente sobre se alguma vez tentou “puxar o tapete” a Gouveia e Melo para não ser candidato presidencial, o que não negou. Limitou-se a responder: “Não dei essa entrevista”. Marcelo chega a dizer “não encontram nenhuma entrevista com palavras minhas“. O que o Presidente quer dizer é que todas as notícias que saíram sobre o assunto foram atribuídas a fonte de Belém e não ao próprio. Ou seja: que não encontram nada da Presidência em “on”.

A cronologia deste novo round Marcelo vs Gouveia e Melo começou há um ano. A propósito do Orçamento do Estado para 2025, a 20 de setembro de 2024, o Observador escrevia, citando fonte de Belém, que o Presidente estava preocupado com o facto de a não aprovação do OE “empurrar um anti-sistémico para Belém”. A mesma fonte dizia que “sem Orçamento do Estado, um candidato que diz ser fora do sistema ganharia com isso. O candidato do Chega [André Ventura] não tem força para ganhar, mas há outro que tem e que pode ir buscar votos ao Chega, ser mais abrangente e ganhar”. O Presidente falou, aliás, neste risco quer nas conversas pré-orçamentais com Pedro Nuno Santos, quer nas mesmas conversas com Luís Montenegro.

Marcelo acabaria por dar posse, aparentemente contrariado, a Gouveia e Melo a 23 de dezembro de 2021, mas numa cerimónia sem discursos e com uma frieza na sala que nem as máscaras, nos rostos de ambos, conseguia disfarçar. Gouveia e Melo não especificou, este domingo na CNN, qual foi a frase que o deixou "mesmo danado" nesse dia. Recuperando o que o Presidente disse nesse dia, há matéria para desconforto.

Seis dias depois, o semanário Expresso trazia nova notícia sobre as preocupações de Marcelo com uma candidatura de Gouveia e Melo a Belém, cujo título era claro: “Marcelo quer travar candidatura presidencial do almirante Gouveia e Melo”. O artigo expunha ainda um plano do Presidente — tendo Montenegro como potencial aliado — de reconduzir o almirante para que este estivesse mais dois anos como CEMA e, assim, fosse forçado a desistir de Belém. Na semana seguinte, também no Expresso, um novo artigo (o tal que o deixou “danado”) dizia que Gouveia e Melo ficaria na Marinha caso o Governo cedesse a algumas exigências para modernizar a Armada, incluindo a compra de dois submarinos. Quanto a Marcelo, entre as duas notícias, tinha dado uma garantia com palavras suas: “O Presidente não apoia, não desapoia, não acelera, nem trava candidaturas”. As paredes de Belém não diziam, então, o mesmo.

A outra guerra: a nomeação para a Armada

Na guerra fria entre Marcelo e Gouveia e Melo já tinha sido registado outro episódio quando o almirante foi nomeado Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) perto do Natal de 2021. O chefe de Estado travou, na altura, em outubro, o nome de Henrique Gouveia e Melo para CEMA, mas quando o Governo insistiu em dezembro — tendo em conta a proximidade das legislativas — Marcelo ficou sem margem para dar uma segunda nega e acabou por aceitar para não criar um conflito institucional, como escreveu o Observador.

Marcelo só queria nomeação de Gouveia e Melo em março. Almirantado não se pronunciou

O livro “Gouveia e Melo. Um Biografia“, escrito por Vítor Matos, vem confirmar as resistências de Marcelo. Mais do que isso: ouvido pelo o autor, o então ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, assume que “o Presidente da República queria absolutamente evitar que Gouveia e Melo viesse a ser CEMA e foi por isso que Mendes Calado acabou por ser reconduzido”. António Costa acabaria por dizer, no mesmo livro, que “só o Presidente da República poderá explicitar por que não nomeou Gouveia e Melo para CEMA, razões que são, aliás, do conhecimento do almirante”. Tanto Cravinho como Costa apontam o dedo a Marcelo. O Presidente não desmentiu estas afirmações.

Marcelo acabaria por dar posse, aparentemente contrariado, a Gouveia e Melo a 23 de dezembro de 2021, mas numa cerimónia sem discursos e com uma frieza na sala que nem as máscaras, nos rostos de ambos, conseguia disfarçar. Gouveia e Melo não especificou, este domingo na CNN, qual foi a frase que o deixou “mesmo danado” nesse dia. Mas recuperando o que o Presidente disse nesse dia, há matéria para desconforto.

Ao condecorar o antecessor de Gouveia e Melo, Marcelo sugeriu que a mudança na chefia militar naquela altura (e não em março de 2022) foi um capricho de Gouveia e Melo e que só foi atendido pela nobreza de Mendes Calado de se disponibilizar para sair: “Assim se antecipa de alguns meses o termo do segundo mandato, a ocorrer de acordo com disponibilidade manifestada pelo Senhor Almirante CEMA. O Presidente da República agradece e louva o muito qualificado desempenho do Senhor Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, aliás, no quadro de uma carreira brilhante, e condecora-o com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo”.

Marcelo e a desvalorização de Gouveia e Melo (antes de Cavaco)

Cavaco Silva surpreendeu ao entrar na campanha presidencial não só para apoiar Marques Mendes, mas para atacar Gouveia e Melo. Num artigo de opinião publicado há quatro dias no Observador, o antigo Presidente desvalorizou o sucesso do almirante à frente da task force da vacinação, sugerindo que haveria muitos outros militares que conseguiriam ter a mesma eficácia a gerir a logística do plano.

Na verdade, Marcelo foi o primeiro a desvalorizar os feitos de Henrique Gouveia e Melo, ironicamente quando o condecorou. A 27 de dezembro de 2024, três anos depois de o empossar, o Presidente condecorou o almirante — como fez com todos os CEMA — e até o começou por elogiar. No entanto, não resistiu a desmontar todo o percurso de Gouveia e Melo para explicar como se afirmou do ponto de vista mediático. E, para isso, socorreu-se de Ortega y Gasset para dizer, ponto por ponto, que o almirante é, como todas as pessoas, fruto dele “próprio e as suas circunstâncias“.

Basicamente, nas entrelinhas, Marcelo sugeriu que Gouveia e Melo se tornou numa figura de proa por estar no lugar certo à hora certa. O chefe de Estado atribuía à sorte, ou melhor, às circunstâncias, o mediatismo e “protagonismo” de Gouveia e Melo. “As calamidades permitiram-lhe uma intervenção diferente. A experiência em 2017, aquando dos fogos. Coube-lhe, a logística alimentar e isso deu-lhe um contacto privilegiado com as populações naquele municípios”. E continuou: “Mais tarde, num período de calamidade, que determinou Estado de emergência, a experiência do protagonismo daquilo que foi uma campanha de vacinação em Portugal ao longo do ano de 2021.” Para Marcelo, o almirante foi buscar a Pedrógão Grande o à vontade junto das populações e à pandemia a experiência para ser um protagonista mediático.

Duas semanas antes, nas comemorações do 10 de junho, Marcelo também tinha feito questão de puxar o almirante para o plano das câmaras. Durante a visita à exposição das Forças Armadas, no Cais da Régua, o Presidente da República abordou Gouveia e Melo durante um brinde quando este ficou mais para trás: “Está ali um copo para si… ah, não bebe”.

Marcelo encontrava ainda razões para a facilidade que o Almirante teve em comunicar e ser visível durante o tempo em que chefiou a Armada. “O facto de, em várias circunstâncias, ter sido porta-voz da Marinha e por vezes do Estado-Maior-General das Forças Armadas, permitiu-lhe um contacto privilegiado da sociedade civil e uma compreensão do fenómeno mediático em transformação na sociedade portuguesa.”

Gouveia e Melo está “em guerra” com Marcelo Rebelo de Sousa?

O pacto do ginger ale: a alegada trégua de Marcelo que foi sol de pouca dura

Houve um período, no verão de 2023, que Marcelo Rebelo de Sousa teve uma aparente aproximação ao almirante Gouveia e Melo. No final de junho de 2023, na inauguração do Memorial das Vítimas dos Incêndios de 2017, em Pedrógão Grande, o almirante tentou passar despercebido, mas o Presidente não deixou. Com poucas referências individuais no discurso, Marcelo fez questão de dizer que dias depois da tragédia, “pelo meio”, fez visitas ao terreno onde encontrou “o senhor almirante [Gouveia e Melo] a pôr de pé uma máquina logística que foi fundamental”.

Naquele discurso ao final da tarde em Pedrógão Grande, Marcelo também falou do papel “dos outros ramos das Forças Armadas”, mas não só decidiu dar destaque mediático ao “senhor almirante”, como lembrou que “foi a Marinha que tratou de assegurar a alimentação de milhares de pessoas durante longos dias”. Marcelo não nomeou nenhum autarca, nem nenhum membro do Governo (à exceção do primeiro ministro), mas fez questão de o fazer com o Chefe do Estado-Maior da Armada. E Gouveia e Melo também não se escondeu: assim que os protagonistas avançaram para colocar as coroas de flores no monumento, ficou na primeira fila do lado das restantes entidade.

Duas semanas antes, nas comemorações do 10 de junho, Marcelo também tinha feito questão de puxar o almirante para o plano das câmaras. Durante a visita à exposição das Forças Armadas, no Cais da Régua, o Presidente da República abordou Gouveia e Melo durante um brinde quando este ficou mais para trás: “Está ali um copo para si… ah, não bebe”. Numa entrevista, Gouveia e Melo tinha dito que se divertia com os rapazes na Marinha, mas que, “como não bebia, era o ‘carro vassoura’ que tinha de os levar para casa”. E acrescentou, garantindo ter uma disciplina inabalável: “[Bebo] apenas para fazer um brinde. Não gosto [de beber]. Beber e sentir que podia perder o controlo fazia-me muita aflição. Uma vez bebi uma cerveja: aquilo era amargo. Foi a última.”

[Há dúvidas até ao fim que acabam na vitória mais curta da História. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir o último episódio aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

Voltando à Régua, durante a visita, a seguir ao Presidente Marcelo, o Almirante foi o mais desafiado a tirar selfies com os populares, ficando destacadamente em segundo no ranking da popularidade da comitiva civil-militar. A quantidade de vezes que Gouveia e Melo andou colado ao Presidente da República foi, de longe, superior a qualquer outro chefe militar. Depois de ter dito de manhã que era preciso cortar os “ramos mortos” (numa referência então ao desgastado ministro João Galamba), Marcelo diria, ao lado de Gouveia e Melo, que nas Forças Armadas “só há ramos vivos”.

Acabada a visita de mais de duas horas, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu subir a colina a pé até ao Auditório Municipal do Peso da Régua (AUDIR), onde decorria a feira de vinho anual. Gouveia e Melo, tal como outros chefes militares, seguiu-o, mas houve uma paragem técnica a meio para refrescar na esplanada de um quiosque. À mesa ainda se debateu que o ideal, perante o calor forte, seria uma cerveja, mas logo um dos militares deu uma ideia que agradou a todos: “Ginger ale”. Marcelo gostou da ideia e todos pediram o mesmo. O Almirante continuava sem consumir nada e, após pressão do grupo, pediu água. Estavam esgotadas, lamentava o proprietário. Teve mesmo de seguir o conselho do “comandante supremo”: a tarde de campanha popular foi, assim, encerrada a ginger ale. Um raro consenso.

Nesse altura a potencial candidatura de Gouveia e Melo já era uma pequena obsessão para Marcelo. Meses antes, no mundo dos centros de sondagem, circulou, como o Observador escreveu na altura, a informação de que o próprio Presidente foi dos primeiros a fazer a sugestão de que o nome de Gouveia e Melo devia ser testado em sondagens.

Outro dado curioso da já longa relação entre ambos é que terá sido Marcelo Rebelo de Sousa a sugerir ao Governo que Gouveia e Melo fosse nomeado coordenador da task force. O Presidente, a par do então líder da oposição Rui Rio, pressionavam, antes da escolha do então vice-almirante, que o cargo, que era assumido de forma desastrosa por Francisco Ramos, fosse ocupado por um militar. Assim foi. E assim nasceu Gouveia e Melo como figura mediática.

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