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Natal com os irmãos de armas

São 181 os militares portugueses que vão passar o Natal de serviço no Kosovo, longe da família. À mesa, contudo, não faltará bacalhau, bolo-rei e os irmãos reunidos - se não os de sangue, os de armas.

“Imagine-se a andar todos os dias durante seis meses pelo seu bairro. Chega a um ponto em que já o conhece como à palma das mãos. Chega ao ponto em que vê uma janela nova ou um panfleto novo naquele muro e consegue perceber que ele antes não estava ali”. Está a imaginar? “É o que nos acontece aqui”. O bairro aqui é a cidade de Pristina, capital do Kosovo, e o tenente João Correia é um dos 181 militares portugueses que por estes dias adota esse “bairro” como seu. Pelo menos até abril, altura em que termina o período de seis meses de cada destacamento das Forças Armadas portuguesas naquele teatro de operações nos Balcãs.

Conhecer o bairro é uma das principais funções dos soldados portugueses que pegaram nas armas e nas bagagens e rumaram ao Kosovo. Patrulhar. Palmilhar a cidade regularmente para “mostrar presença”. Em suma, “fazer contacto com a população, mostrar que estamos cá”, explica ao Observador o primeiro-sargento Bruno Rodrigues, que comanda uma secção de sete homens habituados às patrulhas. O objetivo é registar todas as informações possíveis sobre o que se passa no terreno. Fazer perguntas, estar atento aos sinais que possam ser indício de eventuais problemas e, depois, levar a informação para o batalhão, onde é tratada e usada para precaver qualquer tumulto entre a maioria muçulmana albanesa e a minoria sérvia.

A maior parte da população do Kosovo é de origem albanesa. A minoria sérvia representa aproximadamente 5% da população kosovar

Habituados à presença das tropas da NATO desde 1999, eles, os kosovares (sejam albaneses, sérvios ou turcos), acenam, cumprimentam os militares e, ainda que não se entendam na língua, conversam. “Entendem pelo menos por que estamos cá, sabem qual é a nossa função e veem-nos como alguém que os está a ajudar a fazer com que o cenário se mantenha calmo”, explica o sargento Rodrigues.

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Por isso é que, à passagem de um comboio de veículos escoltados pelos militares portugueses da KFOR (Kosovo Force) todos os civis abrem caminho na estrada. Neste caso, a escolta era para o ministro da Defesa português, José Pedro Aguiar-Branco, que, no início de dezembro, foi a Pristina fazer a tradicional visita de Natal às tropas portuguesas que, juntamente com o contingente húngaro, integram a KTM (Kosovo Tactical Reserve Manoeuvre) – a chamada força de reserva tática.

A visita foi mais ou menos relâmpago, mas serviu para levantar o moral das tropas a quem foi dado um bilhete de ida para o Kosovo em outubro e outro de volta com data de abril. Pelo meio fica o Natal, a viragem do ano e as saudades. Tudo a mais de três mil quilómetros de distância de casa.

Gerir o skype: uma questão de estratégia

O Natal e o fim do ano “trazem normalmente coisas boas”, começou por dizer o general Pina Monteiro, chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas, que acompanhou o ministro na visita a Pristina e no almoço com as tropas. E este ano não será exceção, já que “não se avistam nuvens negras para vós”. A audiência era composta por militares atentos, mas ansiosos para que soasse o sinal de partida para o almoço, que já arrefecia à sua frente; e a mensagem era de confiança e alento. Mas a verdade é que, estar fora de casa ao serviço do país numa época como esta, pesa na equação.

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Principalmente porque “nem toda a gente tem noção do que se passa aqui no conflito no Kosovo” e a família e amigos podem não compreender a necessidade de estar longe. Por isso é que o apoio da família é “fundamental”, garante ao Observador o tenente João Correia, que comanda um pelotão e tem à sua responsabilidade 27 homens.

Mas, parecendo que não, família não há só uma. E à falta da primeira, o apoio é feito na outra. “Tal como a família que temos em casa, esta é a nossa família fora de casa”, diz, acrescentando que o grupo de trabalho que comanda em Pristina já o acompanha desde há três anos, em Portugal, e por isso os laços são firmes. “Apoiamo-nos na dinâmica de grupo para levar o barco para a frente e para nos ajudarmos a nós próprios nos momentos mais difíceis”, acrescenta. O tom é sério, mas é logo substituído por estrondosas gargalhadas quando um camarada do batalhão se aproxima apenas pelo gozo de interromper a conversa.

Ainda assim, o tenente João Correia aproveita as facilidades do acesso à internet (e ao skype) que os militares têm no campo português de Slim Lines para falar diariamente com a família. Aliás – a lembrança é curiosa e suscita-lhe mais algumas gargalhadas -, feitas as contas, fala mais vezes com a família estando no Kosovo do que estando em Portugal. “Porque em Portugal estou cinco dias por semana fora de casa mas não existe esta sensação de separação espacial, estou logo ali a trabalhar numa cidade ao lado. E estando aqui no Kosovo, há sempre o receio de que alguma coisa possa acontecer; a falta de informação custa muito à família”, constata.

A avaliar pelas várias opiniões existentes entre os militares, gerir as saudades é uma questão estratégica. Para a sargento-ajudante Rosa, uma das sete militares portuguesas no batalhão, a estratégia é falar com o filho só uma ou duas vezes por semana. Só? Sim. “O meu filho cresceu neste ambiente, sabe que a mãe é militar, e desde cedo fiz questão de o habituar a não falar todos os dias para o caso de um dia falhar”. Falhar a mãe ou falharem as condições técnicas para as comunicações, explica.

Além de que as notícias são “como pólvora” (principalmente as más) e por isso não há necessidade de manter os entes queridos informados diariamente sobre a sua segurança. É mais ou menos assim: se não se falar do Kosovo nas notícias, está tudo bem, diz a sargento-ajudante que está encarregue de tratar do reabastecimento e da logística do batalhão.

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Sem os mimos da família e o conforto do lar, o contingente português e o contingente húngaro, que constituem a força de reserva da KFOR, preparada para intervir a qualquer hora e em qualquer área do Kosovo, e até da Bósnia, fazem de tudo para que as instalações do campo militar de Slim Lines (propriedade portuguesa) soem menos a estrangeiro e mais a nacional. À entrada do aquartelamento há mesmo uma “Casa de Portugal”, como lhe chamam, onde só se fala português e onde a televisão está sintonizada nas notícias sobre a prisão de José Sócrates.

De resto, a camaradagem é evidente e a preocupação com o bem-estar das tropas também. Numa das salas de convívio, junto ao bar, está uma fotografia de um soldado, com o nome e a data de nascimento. O nome não é português (húngaro, possivelmente), mas a moldura e o gesto solene fazem temer-se o pior. Mas não. Rafael Viseu, que é uma espécie de relações públicas do batalhão, desfaz rapidamente o mal-entendido. “Hoje é o seu aniversário”, diz, apontando para a fotografia. “Tentamos sempre assinalar os aniversários de toda a gente, incluindo dos húngaros”, para que se sintam acarinhados nessas alturas especiais. Assim, além da moldura colocada na sala, os aniversariantes são, regra geral, convidados a almoçar com os comandantes. “É uma forma de mostrarem que se preocupam”, explica.

Todos os dias de manhã, na formatura, os soldados húngaros cumprimentam os portugueses com um 'bom dia' bem pronunciado. "E nós respondemos com um jó reggelt", o mesmo em húngaro

Instrução dura, combate fácil

Por esta altura, em 2014, quinze anos depois da guerra do Kosovo que deixou aquele território com profundas divisões étnicas e tensões iminentes, o teatro de operações está “calmo”. O primeiro-sargento Bruno Rodrigues é um dos responsáveis pelas patrulhas e por isso conhece o “bairro” como a palma das suas mãos. “Em cenário de conflito nunca sabemos quando isto pode virar, mas ultimamente temos estado num período calmo, apesar de as diferenças étnicas ainda serem muito vincadas”, diz. O facto de ser inverno também ajuda a que não haja tantos tumultos e manifestações.

Então onde se veem essas diferenças? “Reconhece-se à passagem quem é albanês e quem é sérvio, mais não seja porque há muita marcação de território através da colocação de bandeiras. Mas mesmo nesses espaços, já se nota que começa a haver uma mistura saudável entre as diferentes etnias”, explica o sargento. Quando assim é, o importante é os militares não tomarem partido nem de uns nem de outros e encontrarem o equilíbrio entre mostrar que são uma força de segurança que está ali para impor a ordem e, ao mesmo tempo, criar uma relação de empatia com os locais. Coisa que, para o sargento Rodrigues, “é fácil”: é inato aos portugueses.

Ultimamente temos estado num período calmo, mas em cenário de conflito nunca sabemos quando isto pode virar.
Primeiro-sargento Bruno Rodrigues

A declaração unilateral de independência face à Sérvia também já lá vai (foi há quase sete anos, em 2008), por isso o objetivo da missão agora é manter a estabilidade na região até os kosovares conseguirem fazê-lo sozinhos. “Medo há sempre”, e nisso todos concordam. Medo do desconhecido, do conflito que está sempre preso por um fio e pode rebentar a qualquer momento. “Somos é treinados para o gerir”, afirma o tenente João Correia.

Bruno Silva, primeiro-cabo e comandante de esquadra, lembra-se de uma frase que resume muito bem o sentimento que reina no batalhão: “Instrução dura, combate fácil”. “Por alguma razão é este o lema da nossa formação”, diz, mostrando que o objetivo é “estarmos preparados a 100% para qualquer situação que possa aí vir”. Só a preparação faz com que a intervenção seja eficaz.

Neste momento, as Forças Armadas portuguesas têm no Kosovo 181 efetivos – 177 na KTM e quatro no quartel-general da KFOR. Um número que pode vir a ser reduzido em 2016, segundo informou o ministro José Pedro Aguiar-Branco durante a visita que fez ao contingente. Disse que a missão portuguesa no Kosovo vai ser reavaliada em 2015 em função “do contexto internacional” e admitiu mesmo a participação podia ser diminuída em 2016. Já em 2011, Portugal tinha reduzido a sua participação em cerca de uma centena de efetivos. Veremos. Sobre isso, os oficiais, sargentos e praças preferem não se pronunciar. Para o tenente Correia é simples: “Tudo o que é decisão política não é connosco. Seja qual for a missão nós estamos cá para a executar”.

Uma escolha difícil

Para a maior parte dos 181 militares portugueses, passar o Natal e a passagem de ano em Pristina não é uma escolha. A missão é rotativa e, se a uns calha o período do verão, a outros calha o período do inverno. Mas há quem, por superioridade hierárquica ou apenas sorte, possa optar por tirar férias neste período festivo.

É o caso do coronel Artur Brás, que não está alojado no campo de Slim Lines mas sim no quartel-general da KFOR, onde assume uma função de topo, comandando as operações psicológicas e de informação da Kosovo Force. Ao Observador, mostra com orgulho o trabalho que tem sido feito no âmbito do ensinamento à população local das regras de boa conduta e de respeito pelas diferentes etnias. A revista mensal 4U magazine, ou a rádio local K4, que produzem conteúdos sempre nas duas línguas – albanês e sérvio – são exemplos disso. É visível o orgulho e o brio no trabalho da missão de estabilidade da NATO, que já dura há 15 anos. Como também o são as saudades de casa.

Esfregando as mãos para acalmar o frio que, pelas 16h e já com o cair da noite, se faz sentir à porta do quartel-general da KFOR, o coronel Artur Brás lembra com saudade os dias que passou no comando do Regimento de Infantaria em Viseu, onde estava antes de partir para o Kosovo, e deixa escapar que por esta altura já podia estar em Portugal junto da família. Mas não. “Preferi passar o Natal aqui”, diz. Porquê? A resposta é mais fácil e mais pronta do que a escolha: “Para dar o exemplo”. É justo.

"É uma segunda família que acaba por ser quase a primeira, porque provavelmente passamos mais tempos juntos, mesmo quando estamos em Portugal".
Sargento-ajudante Rosa

Quem também pôde escolher foi o cabo Bruno Silva, não por força da hierarquia mas por benefícios de fim de “mandato”. É o praça mais antigo do batalhão (apesar da tenra idade) e, por estar a aproximar-se o fim do contrato, podia ter escolhido este período, que é o mais desejado, como férias. Decidiu, no entanto, abdicar da benesse para poder passar a quadra com os camaradas. Nota-se que a decisão foi ponderada ao milímetro. “O facto de estar com um grupo tão unido num teatro de operações como este, quer esteja em conflito constante ou não, fez-me perceber que devia dar a oportunidade de passar esta época festiva com os meus camaradas, já que é o último ano que estou cá. Depois o resto da vida terei oportunidade de dedicar à família, como é natural”, explica.

Ainda faltam uns dias, mas a logística já está providenciada, garante a sargento-ajudante Rosa ao Observador. No refeitório, que é também a maior sala comum do batalhão, não falta a árvore e as decorações de Natal. Rosa escolhe as palavras com cuidado para não revelar todas as surpresas aos colegas que, ao lado, ouvem a conversa.

Uma coisa garante: o bacalhau não faltará à mesa, assim como o bolo-rei e as passas para o dia 31. “Será uma ceia tipicamente portuguesa, em família, e partilhada também com alguns camaradas húngaros”, diz. Partilhada, salvo seja, porque as refeições serão à parte. É que, apesar de gostarem muito da gastronomia portuguesa, os companheiros da força mista da KTM não gostam de peixe… E, perdoe-se, mas tradição é tradição. Em Portugal ou no Kosovo.

 
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