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epa12460740 US President Donald Trump (L) greets Ukrainian President Volodymyr Zelensky as he arrives at the West Wing of the White House in Washington, DC, USA, 17 October 2025. The leaders are scheduled for a working lunch in the Cabinet Room, where President Zelensky is expected to request long-range missiles as part of an arms package.  EPA/SHAWN THEW
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▲Zelensky foi recebido por Trump na Casa Branca pela terceira vez este ano

SHAWN THEW/EPA

▲Zelensky foi recebido por Trump na Casa Branca pela terceira vez este ano

SHAWN THEW/EPA

Nem tempo a Putin, nem armas a Zelensky. Trump aproveita "ímpeto" do Médio Oriente para impor a sua estratégia para a paz na Ucrânia

Zelensky foi a Washington pedir mísseis Tomahawk, mas não saiu com novas garantias. Impelido pela trégua no Médio Oriente, Trump quer chegar à paz na Ucrânia pelo mesmo caminho: com um acordo.

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A semana de Donald Trump começou em Israel e no Egito, onde assinou oficialmente a primeira fase de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Segundo a contagem do autoproclamado “Presidente da Paz”, este foi o oitavo conflito internacional que resolveu em oito meses de mandato. Mas antes de a semana acabar, o foco do Presidente norte-americano já mudou de continente e recaiu sobre aquela que quer que se torne a nona guerra da lista: a da Ucrânia. “Eu adoro resolver guerras”, declarou esta sexta-feira, garantindo que o objetivo por detrás da longa lista é a satisfação de travar a “morte de pessoas”.

Foi com esta justificação que, esta sexta-feira, Trump recebeu Volodymyr Zelensky na Casa Branca para um almoço de trabalho. A relação entre os dois chefes de Estado tem sido tudo menos linear, mas, à terceira visita à residência presidencial este ano, o líder ucraniano apareceu com um guião bem estudado: vestido de forma “elegante” — o elogio e a aprovação do traje foram feitos por Trump — e com uma longa lista de agradecimentos, elogios e ofertas de negócios. “Estamos a começar a entender-nos um ao outro”, considerou Zelensky, em declarações aos jornalistas antes do almoço.

Em cima da mesa, estava um pedido concreto de Kiev: a permissão para comprar mísseis de cruzeiro de longo alcance Tomahawk, com capacidade para, disparados a partir da Ucrânia, alcançarem as maiores cidades russas, com menos chances de serem detetados e intercetados. No início da semana, com os sucessos no Médio Oriente ainda frescos, Trump admitiu entregar Tomahawk à Ucrânia e apoiar uma passagem ao ataque, uma ofensiva de Kiev contra a Rússia. Porém, esta sexta-feira, o entendimento que Zelensky gabou pareceu não ser suficiente para assegurar os tão desejados mísseis.

À saída do encontro — classificado por um como “produtivo” e por outro como “cordial e interessante” — Zelensky recusou comentar o que tinha sido decidido sobre o tema, mas as palavras de Trump sobre a reunião dão a entender uma resposta negativa. A prioridade, disse, é pôr fim à guerra sem ser preciso recorrer a mais armas e a “quantidades de dinheiro insuportáveis”. Ainda que tenha saído de Washington sem os Tomahawk e reconhecido que a Ucrânia está numa “situação difícil”, Zelensky garantiu que “confia” na capacidade Trump pressionar Putin e no seu “desejo” real de pôr fim à guerra. E aponta: a situação no Médio Oriente também era difícil e foi resolvida por Trump.

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▲ Zelensky e Trump debruçaram-se sobre a paz durante um almoço

Getty Images

Porém, os elogios sobre a ação de Trump no Médio Oriente não chegam apenas de Zelensky. A agenda de Trump desta semana inclui ainda um telefonema de quase duas horas e meia com Vladimir Putin que também saudou a mediação norte-americana no processo de paz entre Israel e Hamas. Uma guerra a milhares de quilómetros de distância de Kiev e Moscovo passou, portanto, a ser a bússola. Ao fim de oito meses, Trump admite publicamente que achava que pôr fim à guerra na Ucrânia seria mais fácil. Porém, mesmo que a paz seja complexa, Trump recusa desistir. Afinal, segundo diz o próprio, acaba de resolver um conflito mais antigo e mais complexo — comparado com Israel e o Hamas, quão difícil poderá ser forçar Putin e Zelensky à paz?

Uma guerra que não acaba por causa do “rancor” entre dois Presidentes

Passavam quase 30 minutos da hora agendada para a chegada de Volodymyr Zelensky à Casa Branca quando o carro do Presidente ucraniano parou à porta do edifício. Foi recebido por Trump, que ouviu dos jornalistas uma questão atirada: “Acha que consegue convencer Putin a terminar a guerra?” O Presidente acenou afirmativamente com a cabeça. Já dentro do edifício, a confiança repetiu-se. Nas declarações jornalistas, afirmou pelo menos cinco vezes que sabe que Putin quer pôr fim à guerra.

Zelensky não concordou. Como tem vindo a defender, o Presidente ucraniano fez questão de sublinhar que o homólogo russo não tem interesse na paz e que é preciso utilizar a força militar e pressão económica até que se se sente à mesa das negociações. Questionado sobre a possibilidade de Putin estar a tentar ganhar tempo, Trump não a excluiu, mas considerou que isso não é um problema. Não só porque tem a experiência de ter mediado, segundo diz, oito acordos de paz, mas pela sua longa experiência em negócios antes disso. “Eu fui enganado a minha vida toda pelos melhores e acabei muito bem”, defendeu.

Mas mesmo tendo essa consciência sobre os possíveis objetivos de Putin, o diagnóstico feito por Trump para os repetidos bloqueios nas negociações é outro. “Temos de nos focar em apagar o ódio. [Trump e Zelensky] têm muito rancor e acho que é isso que está a travar um acordo“, avaliou. Mais tarde, repetiu a ideia, ao dizer que os povos ucraniano e russo “são muito semelhantes” e por isso a paz é possível — a narrativa dos “povos irmãos” é frequentemente utilizada pelo Kremlin para justificar a sua influência regional.

"Temos de nos focar em apagar o ódio. [Trump e Zelensky] têm muito rancor e acho que é isso que está a travar um acordo. Estes líderes não gostam um do outro e nós queremos que estejam confortáveis. Será a três, mas podem estar separados.”
Donald Trump sobre uma cimeira de paz em Budapeste

Feito o diagnóstico, Trump apresentou também um remédio: uma cimeira a três em Budapeste, na Hungria. A possibilidade de um frente a frente entre Zelensky e Putin chegou a ser avançada depois da cimeira no Alasca, em meados de agosto, mas nunca foram definidos mais detalhes. Neste sentido, o facto de o encontro já ter lugar marcado e data alinhavada — deverá acontecer antes do final do mês, segundo indicou Trump na quinta-feira — é um passo à frente. Ainda assim, o líder norte-americano admitiu que os “termos ainda estão a ser decididos”.

“Estes líderes não gostam um do outro e nós queremos que estejam confortáveis. Será a três, mas podem estar separados”, explicou. Ou seja, os três Presidentes (dois em guerra e um mediador) vão viajar para Budapeste, mas as negociações podem não ser feitas diretamente, mas através de duas reuniões: uma entre os Estados Unidos e a Rússia e outra entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Mesmo quando não apresenta detalhes, Trump apresenta uma certeza: tal como no Médio Oriente, um acordo entre Kiev e Moscovo deve “acabar com os tiros”, “acabar com as mortes” e ser “para sempre”.

[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

O guião de Zelensky: elogios, agradecimentos e negócios, em troca de Tomahawk

Sentado do outro lado da mesa de Trump, Zelensky ouviu mais do que falou. Quando o anfitrião lhe passou a palavra, não hesitou em renovar elogios sobre o acordo de paz que marcou a semana e repetir apelos para o “ímpeto” pacificador chegue à Ucrânia. Mas o sempre presente acordo entre Hamas e Israel não serviu apenas de mote para Zelensky deixar elogios, mas também avisos.

Isto porque, na visão do líder ucraniano, um cessar-fogo é a prioridade para parar os ataques contra civis ucranianos, mas, como a situação atual no Médio Oriente revela, manter de pé esse cessar-fogo é igualmente difícil. A chave de Kiev para esta segunda fase ser bem sucedida não se alterou e continua a passar pelas “garantias de segurança“.

Questionado pelos jornalistas sobre se estaria disposto a fazer concessões, à semelhança do Governo israelita e dos grupos armados palestinianos, por exemplo na questão da adesão à NATO, Zelensky não se comprometeu. “O que precisamos é de garantias de segurança. A NATO é a melhor, armas são importantes, aliados do nosso lado são importantes, mas garantias bilaterais entre mim e o Presidente Trump são muito importantes”, afirmou, exaltando a parceria com os Estados Unidos porque “são muito fortes”.

▲ Um míssil Tomahawk tem um alcance de 2500 quilómetros

Getty Images

Feito mais um elogio, Zelensky aproximou-se do tema que o levou até Washington: os mísseis norte-americanos Tomahawk. Tratam-se de mísseis de cruzeiro com um alcance de 2.500 quilómetros (os mísseis atuais utilizados pela Ucrânia para atingir infraestruturas russas têm um alcance de 300 quilómetros) e que, por voarem sempre à mesma altitude, são mais certeiros e mais difíceis de detetar — foram desenhados precisamente com o objetivo de contornar sistemas defensivos da antiga União Soviética.

A Ucrânia tenciona utilizar estes mísseis para atingir infraestruturas russas muito para lá da linha da frente, desestabilizando o funcionamento da máquina de guerra russa e, ao mesmo tempo, a sua economia. No entanto, a sua eficácia é limitada, argumentou um diplomata europeu ouvido pelo Washington Post. “Não é como se uma única arma fosse mudar o rumo de toda uma guerra“, elaborou. O jornal aponta ainda dificuldades no lançamento e na quantidade de mísseis a utilizar.

A dimensão dos arsenais norte-americanos foi uma das questões levantadas por Donald Trump para evitar um compromisso com a venda de Tomahawk à Ucrânia. “Também precisamos deles”, defendeu. Consciente desse obstáculo, Zelensky não chegou a Washington apenas com pedidos, mas também com duas ofertas, na figura de propostas de negócios.

A primeira começou a ser trabalhada ainda antes de chegar à Casa Branca, com uma série de encontros na quinta-feira com o secretário da Energia dos Estados Unidos e os diretores de várias empresas para discutir a possibilidade de parcerias económicas para reconstruir as infraestruturas ucranianas destruídas por ataques russos e investimentos na exploração de petróleo, gás natural e energia nuclear. Esta sexta-feira, o ministro da Energia também se sentou à mesa, uma presença notada pelo New York Times por ser “pouco habitual”.

A segunda não chegou a ser desenhada com clareza, mas Zelensky deu a entender que estaria disposto a trocar drones de produção ucraniana por mísseis de fabrico norte-americano, uma vez que a Ucrânia se transformou num dos maiores produtores de drones do mundo. A proposta pareceu agradar a Trump, mas não chegou para convencer um Presidente que admitiu uma preferência por jatos.

▲ A viagem de Zelensky também foi focada na cooperação na área da Energia

AFP via Getty Images

Entre Kiev e Moscovo, Trump prefere “deixar a História decidir” quem ganha a guerra

Ao fim de quase três horas de reunião, Donald Trump e Volodymyr Zelensky abandonaram a Casa Branca. Enquanto o primeiro partiu para Mar-a-Lago sem falar aos jornalistas, o segundo permaneceu nas imediações do edifício para responder à questão que motivara o encontro: os Estados Unidos vão fornecer Tomahawk à Ucrânia? O Presidente ucraniano não respondeu, dizendo que a decisão sobre o silêncio foi acordada “porque os Estados Unidos não querem escalar o conflito“.

A mesma justificação tinha sido utilizada por Trump horas antes, em que reconhecia que ameaçar a Rússia com mísseis de longo alcance podia ser uma escalada. No entanto, o valor dos Tomahawk para a Ucrânia pode ir além da destruição que podem causar à Rússia, argumenta Sidharth Kaushal, analista no think tank britânico de Defesa RUSI. Por um lado, porque são um símbolo do apoio norte-americano a Kiev. Por outro lado, porque funcionam como dissuasores, considerou, em declarações à BBC.

Ora, apoiar inequivocamente uma das partes em confronto é precisamente o que Donald Trump parece querer evitar. Questionado pelos jornalistas sobre qual dos dois Presidentes — Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin — é melhor negociador, recusou responder. Já depois da reunião, foi mais longe, ao escrever nas suas redes sociais: “Deixem que ambos reclamem Vitória, deixem a História decidir!“.

Afinal, a estratégia estudada que Zelensky apresentou na Casa Branca não é muito diferente daquela que Vladimir Putin utiliza: elogios e propostas de negócios. Na chamada desta quinta-feira, com elogios à mediação no Médio Oriente. E esta sexta-feira, com a proposta do seu enviado para a construção de um túnel no estreito de Bering, que ligasse a Sibéria ao Alasca. A proposta de Kiril Dmitriev prevê que a construção seja feita por uma empresa norte-americana (que pertence a Elon Musk) e paga pela Rússia, num projeto conjunto entre Estados Unidos e Rússia.

Com Kiev e Moscovo a mobilizarem estratégias semelhantes para puxarem Trump na sua direção, o Presidente norte-americano tenta esquivar-se e ser ele a marcar o passo — neste caso, forçando-os a sentarem-se à mesa das negociações. “Eu disse [a Zelensky], como sugeri vivamente ao Presidente [russo] que é tempo de parar a matança, e fazer um ACORDO”, escreveu na sua Truth Social, num balanço do encontro desta sexta-feira. Porém, se Zelensky quer armas concretas e Putin quer tempo para continuar a guerra, a estratégia imposta por Trump parece, mesmo que inadvertidamente, favorecer os objetivos de Moscovo.

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