Índice
Índice
A semana de Donald Trump começou em Israel e no Egito, onde assinou oficialmente a primeira fase de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Segundo a contagem do autoproclamado “Presidente da Paz”, este foi o oitavo conflito internacional que resolveu em oito meses de mandato. Mas antes de a semana acabar, o foco do Presidente norte-americano já mudou de continente e recaiu sobre aquela que quer que se torne a nona guerra da lista: a da Ucrânia. “Eu adoro resolver guerras”, declarou esta sexta-feira, garantindo que o objetivo por detrás da longa lista é a satisfação de travar a “morte de pessoas”.
Foi com esta justificação que, esta sexta-feira, Trump recebeu Volodymyr Zelensky na Casa Branca para um almoço de trabalho. A relação entre os dois chefes de Estado tem sido tudo menos linear, mas, à terceira visita à residência presidencial este ano, o líder ucraniano apareceu com um guião bem estudado: vestido de forma “elegante” — o elogio e a aprovação do traje foram feitos por Trump — e com uma longa lista de agradecimentos, elogios e ofertas de negócios. “Estamos a começar a entender-nos um ao outro”, considerou Zelensky, em declarações aos jornalistas antes do almoço.
Em cima da mesa, estava um pedido concreto de Kiev: a permissão para comprar mísseis de cruzeiro de longo alcance Tomahawk, com capacidade para, disparados a partir da Ucrânia, alcançarem as maiores cidades russas, com menos chances de serem detetados e intercetados. No início da semana, com os sucessos no Médio Oriente ainda frescos, Trump admitiu entregar Tomahawk à Ucrânia e apoiar uma passagem ao ataque, uma ofensiva de Kiev contra a Rússia. Porém, esta sexta-feira, o entendimento que Zelensky gabou pareceu não ser suficiente para assegurar os tão desejados mísseis.
À saída do encontro — classificado por um como “produtivo” e por outro como “cordial e interessante” — Zelensky recusou comentar o que tinha sido decidido sobre o tema, mas as palavras de Trump sobre a reunião dão a entender uma resposta negativa. A prioridade, disse, é pôr fim à guerra sem ser preciso recorrer a mais armas e a “quantidades de dinheiro insuportáveis”. Ainda que tenha saído de Washington sem os Tomahawk e reconhecido que a Ucrânia está numa “situação difícil”, Zelensky garantiu que “confia” na capacidade Trump pressionar Putin e no seu “desejo” real de pôr fim à guerra. E aponta: a situação no Médio Oriente também era difícil e foi resolvida por Trump.
▲ Zelensky e Trump debruçaram-se sobre a paz durante um almoço
Getty Images
Porém, os elogios sobre a ação de Trump no Médio Oriente não chegam apenas de Zelensky. A agenda de Trump desta semana inclui ainda um telefonema de quase duas horas e meia com Vladimir Putin que também saudou a mediação norte-americana no processo de paz entre Israel e Hamas. Uma guerra a milhares de quilómetros de distância de Kiev e Moscovo passou, portanto, a ser a bússola. Ao fim de oito meses, Trump admite publicamente que achava que pôr fim à guerra na Ucrânia seria mais fácil. Porém, mesmo que a paz seja complexa, Trump recusa desistir. Afinal, segundo diz o próprio, acaba de resolver um conflito mais antigo e mais complexo — comparado com Israel e o Hamas, quão difícil poderá ser forçar Putin e Zelensky à paz?
Uma guerra que não acaba por causa do “rancor” entre dois Presidentes
Passavam quase 30 minutos da hora agendada para a chegada de Volodymyr Zelensky à Casa Branca quando o carro do Presidente ucraniano parou à porta do edifício. Foi recebido por Trump, que ouviu dos jornalistas uma questão atirada: “Acha que consegue convencer Putin a terminar a guerra?” O Presidente acenou afirmativamente com a cabeça. Já dentro do edifício, a confiança repetiu-se. Nas declarações jornalistas, afirmou pelo menos cinco vezes que sabe que Putin quer pôr fim à guerra.
Zelensky não concordou. Como tem vindo a defender, o Presidente ucraniano fez questão de sublinhar que o homólogo russo não tem interesse na paz e que é preciso utilizar a força militar e pressão económica até que se se sente à mesa das negociações. Questionado sobre a possibilidade de Putin estar a tentar ganhar tempo, Trump não a excluiu, mas considerou que isso não é um problema. Não só porque tem a experiência de ter mediado, segundo diz, oito acordos de paz, mas pela sua longa experiência em negócios antes disso. “Eu fui enganado a minha vida toda pelos melhores e acabei muito bem”, defendeu.
Mas mesmo tendo essa consciência sobre os possíveis objetivos de Putin, o diagnóstico feito por Trump para os repetidos bloqueios nas negociações é outro. “Temos de nos focar em apagar o ódio. [Trump e Zelensky] têm muito rancor e acho que é isso que está a travar um acordo“, avaliou. Mais tarde, repetiu a ideia, ao dizer que os povos ucraniano e russo “são muito semelhantes” e por isso a paz é possível — a narrativa dos “povos irmãos” é frequentemente utilizada pelo Kremlin para justificar a sua influência regional.
Feito o diagnóstico, Trump apresentou também um remédio: uma cimeira a três em Budapeste, na Hungria. A possibilidade de um frente a frente entre Zelensky e Putin chegou a ser avançada depois da cimeira no Alasca, em meados de agosto, mas nunca foram definidos mais detalhes. Neste sentido, o facto de o encontro já ter lugar marcado e data alinhavada — deverá acontecer antes do final do mês, segundo indicou Trump na quinta-feira — é um passo à frente. Ainda assim, o líder norte-americano admitiu que os “termos ainda estão a ser decididos”.
“Estes líderes não gostam um do outro e nós queremos que estejam confortáveis. Será a três, mas podem estar separados”, explicou. Ou seja, os três Presidentes (dois em guerra e um mediador) vão viajar para Budapeste, mas as negociações podem não ser feitas diretamente, mas através de duas reuniões: uma entre os Estados Unidos e a Rússia e outra entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Mesmo quando não apresenta detalhes, Trump apresenta uma certeza: tal como no Médio Oriente, um acordo entre Kiev e Moscovo deve “acabar com os tiros”, “acabar com as mortes” e ser “para sempre”.
[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
O guião de Zelensky: elogios, agradecimentos e negócios, em troca de Tomahawk
Sentado do outro lado da mesa de Trump, Zelensky ouviu mais do que falou. Quando o anfitrião lhe passou a palavra, não hesitou em renovar elogios sobre o acordo de paz que marcou a semana e repetir apelos para o “ímpeto” pacificador chegue à Ucrânia. Mas o sempre presente acordo entre Hamas e Israel não serviu apenas de mote para Zelensky deixar elogios, mas também avisos.
Isto porque, na visão do líder ucraniano, um cessar-fogo é a prioridade para parar os ataques contra civis ucranianos, mas, como a situação atual no Médio Oriente revela, manter de pé esse cessar-fogo é igualmente difícil. A chave de Kiev para esta segunda fase ser bem sucedida não se alterou e continua a passar pelas “garantias de segurança“.
Questionado pelos jornalistas sobre se estaria disposto a fazer concessões, à semelhança do Governo israelita e dos grupos armados palestinianos, por exemplo na questão da adesão à NATO, Zelensky não se comprometeu. “O que precisamos é de garantias de segurança. A NATO é a melhor, armas são importantes, aliados do nosso lado são importantes, mas garantias bilaterais entre mim e o Presidente Trump são muito importantes”, afirmou, exaltando a parceria com os Estados Unidos porque “são muito fortes”.
▲ Um míssil Tomahawk tem um alcance de 2500 quilómetros
Getty Images
Feito mais um elogio, Zelensky aproximou-se do tema que o levou até Washington: os mísseis norte-americanos Tomahawk. Tratam-se de mísseis de cruzeiro com um alcance de 2.500 quilómetros (os mísseis atuais utilizados pela Ucrânia para atingir infraestruturas russas têm um alcance de 300 quilómetros) e que, por voarem sempre à mesma altitude, são mais certeiros e mais difíceis de detetar — foram desenhados precisamente com o objetivo de contornar sistemas defensivos da antiga União Soviética.
A Ucrânia tenciona utilizar estes mísseis para atingir infraestruturas russas muito para lá da linha da frente, desestabilizando o funcionamento da máquina de guerra russa e, ao mesmo tempo, a sua economia. No entanto, a sua eficácia é limitada, argumentou um diplomata europeu ouvido pelo Washington Post. “Não é como se uma única arma fosse mudar o rumo de toda uma guerra“, elaborou. O jornal aponta ainda dificuldades no lançamento e na quantidade de mísseis a utilizar.
A dimensão dos arsenais norte-americanos foi uma das questões levantadas por Donald Trump para evitar um compromisso com a venda de Tomahawk à Ucrânia. “Também precisamos deles”, defendeu. Consciente desse obstáculo, Zelensky não chegou a Washington apenas com pedidos, mas também com duas ofertas, na figura de propostas de negócios.
A primeira começou a ser trabalhada ainda antes de chegar à Casa Branca, com uma série de encontros na quinta-feira com o secretário da Energia dos Estados Unidos e os diretores de várias empresas para discutir a possibilidade de parcerias económicas para reconstruir as infraestruturas ucranianas destruídas por ataques russos e investimentos na exploração de petróleo, gás natural e energia nuclear. Esta sexta-feira, o ministro da Energia também se sentou à mesa, uma presença notada pelo New York Times por ser “pouco habitual”.
A segunda não chegou a ser desenhada com clareza, mas Zelensky deu a entender que estaria disposto a trocar drones de produção ucraniana por mísseis de fabrico norte-americano, uma vez que a Ucrânia se transformou num dos maiores produtores de drones do mundo. A proposta pareceu agradar a Trump, mas não chegou para convencer um Presidente que admitiu uma preferência por jatos.
▲ A viagem de Zelensky também foi focada na cooperação na área da Energia
AFP via Getty Images
Entre Kiev e Moscovo, Trump prefere “deixar a História decidir” quem ganha a guerra
Ao fim de quase três horas de reunião, Donald Trump e Volodymyr Zelensky abandonaram a Casa Branca. Enquanto o primeiro partiu para Mar-a-Lago sem falar aos jornalistas, o segundo permaneceu nas imediações do edifício para responder à questão que motivara o encontro: os Estados Unidos vão fornecer Tomahawk à Ucrânia? O Presidente ucraniano não respondeu, dizendo que a decisão sobre o silêncio foi acordada “porque os Estados Unidos não querem escalar o conflito“.
A mesma justificação tinha sido utilizada por Trump horas antes, em que reconhecia que ameaçar a Rússia com mísseis de longo alcance podia ser uma escalada. No entanto, o valor dos Tomahawk para a Ucrânia pode ir além da destruição que podem causar à Rússia, argumenta Sidharth Kaushal, analista no think tank britânico de Defesa RUSI. Por um lado, porque são um símbolo do apoio norte-americano a Kiev. Por outro lado, porque funcionam como dissuasores, considerou, em declarações à BBC.
Ora, apoiar inequivocamente uma das partes em confronto é precisamente o que Donald Trump parece querer evitar. Questionado pelos jornalistas sobre qual dos dois Presidentes — Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin — é melhor negociador, recusou responder. Já depois da reunião, foi mais longe, ao escrever nas suas redes sociais: “Deixem que ambos reclamem Vitória, deixem a História decidir!“.
Afinal, a estratégia estudada que Zelensky apresentou na Casa Branca não é muito diferente daquela que Vladimir Putin utiliza: elogios e propostas de negócios. Na chamada desta quinta-feira, com elogios à mediação no Médio Oriente. E esta sexta-feira, com a proposta do seu enviado para a construção de um túnel no estreito de Bering, que ligasse a Sibéria ao Alasca. A proposta de Kiril Dmitriev prevê que a construção seja feita por uma empresa norte-americana (que pertence a Elon Musk) e paga pela Rússia, num projeto conjunto entre Estados Unidos e Rússia.
Com Kiev e Moscovo a mobilizarem estratégias semelhantes para puxarem Trump na sua direção, o Presidente norte-americano tenta esquivar-se e ser ele a marcar o passo — neste caso, forçando-os a sentarem-se à mesa das negociações. “Eu disse [a Zelensky], como sugeri vivamente ao Presidente [russo] que é tempo de parar a matança, e fazer um ACORDO”, escreveu na sua Truth Social, num balanço do encontro desta sexta-feira. Porém, se Zelensky quer armas concretas e Putin quer tempo para continuar a guerra, a estratégia imposta por Trump parece, mesmo que inadvertidamente, favorecer os objetivos de Moscovo.