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Anthony "Hannibal Lecter" Hopkins e Jodie "Clarice Starling" Foster, a dupla que carrega o filme do princípio ao fim, ambos distinguidos com os Óscares de representação em 1992

Anthony "Hannibal Lecter" Hopkins e Jodie "Clarice Starling" Foster, a dupla que carrega o filme do princípio ao fim, ambos distinguidos com os Óscares de representação em 1992

"O Silêncio dos Inocentes". 30 anos depois, o que aconteceu ao filme e ao mundo? /premium

Estreou-se a 14 de fevereiro de 1991, foi o o filme do ano e venceu os Óscares. 30 anos depois, é um marco da história do cinema, mas também de uma época. O que mudou desde então?

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Estreou-se em 1991 e tornou-se um clássico instantâneo, um dos filmes mais imitados, variados e glosados de sempre e um raro caso de consenso entre crítica e público. “O Silêncio dos Inocentes” trouxe o terror para o mainstream – é, na verdade, o único filme do género que, alguma vez, ganhou o Óscar. Aliás, dizer que ganhou o Óscar é muito pouco; num ano em que havia “Cabo do Medo”, “JFK”, “Thelma & Louise” (e também “Bugsy”, “O Príncipe das Marés”, “O Rei Pescador”, o grande flop “Hook”, “Barton Fink” e sim, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” – estávamos na era de Kevin Costner e Bryan Adams), varreu as cinco principais categoriais: Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento, Melhor Ator e Melhor Atriz principais, tornando-se apenas no terceiro filme a consegui-lo, depois de “Uma Noite Aconteceu”, de Frank Capra, em 1934, e “Voando sobre um Ninho de Cucos”, de Milos Forman, em 1975. Curiosamente, foram os Óscares muito bem arrumados e muito surpreendentes nesse ano, com um claro segundo classificado a emergir de entre todos os outros contendores: “Exterminador Implacável 2 – O Dia do Julgamento”, que arrecadou quatro estatuetas e, com elas, quase todo o repertório das categorias ditas “técnicas”: som, efeitos sonoros, efeitos especiais e caracterização.

“O Silêncio dos Inocentes” foi incluído na Biblioteca do Congresso por ser “cultural, histórica ou esteticamente significativo” e consta, obviamente, de todas aquelas listas dos filmes a ver “antes de morrer”. O cartaz foi eleito pela Premiere o 16.º melhor de sempre e as suas inesquecíveis personagens estão no topo das tabelas do American Film Institute: o doutor Hannibal Lecter enquanto melhor vilão de todos os tempos e a agente Clarice Starling a sexta melhor heroína (e a primeira personagem feminina da lista), só batida por Atticus Finch (Gregory Peck, em “Na Sombra e no Silêncio”, aliás, “To Kill a Mockingbird”), Indiana Jones (vocês sabem quem, vocês sabem onde), James Bond (no caso, Sean Connery em “007 – Agente Secreto”), Rick Blaine (Humphrey Bogart, claro, em “Casablanca”) e Will Kane (Gary Cooper em “O Comboio Apitou Três Vezes”) e imediatamente à frente do Rocky Balboa de Stallone e até da Ripley de Sigourney Weaver na saga “Alien”.

Esta história de uma jovem agente do FBI que procura ajuda num psiquiatra psicopata canibal condenado, a fim de descobrir um outro louco assassino em série que está à solta, lançou os anos 90. Foi um ícone numa época em que o mundo se redesenhava e entrávamos, definitivamente, na reta final do fin de siècle e, assim, na rampa de lançamento do novo milénio. Como foi que isso começou e como é que está a correr?

[o trailer de “O Silêncio dos Inocentes”:]

A Rússia

Em 1991, a U.R.S.S. estava a colapsar. Nos Estados Unidos, “O Silêncio dos Inocentes” viu a estreia ser atrasada pela Orion que queria dar espaço de promoção suficiente a “Danças com Lobos”; depois, atrasou ainda mais um bocadinho porque alguns executivos de génio queriam mandá-lo diretamente para vídeo por acharem que era demasiado violento e que seria um fracasso comercial. Acabou por se estrear no Dia dos Namorados, uma data insólita para um filme de terror, fora da janela de tempo que lhe permitiria entrar nos Óscares daquele ano e a um ano de distância dos seguintes, isto é, a pior altura do mundo – mas o resto é História.

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“O Silêncio dos Inocentes” contrariou todas as teses que recomendariam uma estreia na rentrée, por não gostar a Academia de premiar fitas já frias, e tornou-se o primeiro filme a vencer os Óscares quando já andava pelos escaparates dos videoclubes. Mas, entre nós, só estreou em setembro, de modo que já estávamos a assistir a esse clamoroso colapso do bloco soviético, ao fim do pacto de Varsóvia, aos pedidos de independência em catadupa das repúblicas outrora socialistas e, lá para o fim do ano, teríamos a demissão de Mikhail Gorbatchov e o anúncio oficial do fim da U.R.S.S.. A sul, também a Croácia pedia a independência e começava a dolorosa implosão da então Jugoslávia. Eram tempos novos, em que o mapa-mundi se desactualizava de um minuto para o outro, de enormes dificuldades, mas muita esperança nas democracias de feição ocidental.

30 anos depois, como é que isso está a correr? Duas palavras: Vladimir e Putin. A “Grande Rússia” tenta reabsorver tudo o que estiver ao seu alcance, oficial ou oficiosamente. Ao que parece, nos últimos anos, esse alcance não se estendia já até Berlim, como no tempo da U.R.S.S., mas ligeiramente mais para lá: até Washington.

O papel de Clarice Starling, já sabemos, valeria o Óscar de Melhor Atriz Principal. Mas era já o segundo para Jodie Foster, passados somente três desde que recebera o primeiro por “Os Acusados”. Já antes, nos anos 70 e quando era ainda apenas uma adolescente, tinha sido nomeada para Melhor Atriz Secundária por “Taxi Driver”

A Guerra

“O Silêncio dos Inocentes” estreou-se num momento em que o mundo assistia a um outro filme incrível, um filme real e que estava a acontecer em direto: a Guerra do Golfo. Pela primeira vez, a guerra era televisionada e todos aprendemos palavras novas como “Migs”, “SCUDS”, “Patriots” ou “Artur Albarran”. Os americanos ganharam facilmente a guerra e as tropas iraquianas tiveram de abandonar o Kuweit. Saddam Hussein escapou a Bush pai, mas só para ser capturado, anos mais tarde, por Bush filho.

O Iraque ainda anda a tentar reconstruir-se enquanto país, as guerras já não se fazem com soldados e aviões, mas por controlo remoto, a milhares de quilómetros de distância, como num jogo de computador em que se controlam drones que zunem incessantemente sobre populações sufocadas por essa sempiterna, incansável, desalmada vigilância. A última guerra americana com gente de carne e osso já não foi filmada com câmaras de infravermelhos, mas telemóveis e não foi preciso ir longe: aconteceu dentro do próprio Capitólio e contra a própria América. Artur Albarran foi detido em 2005 pela PJ por suspeita de crimes económicos e branqueamento de capitais. Nunca mais o vimos, mas a Wikipédia diz que vive entre Angola e a África do Sul.

Jodie Foster

O papel de Clarice Starling, já sabemos, valeria o Óscar de Melhor Atriz Principal. Mas era já o segundo para Jodie Foster, passados somente três desde que recebera o primeiro por “Os Acusados”. Já antes, nos anos 70 e quando era ainda apenas uma adolescente, tinha sido nomeada para Melhor Atriz Secundária por “Taxi Driver”. Alcançara um estatuto tal que, quando assinara o contrato com a Orion para “O Silêncio dos Inocentes”, exigira realizar o seu próximo filme – e assim haveria de ser, com “Mentes que Brilham” – tinha apenas 29 anos.

O papel de Clarice Starling, já sabemos, valeria o Óscar de Melhor Atriz Principal. Mas era já o segundo para Jodie Foster, passados somente três desde que recebera o primeiro por “Os Acusados”

TNS

Três anos depois, volta a ser nomeada, então por “Nell” (perderia para Jessica Lange, com “Céu Azul”, também da Orion) e parecia que tínhamos, definitivamente, encontrado uma nova Meryl Streep e que, portanto, a curiosidade estava apenas em saber, ano após ano, quem seriam as outras três nomeadas às vagas disponíveis.

Afinal, não seria assim… Foster prosseguiu uma carreira sólida, com filmes como “Contacto”, “Sala de Pânico” ou “O Deus da Carnificina”, mas bem menos exuberante do que, então, se augurava. Continua a trabalhar como realizadora, mas também de forma discreta e até mais em televisão do que em cinema, dirigindo episódios de séries de sucesso como “House of Cards”, “Black Mirror” ou “Orange is the New Black”. Ainda assim, este ano vamos voltar a vê-la como atriz num dos filmes mais esperados de 2021: “O Mauritano”.

Anthony Hopkins

Já era um respeitado ator de teatro e pontificara, em cinema, no extraordinário “O Homem Elefante”, de David Lynch, mas foi com “O Silêncio dos Inocentes” que ascendeu, de facto, a estrela. Bastaram-lhe 24 minutos e 52 segundos para se tornar o segundo ator principal com menos tempo de câmara de sempre a vencer o Óscar (batido em um minuto e 13 segundos apenas por David Niven, em “Vidas Separadas”, de 1958).

São fundamentalmente as quatro cenas com Jodie Foster que o notabilizaram e notabilizaram o filme: olhando diretamente a câmara (ao passo que Jodie Foster olhava ligeiramente para fora de campo, para que nos sentíssemos mais no lugar dela), sem pestanejar ou só o fazendo muito rara, calma e deliberadamente, como os répteis, e improvisando um sorvo genial que, às tantas, diz-se, Jonathan Demme já não podia ouvir.

Bastaram-lhe 24 minutos e 52 segundos para se tornar o segundo ator principal com menos tempo de câmara de sempre a vencer o Óscar (batido em um minuto e 13 segundos apenas por David Niven

Dominou os anos 90 com mais três nomeações ao Óscar de melhor ator, por “Os Despojos do Dia”, “Nixon” e “Amistad” – basicamente, naquela época só duas presenças eram mais habituais na cerimónia: Jack Nicholson e os óculos escuros de Jack Nicholson – mas, depois, curiosamente, desapareceu até só regressar no ano passado, com a sua quinta nomeação pelo magnífico desempenho como Joseph Ratzinger / papa emérito Bento XVI. Mantém uma carreira de primeiríssimo plano, da presença em “Westworld”, na televisão, à saga “Thor”, no cinema. Aos 83 anos, volta a ser um dos favoritos ao Óscar enfrentando a demência – e já não a psicopatia, que, aliás, não enfrentava; cultivava – em “O Pai”.

Rui Costa

Outro extraordinário filme de 1991 foi a conquista do segundo Mundial de futebol de juniores pela seleção portuguesa. Era o início de qualquer coisa e todos o sabíamos: de crónica sofredora de calculadora na mão, apurando-se pouco mais do que uma vez a cada 20 anos para as fases finais das competições, a equipa das quinas lançava as bases da “geração de ouro” que a catapultaria para a presença constante nos europeus e mundiais, chegando, muitas vezes, até aos últimos dias da prova.

O jovem Rui Costa, com um estranho número 5 nas costas (a numeração fora atribuída por sorteio) cobrou o penalty decisivo, na final frente ao Brasil. Depois, fez uma carreira brilhante em Lisboa, Florença e Milão e ainda voltou, como sempre prometera, para terminar de águia ao peito. Ultimamente, tem sido visto aos gritos com Luisão e Jorge Jesus no banco e é apontado como provável candidato a Presidente do Benfica.

Benfica-Arsenal

A propósito: em 1991, Benfica (com Rui Costa) e Arsenal encontraram-se para uma célebre eliminatória da então Taça dos Campeões Europeus. A competição, justamente, estava num ano de transição e ensaiava, pela primeira vez, o modelo que resultaria, no ano seguinte, na sua transformação em Liga dos Campeões. Do esquema simples de eliminatórias entre os 32 campeões de cada país da UEFA até apurar dois finalistas, evoluía-se para um sistema em que havia apenas duas fases eliminatórias, das quais se apuravam oito equipas que eram então organizadas em dois grupos de quatro, jogando todas contra todas. Tornava-se a competição mais justa, mais dependente da regularidade e menos da sorte e, sobretudo, multiplicava-se o número de jogos e, com eles, as receitas.

Benfica e Arsenal encontraram-se justamente na segunda destas eliminatórias, a que dava acesso à primeira fase de grupos da História da “Champions”. A primeira mão foi na Luz e saldou-se por um dececionante empate a um; na segunda, quando tudo se julgava perdido para os portugueses, o Arsenal adiantou-se no marcador, apenas para assistir à reviravolta encarnada, consumada já no prolongamento: 1-3, com os golos das cores nacionais a serem apontados pelo bombardeiro Isaías (2) e pelo patinho feio Kulkov. No fim, a equipa de Eriksson deixou Highbury Park sob o aplauso notável dos londrinos, enquanto Mats Magnusson, de mão partida, distribuía abracinhos por toda a gente.

Jonathan Demme tinha 47 anos, um clássico instantâneo na mão e o Óscar de Melhor Realizador na outra, ultrapassando concorrência bem mais batida como Ridley Scott, Barry Levinson e Oliver Stone. Três anos depois, fazia “Philadelphia”.

Benfica e Arsenal voltam a encontrar-se justamente esta semana, trinta anos depois, nuns modestos dezasseis-avos de final da Liga Europa, competição que também não existia então, mas que é a evolução lógica da Taça UEFA. O Benfica está num modesto quarto lugar no campeonato português e o Arsenal num ainda mais modesto 11.º no inglês (mas é o inglês). Por causa das coisas da Covid, os jogos acontecerão à porta fechada e em campo neutro. De qualquer modo, já não seria possível regressar ao lugar onde fomos tão felizes em 91: o Arsenal joga hoje no moderno Emirates Stadium, curiosamente desenhado pelos menos arquitetos do novo Estádio da Luz. O mítico Highbury foi demolido em 2006 e, no seu lugar, nasceu um complexo de apartamentos de luxo – mas as nossas memórias continuam lá. De graça.

Os vírus

Falamos em Covid? Pois. Há 30 anos, o vírus era outro. No início dos anos 90, a praga era a SIDA, o VIH, e, em 1991 em particular, teve dois dos seus momentos mais traumáticos: a morte de Freddie Mercury e o anúncio de Magic Johnson de que também padecia da doença e, consequentemente, abandonava o basquetebol (de que era, então, ainda o mais importante jogador).

30 anos depois, continuamos a não ter uma cura para a SIDA, mas é possível, graças a complexas combinações de fármacos, viver com ela. Em 2021, andamos a aprender a viver com outra peste, o coronavírus, a Covid-19, mas, pelo menos, já arranjámos uma vacina, de modo que, quando estivermos a escrever o texto dos 60 anos da estreia de “O Silêncio dos Inocentes”, contamos já não ter de falar sobre isto.

Jonathan Demme

Tinha 47 anos, um – repete-se – clássico instantâneo na mão e o Óscar de Melhor Realizador na outra, ultrapassando concorrência bem mais batida como Ridley Scott, Barry Levinson e Oliver Stone. Três anos depois, fazia “Philadelphia”, justamente centrada na praga referida no ponto anterior, e conseguia um segundo clássico instantâneo. Tudo apontava para que viesse a ser um dos maiores, certo? Certo, mas não foi nada disso que aconteceu.

Ao contrário dos seus talentosos atores, o realizador de “O Silêncio dos Inocentes” foi desaparecendo numa carreira morna e, frequentemente, longe do próprio cinema. Colecionou videoclips e documentários musicais (é dele o fundamental “Stop Making Sense”, com os Talking Heads, por exemplo) e o melhor que há a registar desde então foi “O Candidato da Verdade” (“The Manchurian Candidate”), nos idos do já longínquo 2004. Morreu a 26 de abril de 2017 com 73 anos.

Tinha 47 anos, um – repete-se – clássico instantâneo na mão e o Óscar de Melhor Realizador na outra, ultrapassando concorrência bem mais batida como Ridley Scott, Barry Levinson e Oliver Stone

Ron Galella Collection via Getty

Os atores britânicos

A vitória de Anthony Hopkins nos Óscares consagrou uma espécie de ideia de que os grandes atores falavam com impecável sotaque inglês. Era a terceira vez consecutiva que a Academia distinguia um britânico como melhor ator do ano, depois de Daniel Day-Lewis por “O Meu Pé Esquerdo”, em 1989, e Jeremy Irons por “Os Reveses da Fortuna”, em 1990. Bom, digamos que foi uma moda passageira – e o primeiro a perceber isso foi Stephen Rea, logo no ano seguinte, quando saiu de mãos a abanar por “Jogo de Lágrimas”.

Nos 30 anos que entretanto passaram, só em cinco ocasiões o Óscar de melhor ator voltaria para um ator britânico – e duas delas de novo para Daniel Day-Lewis, o que nem devia contar porque, se vamos considerá-lo um ator e não um milagre, então o Óscar deveria ser dele todos os anos, mesmo quando não filma. Quem foram os outros? Colin Firth, por “O Discurso do Rei”, Eddie Redmayne, por “Teoria de Tudo”, e Gary Oldman, por “A Hora Mais Negra”. Isto é, o sotaque inglês deixou de garantir o Óscar, mas, se for o sotaque inglês numa personagem inspirada numa figura real, então, as hipóteses voltam a aumentar.

A “saga”

A verdade é que as coisas não começaram com “O Silêncio dos Inocentes” – e, infelizmente, também não acabaram. O primeiro filme baseado na obra de Thomas Harris e a figurar a personagem do “Hannibal the Cannibal” foi “Caçada ao Amanhecer” (“Manhunter”), em 1986. Era dirigido por Michael Mann (então, a produzir “Miami Vice”), protagonizado por William Petersen (mais tarde, o “Gil Grissom” de “CSI Miami”), Dennis Farina (o tenente Mike Torello da “Crónica do Crime”) e com Brian Cox como Hannibal Lecter original.

Em 2001, ainda tivemos direito a uma sequela decente, “Hannibal”, embora com gente que prometia mais: Ridley Scott como realizador, os experientíssimos David Mamet e Steven Zaillian a assinarem a adaptação do argumento a partir de mais um livro de Harris, e um elenco com Gary Oldman, Ray Liotta, Julianne Moore em vez de Jodie Foster, mas ainda com Anthony Hopkins.

No ano seguinte, um filão de estrelas – Hopkins, Ralph Fiennes, Philip Seymour Hoffman, Mary-Louise Parker, Edward Norton, Emily Watson, Harvey Keitel – o regresso do argumentista de “O Silêncio dos Inocentes” Ted Tally e ainda e sempre a colaboração do romancista, não salvou “Dragão Vermelho” do seu próprio realizador (Brett Ratner).

Em 2013, a NBC estreou a série “Hannibal”, agora com Mads Mikkelsen como o psicopata mais amado de sempre, mas há muito que tudo isto se tornara apenas um negócio. A CBS acaba de estrear “Clarice”, mais uma série spin-off do filão e, algures, ainda apareceu pelos cinemas uma coisa chamada “Hannibal – A Origem do Mal” que, felizmente, já ninguém viu.

[o trailer de “Clarice”:]

E a nossa vida?

Pois, a nossa vida. Em 1991, estávamos no chamado segundo ano do ciclo, na Ilha Terceira, a ver F-16 e B-52 passarem no céu, para aterrarem na Base das Lajes e daí seguirem para o Kuweit. Às cinco e meia da tarde, invariavelmente, estávamos de regresso a casa para lanchar, fazer os TPC e ver o Artur Albarran, de colete cheio de bolsos com sabe-se lá o quê, a fazer vivos algures no Golfo Pérsico.

Hoje, nem nos deixam sair de casa porque anda pelo ar uma coisa mais mortal do que os B-52. Por causa disso, todos temos de sair à rua com uma espécie de açaime, não tão assustador como o do doutor Lecter nem tão bonito ou estranho como a borboleta do cartaz. O Benfica já não é o mesmo, a seleção portuguesa é melhor e o Magic Johnson ainda está aí para as curvas. O canibalismo continua a não ser visto com bons olhos, mas a popularidade do Chianti disparou.

Alexandre Borges é escritor e argumentista

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