Nuno Melo compareceu pela segunda vez como representante da AD nos debates. O líder do CDS enfrentou Inês Sousa Real (ainda tem mais um frente a frente, com o Bloco, na quarta-feira), e teve de começar por falar da legitimidade da sua presença, evocando a decisão da própria CNE. Argumentos que Inês Sousa Real não aceitou, chamando-lhe “porta-voz do primeiro-ministro, do candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições, e representante das políticas do governo”, dizendo mesmo que “Montenegro pode fugir dos debates, mas não se pode esconder dos portugueses e das políticas, pode não ter comparecido, mas não deixa de estar presente”. Melo, em resposta, enumerou as várias medidas positivas governamentais, sublinhando que eram da AD.
Ambos depois debateram, com pontos de vista bem divergentes, as promessas por cumprir, a imigração, a economia verde, a habitação, a violência doméstica e a defesa. E não faltaram, claro, as touradas. E ainda a possibilidade de governabilidade com o PAN.
Logo depois, Rui Rocha e Rui Tavares começaram pelo tema da Defesa. Momento para o porta-voz do Livre esclarecer — mesmo sublinhando que Isabel Mendes Lopes já o tinha feito, e que ele talvez pecasse por “palavroso” —, que não defendia a saída da NATO. Tavares também quis dizer que não é contra a compra de mais armamento, apenas não ao nível russo e quis deixar claras as suas posições. O líder da IL tinha começado por dizer que queria uma aposta num investimento específico, para uma modernização da indústria.
Depois falaram das tarifas de Trump (com críticas de eleitoralismo de Rocha às medidas do Governo), dos cortes de Musk, de impostos, segurança social, mostraram até pontos em comum, para acabarem com críticas mútuas entre a “foice e o martelo” e o “motosserrismo”.
Terminada uma semana de debates, esta segunda-feira há novamente dois frente a frente. Primeiro, às 21h00, na RTP, entre Luís Montenegro (AD) e Rui Rocha (IL) e depois, às 22h00, na SIC Notícias, entre Mariana Mortágua (Bloco) e Rui Tavares (Livre). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
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Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.
Nuno Melo (AD)-Inês Sousa Real (PAN)
Luís Rosa — A AD ganhou pela primeira vez um debate de forma clara. É verdade que contra Inês Sousa Real todos os candidatos arriscam-se a ter um ‘passeio no parque’ (direitos de autor de Anselmo Crespo). Mas André Ventura não tinha sido capaz de golear — e Nuno Melo conseguiu. O líder do CDS foi muito disciplinado na gestão do tempo, corrigiu o tonzinho de marialva que tinha usado contra Isabel Mendes Lopes — mas não fez o mesmo que Ventura, que resolveu baixar a sua habitual agressividade para tentar conquistar eleitorado feminino. Melo usou o tom certo, respeitando Inês Sousa Real, mesmo quando disse que a política “não é um concurso Miss Mundo” a propósito da veia pacifista do PAN que considera que os investimentos da Defesa são uma perda de dinheiro, ao mesmo tempo que desvaloriza a ameaça da Rússia de Putin — cuja origem, tal como o Bloco de Esquerda, atribui de forma conspirativa à indústria de armamento — e ignora a capacidade instalada das industrias da defesa existente em Portugal. Nuno Melo esteve bem a defender a agenda da AD, ao argumentar que o “Governo descomprimiu a sociedade” e a detalhar os “bons resultados” dos 11 meses do Executivo Montenegro como o crescimento económico, os aumentos salariais, os acordos com diversas corporações e a descida dívida pública. Tudo contra os “os profetas da desgraça” — equivalente ao Diabo de António Costa. O líder do CDS foi muito eficiente a atacar o PAN — “com o voto do PAN, os polícias, os professores e os militares estariam pior” —, a recordar que Inês Sousa Real foi a favor da imigração desregulada ao apoiar as manifestações de interesses e a colocar o PAN num extremo — “com o PAN entram todos” — e o Chega no outro — “não entra ninguém; outro disparate”. Tudo para dizer que a AD é a força da moderação que trata os imigrantes com políticas moderadas e de integração. Inês Sousa Real, por seu lado, foi uma metralhadora de medidas e temas diversos. Exemplo: a propósito de uma pergunta da moderadora Clara de Sousa sobre a instabilidade da economia global, Sousa Real consegue a proeza de falar da responsabilidade de Luís Montenegro nas eleições antecipadas, no acesso à habitação, no acerto dos reembolsos do IRS, nos três diretores executivos do SNS, no fecho de urgências e no período escolar que se inicia com muitos alunos sem professor (quando o ano está no fim e o novo letivo só se inicia em setembro)… tudo em 30 segundos para, no final, dizer que “todos temos de vestir a camisola de Portugal” e chegar — voilá!” — à economia verde e à transição energética…. Uf! Tudo à velocidade da luz — mas sem uma proposta concreta para resolver os problemas do país. Sousa Real até misturou a violência doméstica e os crimes de violação com os temas da imigração, quase a dar inadvertidamente a receita para o próximo debate de André Ventura. E, no final, Nuno Melo escolheu muito bem a sua última palavra ao recordar o radicalismo do PAN contra as famílias numerosas, citando um dirigente do partido de Inês Sousa Real. “Fazem mal em povoar o planeta terra de seres humanos. Se querem juventude, tragam imigrantes. O CDS está desatualizado. A família do CDS morreu”, leu Melo. Já a última palavra de Sousa Real foi, pasme-se!, admitir apoiar um Governo de Luís Montenegro, expondo já o seu caderno de encargos para a negociação. Mas para isso é preciso o PAN conseguir votos para se manter no Parlamento. O que, tendo em conta a inconsistência de Sousa Real, parece cada vez mais difícil…
Pedro Jorge Castro — Como é possível que um elemento do PAN tenha mesmo dito a frase citada por Nuno Melo no fim do debate, em resposta a uma proposta sobre apoio a famílias numerosas? Até puxei a box atrás para ver se tinha ouvido bem a citação: “É irresponsável e suicida apoiar famílias numerosas. Se são numerosas é opção sua. O SNS facilita o planeamento familiar. Fazem mal insistir em povoar o planeta terra de seres humanos. Se queremos juventude tragam imigrantes”. Inês Sousa Real titubeou a palavra “falácias”, mas esteve longe de rebater vigorosamente esta enormidade num país com um tão grande problema de natalidade. A líder do PAN já vinha em perda antes. Esteve muito pior do que com Pedro Nuno Santos na véspera. O seu eleitorado exigiria que vergasse um oponente como o defensor da tauromaquia Nuno Melo — e nada. Debitou números em catadupa, com a rapidez com que são lidas as frases aceleradas que fecham os anúncios de medicamentos e investimentos financeiros — e que precisamente por isso ninguém ouve, nem retém. Nuno Melo manteve-se sereno e melhorou em relação à prestação no duelo com a co-líder do Livre. Foi menos ineficaz nos temas da imigração e da Defesa, e teve a tirada da miss mundo. Mas não devia estar neste debate a substituir Luís Montenegro, o que fica mal a ambos.
Miguel Santos Carrapatoso — Um debate que se foi tornando mais e mais desequilibrado até ao derradeiro knockout. E bastou a Nuno Melo citar Albano Pires, deputado municipal do partido em Matosinhos e figura importante do universo do PAN, para gelar a adversária. Disse Albano Pires, a 17 de abril: “Acho que é irresponsável estar a querer apoiar famílias numerosas, porque se são numerosas foi uma opção sua, o SNS proporciona todas as facilidades de planeamento familiar e, portanto, não há razão. Se as pessoas insistem em povoar o planeta Terra de seres humanos, façam-no à sua custa e não à custa do Estado. Se queremos trazer juventude porque o país está envelhecido, abre-se a porta à imigração (…) O CDS está desatualizado. A família do CDS morreu”. Sousa Real poderia ter reagido de forma brilhante — o que não aconteceu. Poderia até ter contextualizado — e não seria fácil, porque Albano Pires foi bastante literal. Poderia até ter ensaiado uma demarcação — algo que também não fez e era o mínimo. Ficou compreensivelmente de todas as cores. É difícil imaginar como é que o PAN, que diz querer ser levado a sério, ainda vá albergando estas figuras exóticas que só tornam o partido numa presa fácil. Não há preparação para debate que aguente os Albanos desta vida. Quanto ao mais, Nuno Melo já tinha apontado ao discurso missmundiando de Sousa Real em matéria de Defesa e à falta de argumentos coerentes da porta-voz do PAN em matéria de imigração, tornando muito evidentes as fragilidades programáticas de Sousa Real nestas duas áreas em concreto e foram elas que dominaram parte do debate. A porta voz do PAN nem no discurso anti-tourada conseguiu marcar pontos. Perante a previsível provocação, Melo abdicou do discurso reativo e polarizador e limitou-se a resolver a coisa com uma frase simples: “Não sou um ditador de consciências”. Só não leva nota artística porque ficou mais uma vez evidente a falta de segurança que tem noutros dossiês que não o seu.
Rui Pedro Antunes — São dois sobreviventes e líderes dos dois partidos mais pequenos no Parlamento, mas um deles (Nuno Melo) tem essa sobrevivência assegurada à boleia do PSD. No debate deste domingo, os dois discordaram em praticamente tudo, como seria de esperar, mas isso pode muito bem dar votos a ambos. Quando o assunto foram as touradas, Inês Sousa Real centrou-se no único nicho que lhe pode garantir a reeleição (a defesa animal) e isso é fundamental para que continue na AR. Quando Nuno Melo, na resposta, defendeu a cultura tauromáquica fez com que os aficionados (que entretanto, provavelmente, migraram para o Chega) se sintam representados e talvez consiga arregimentar alguns votitos para a sua AD. Sousa Real foi agressiva, como o voto feminista gosta, ao chamar “porta-voz” a Nuno Melo. Já o líder do CDS manteve a compostura e resistiu a entrar em paternalismos marialvas que só ajudariam a causa da adversária. Na economia verde, Nuno Melo não se esforçou por rebater as acusações de Inês Sousa Real de que o Governo está a atrasar a transição ecológica. E fez bem. Sousa Real marcou pontos por puxar a um tema que é caro ao seu eleitorado e Nuno Melo fez bem em não ir atrás do plano de Von der Leyen e dos desígnios verdes porque para isso já está lá o PSD na AD. O CDS tem mesmo é de ser a ponta direita da coligação. No fim do dia, ganharam os dois, mas, na luta direta, empataram — até porque não disputam eleitorado.
Rui Rocha (IL)-Rui Tavares (Livre)
Leonor Riso — O arranque morno acabou por desfazer-se quando Rui Rocha e Rui Tavares chegaram à economia. Os dois líderes conseguiram estabelecer o que os divide: o Livre quer acabar com o IRS Jovem (através do regresso do imposto sucessório, atirou o rival) e mexer no IVA e IRS. A Iniciativa Liberal prefere o choque fiscal, reduzir o IRC e é mais seletivo ao baixar o IVA da construção. Rui Rocha não foi explícito sobre o que fará quanto à redução da receita nem no que consiste a sua redução da área administrativa do Estado — que lhe valeu uma comparação ao DOGE de Elon Musk, antes de uma evocação de Milei devido às privatizações — e Tavares lá esclareceu que não defende a saída da NATO, mas garantiu preferir uma comunidade europeia da defesa. Num debate equilibrado, Tavares ganha por ter sido mais incisivo e nem esqueceu o primeiro-ministro: “Luís Montenegro tem muito jeito para a propaganda, talvez devesse abrir uma consultoria.”
Ricardo Conceição — Um bom debate com discussão elevada, bons temas e com ambos a marcar bem as diferenças e são muitas. Os dois candidatos estiveram combativos e demonstraram o essencial: política combate-se com política, com ideias, com rumos alternativos. Rui Tavares teve a capacidade de se assumir como uma alternativa de esquerda e o parceiro ideal para o PS, caso os socialistas assim o necessitem. Conseguiu resistir ao dogmatismo agressivo e assim, quem sabe, ganhar votos junto de um eleitorado de esquerda, que não quer votar no PS. E, finalmente, Rui Rocha conseguiu o mesmo do outro lado. O representante da IL apresentou-se com um discurso sereno, mas assertivo e lembrou que foi o único adulto na sala na crise da Moção de Confiança que atirou o país para eleições. Rui Rocha tem a 18 de maio a oportunidade de conseguir reunir os votos dos que, no centro-direita, desconfiam de Luís Montenegro e deste PSD e entre esses há uma maioria que não se revê minimamente no Chega. Até aqui, Rocha tem sido incapaz de mobilizar este eleitorado, mas isso mudou neste debate. Resta saber se vai conseguir manter o tom e a eficácia. Se as regras me permitissem dar meio ponto, Rocha venceria por uma estocada daquelas que ficam no ouvido: “O Livre está entre a foice e o martelo”.
Rui Pedro Antunes — Rui Tavares foi eficaz a vender a ideia de algum radicalismo da IL, a que chamou de motosserrismo. Falou na “comissão Musk” para vender a IL como um papão para a administração pública, aproveitou ter problemas de cabelo para ir recuperar um hit de Pedro Nuno Santos a dizer que nem para a calvície a IL tem soluções e ainda atirou à contradição de Rocha ter dito que “Montenegro escolheu a Spinumviva” em vez do país e depois ter desvalorizado o caso. À primeira vista isto poderia ser suficiente para vencer o debate a um Rui Rocha que tem estado sem alma nos frente a frente. Mas não foi. Mesmo sem brilhantismo, o presidente da IL acabou por ser eficaz ao lembrar que Rui Tavares vota muitas vezes ao lado o PCP e do BE — logo “não é um moderado, está entre a foice e o martelo”. Depois disso, também teve um sucesso quando disse que o Livre defende descidas do IVA e do IRS, mas não apresenta valores. Insistiu nesse ponto e fez bem. E ainda atirou à proposta de Rui Tavares da herança social (5 mil euros para cada bebé), medida que parece continuar a causar algum desconforto ao co-líder do Livre. Rui Tavares voltou a não responder quem terá direito a esse valor no momento da nascença. Ventura já o desafiou a dizer (porque quer saber se inclui filhos de imigrantes), mas Rui Tavares simplesmente não responde. E, caso o que disse no debate seja uma sugestão de resposta, o caso é ainda mais embaraçoso. “Todos os portugueses são nossos filhos e filhas”, disse o líder do Livre. Quererá com isso dizer que só os filhos de portugueses recebem o valor? Lá está, ninguém sabe, porque Rui Tavares continua sem responder. O mesmo acontece com a NATO, em que esclarece que não quer acabar com a aliança, mas ao mesmo tempo quer substituí-la por uma organização exclusivamente europeia. Como o próprio sugeria no início do debate, às vezes ser demasiado palavroso, atrapalha a mensagem. Foi o que aconteceu.
Sara Antunes de Oliveira — Foi mais um empate, mas desta vez porque ambos estiveram bem nos mesmos pontos. Rui Tavares e Rui Rocha foram eficazes:
— a “vender” as suas propostas;
— a mostrar-se moderados, sempre que possível (até com pontes em alguns pontos);
— a vincar diferenças entre um e outro, com ataques certeiros (que isto ainda é um debate), mas sem mancharem a dignidade do debate;
— a desmontar algumas das propostas do adversário, encostando-o às cordas certas.
Os dois sabem que representam os partidos que, aparentemente, mais podem crescer nestas eleições. Talvez por isso tenham querido garantir que não ficavam fechados nas suas bolhas.
Recorde aqui as notas dos debates:
Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real
Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares
Pedro Nuno Santos-Rui Rocha e Mariana Mortágua-Inês Sousa Real
Nuno Melo-Isabel Mendes Lopes e Rui Rocha-Paulo Raimundo
Pedro Nuno Santos-Inês Sousa Real e Mariana Mortágua-Paulo Raimundo