Mimi tinha dez anos quando o tio Fernando morreu. O tio Fernando dos presentinhos, dos poemas engraçados e das moedinhas para comprar chocolates. “Foi a minha primeira morte”, lembra. Oitenta anos depois, os seus olhos, muito azuis, ainda brilham quando fala daquele tio tão querido, que a mimou “muito”. Um tio “muito especial”, que haveria de ser motivo de romarias à casa dos pais na Lapa, para onde foi levada a famosa arca de madeira. O tio Fernando Pessoa.

Da arca já não há sinal, mas a casa de Mimi, que já não é Mimi, tem o nome de Fernando Pessoa escrito por todo o lado. Nas capas dos livros e até nas almofadas. “Deram-me estas almofadas do Fernando Pessoa”, diz Manuela Nogueira enquanto arranja espaço no sofá. Por cima, pendurado na parede, está um boneco do poeta que oferece chocolates a uma criança.

— É a pequena do Come chocolates pequena, come chocolates! Não há mais metafísica no mundo senão chocolates… — diz, olhando para a figura.

— Da Tabacaria.

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