Diz que dá uma abada a qualquer um no “Street Fighter”, versão Super Nintendo. Portanto, jogadores, façam fila. É talvez por isso que Chun-Li surge algures no caos musical que é “A Reconquista de Olivenza”, nova criação do Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e música original de Filipe Raposo – nesta que é a segunda colaboração da dupla, depois de “Banda Sonora” (São Luiz, 2018). Mas há mais. É que neste espectáculo – mais um exercício de “e se” absurdo cumprido por Neves-Neves – o mito do Milagre de Ourique, fundador de Portugal, é revirado e quem aparece no sonho de D. Afonso Henriques não é Deus, mas o dragão da série de animação “Dragonball”. A questão de Olivença só é para aqui chamada porque é lá que se encontra uma das sete bolas de cristal. Perceberam? Pois. É imaginar que Portugal ainda era uma monarquia cheio de coisas que nunca chegaram a ser. Ou, como o próprio diz, um “faz de conta”.

O seu imaginário meio louco e referencial deve ter surgido na quinta da família, em Quarteira (onde nasceu e cresceu até ter vindo estudar para a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa), onde uma cadela sua apanhava laranjas diretamente da árvore e onde chegou a brincar com ossadas, confundindo-as com pedras brancas. Estudou piano desde os 6 anos, época em que conheceu pela primeira vez o que era isso do público. Mas foi num grupo amador da sua terra que descobriu esta vocação. Já em Lisboa, foi ator profissional durante dez anos, mas achava que não era versátil e decidiu-se a passar mais tempo a escrever e a encenar. Foi aí que fundou o Teatro do Eléctrico, estrutura que lidera, lugar de liberdade. Gosta de caminhar e ouvir música. E o pior é que durante algum tempo achou que era a única pessoa que andava a ouvir Billie Eilish. O mundo tratou de lhe explicar que não era bem assim.

O título deste espectáculo é meio aldrabão, não é? Isto não é bem sobre a questão de Olivença…
Não é de todo sobre a questão de Olivença. Aqui a coisa é: neste faz de conta, neste exercício constante de “e se esta fosse a nossa realidade”, se assim fosse este seria um espectáculo sobre Olivença, só que a questão de Olivença nesta realidade não seria pela posse da terra, mas pela posse daquele objeto que é a bola de cristal, esta seria a verdadeira questão de Olivença. É sempre um exercício de faz de conta.

Bastante radical: há uma Margem Soviética do lado oposto a Lisboa, há o dragão do “Dragonball”…
Sim, a minha posição política a defender os meus espectáculos é só a vontade de fazer espectáculos e de defender o teatro, e não de defender temáticas ou causas. O teatro também serve para isso, mas deve em primeiro lugar despertar uma vontade artística. Sou uma pessoa e há acontecimentos que mexem comigo para o bem e para o mal, mas nem todos me despertam um pensamento artístico. Este exercício de criar outra realidade faz-me lembrar uma entrevista que o Mário Soares deu uma vez na televisão em que dizia: “E se, depois do 25 de Abril, Portugal fosse, a par dos países da União Soviética, da Alemanha de Leste, de Cuba, China, mais um país comunista? A Europa hoje seria muito diferente”. Ou seja, aqui para nós é mais uma coisa ao estilo como é que seria Portugal se o Rei D. Carlos não tivesse sido assassinado em 1908 e o seu filho, em 1910, por receio, não tivesse saído do país e ido para o exílio em Inglaterra? Talvez se estes dois acontecimentos não tivessem acontecido teríamos uma monarquia, se sim, como é que seria essa monarquia?

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.