Há vários anos que a história circula nas redes sociais como sendo verdadeira. Um dos sites onde está publicada, com vários erros de português e sem citar qualquer fonte, é o Bligz. “China sugere ao Brasil que dê pena de morte para políticos corruptos”, lê-se no título do artigo publicado no site a 14 de janeiro de 2020 e que teve mais de 2,3 mil visualizações de utilizadores portugueses do Facebook nos últimos dois dias. Mas esta recomendação nunca foi feita. A China não fez qualquer sugestão ao Brasil sobre os seus assuntos internos.

Site Bligz publicou história falsa a 14 de janeiro de 2020

“O Tribunal Popular Supremo da China estabeleceu uma lei que trás a Pena de Morte, para os políticos corruptos que fizeram desvio de verba, fraude fiscal e que receberam valores ilícitos superiores à de US$463.000 dólares, ou seja um valor mínimo”, começa por dizer o texto, que nas redes sociais brasileiras atingiu centenas de milhares de partilhas. De acordo com a verificação feita pela agência Lupa, em dezembro de 2018, uma reportagem com o mesmo conteúdo, do site The Folha Edition, já tinha sido partilhada mais de 706 mil vezes no Facebook até àquela altura.

O texto prossegue com informação sobre a pena de morte para políticos corruptos na China: “Esta Lei começou a ter resultado a partir desse ano 2017, ao qual se torna um processo legal e faz parte de uma revisão do Código Penal de 2016 […]”. Só no último parágrafo é que os autores falam na sugestão ao Brasil: “A China convocou ao Presidente Michel Temer a uma reunião ao qual o Presidente da China, Xi Jinping, propõe estabelecer essa Lei [da pena de morte para políticos corruptos] no Brasil, afinal somente assim para acabar com a corrupção”.

Michel Temer deixou o poder há mais de um ano, a 31 de dezembro de 2018, mas a publicação continua a ser partilhada nas redes sociais. Trata-se, contudo, de uma notícia falsa, tal como foi verificado anteriormente pela plataforma Boatos.org, pela agência Lupa e pelo Polígrafo.

Ao que tudo indica, esta informação terá tido origem numa outra história falsa, que começou a circular nas redes sociais em 2014. Naquela altura, foram disseminadas na internet notícias falsas que diziam que o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, tinha transmitido a Dilma Rousseff dez soluções para resolver os problemas do Brasil, entre as quais constavam a “pena de morte para crimes hediondos” e a “punição severa para políticos corruptos”.

Segundo a verificação do Boatos.org, o texto era falso e tratava-se de um “viral da internet”, cujo objetivo era “chocar a população” e fazer com que ela se identificasse, já que muitas pessoas defendem a pena de morte. De acordo com a mesma plataforma, esta nova “sugestão” da China é uma “evolução” desse mesmo boato, pois não existe qualquer informação oficial sobre o assunto. Há registos de vários encontros entre Temer e Xi Jinping, mas essa lei nunca foi abordada entre os dois.

Mesmo que a informação fosse verdadeira, destaca o Boatos.org, só uma alteração na Constituição brasileira podia permitir que a pena de morte fosse aplicada no país, onde a última execução aconteceu em 1876. Já a China, continua a ser o país que mais aplica a pena de morte no mundo. Apesar de não serem conhecidos dados oficiais, porque é considerado segredo de Estado, a Amnistia Internacional estima que sejam condenadas à morte mais de mil pessoas por ano. Entre os visados, existem, efetivamente, vários casos de políticos condenados por corrupção.

Conclusão

O texto, publicado em diferentes sites nos últimos anos, é falso. Não existem registos de que o presidente chinês, Xi Jinping, tenha recomendado a aplicação da pena de morte aos políticos corruptos no Brasil numa reunião com Michel Temer, como diz o artigo.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com a classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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