A 7 de agosto, voltou a circular uma imagem nas redes sociais que procura colocar em causa a capacidade militar de alguns países europeus que têm mulheres à frente do Ministério da Defesa, por oposição à Rússia, cujo ministro homólogo é um homem.

A imagem é composta por duas fotografias. Na fotografia de cima — que foi tirada em 2014 e publicada originalmente no Twitter da então ministra da Defesa da Holanda —, estão quatro mulheres sentadas lado a lado, sorridentes e com roupas civis, e com a seguinte legenda: “Ministras da Defesa [da] Suécia, Dinamarca, Noruega e Holanda”. Na fotografia de baixo, está um homem com um chapéu militar, de cara séria. Na legenda, lê-se: “Ministro da Defesa da Rússia”.

A imagem foi partilhada na conta de Facebook da “Associação Portugueses Primeiro” e com uma legenda que deixou claro que a intenção daquela fotomontagem era a de dar a entender que os países liderados por aquelas mulheres estariam mais mal servidos em termos de Defesa do que a Rússia. “O estado da Europa numa imagem”, lê-se naquele post.

A publicação da página “Associação Portugueses Primeiro” está longe de ser nova. Desde que aquela fotografia com as quatro ministras da Defesa em 2014, já houve várias fotomontagens iguais ou semelhantes à que foi agora publicada.

Porém, esta publicação tem informações que são falsas, ou descontextualizadas, além de induzir a uma ideia incorreta.

Antes de mais, uma coisa está certa na publicação: o homem que está na fotografia de baixo é, de facto, o ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoygu, que ocupa o cargo já desde 2012.

No entanto, a partir daí, há muito que sobra de errado.

Primeiro, ao contrário daquilo que sugere a legenda com as quatro mulheres, elas não são as “Ministras da Defesa da Suécia, Dinamarca, Noruega e Holanda”. Na verdade, quem está naquela imagem, da esquerda para a direita, é: Ine Eriksen Søreide, ex-ministra da Defesa e atual ministra dos Negócios Estrangeiros da Noruega; Karin Enström, ex-ministra da Defesa da Suécia; Jeanine Hennis-Plasschaert, ex-ministra da Defesa da Holanda; e, por fim, Ursula von der Leyen, ex-ministra da Defesa da Alemanha e recém-nomeada presidente da Comissão Europeia.

Ou seja, nenhuma daquelas mulheres é atualmente ministra da Defesa, apesar de o ter sido em tempos, pelo que a imagem é temporalmente descontextualizada. Além disso, não há ali ninguém da Dinamarca.

Depois, porque não é verdade que aqueles quatro países tenham diminuído o seu poderio militar e capacidade de resposta por terem mulheres à frente da Defesa. Se a curta passagem de Karin Enström pelo ministério da Defesa da Suécia deixa pouco espaço a uma análise do seu legado, o mesmo não pode ser dito das restantes mulheres na fotografia.

No caso da Noruega, a ministra Søreide foi essencial para que aquele país gastasse mais dinheiro com a Defesa (um aumento de 24% entre 2014 e 2019), comprando armas aos EUA e submarinos à Alemanha, cruciais para patrulhar o Mar de Barents, que é um ponto crucial tanto para a Noruega como para a Rússia. Em 2017, Søreide assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros, mas manteve desde então o seu compromisso com a NATO. Em 2018, a Noruega liderou o Trident Juncture, o maior exercício militar da história da aliança do Atlântico Norte.

Quanto à Holanda, importa sublinhar o currículo da ex-ministra da Defesa, que é desde agosto de 2018 Representante Especial da Missão das Nações Unidas no Iraque, depois de mais de 20 anos de experiência em política internacional e diplomacia. Como ministra da Defesa, coordenou missões de pacificação do exército da Holanda em terrenos tão distintos como Iraque, Afeganistão e Mali. Foi a propósito de um acidente naquele país africano, em que dois soldados holandeses morreram após a explosão de um morteiro durante um exercício de preparação, que a ministra se demitiu, admitindo “erros evitáveis”.

Também no caso da Alemanha, não será certo que a ex-ministra Ursula von der Leyen tenha deixado a Defesa em pior estado do que aquela que a encontrou, quando assumiu o cargo em 2013. Em 2014, a Alemanha demonstrou estar tão mal equipada que, num exercício conjunto da NATO, os seus soldados foram vistos a utilizar cabos de vassoura em vez de armas. Depois disso, a ministra Ursula von der Leyen promoveu a compra de mais armamento. Além disso, os anos de Ursula von der Leyen à frente da Defesa alemã foram mesmo os de maior investimento. Entre 2013 e 2019, o financiamento destinado à Defesa subiu de 34,59 para 47,32 mil milhões de euros — uma subida de 36,8%, que coloca a Alemanha mais perto de dedicar 2% do seu PIB para a Defesa, um compromisso que todos os países da NATO têm de honrar até 2024.

Conclusão

Tal como todas as fotomontagens que seguem a mesma linha daquela que agora a “Associação Portugueses Primeiro” publicou, ela tenta passar — sem apresentar argumentos que a sustentem e recorrendo apenas a fotografias descontextualizadas — a ideia errada de que os países cuja pasta da Defesa é entregue a mulheres ficam mais mal servidos do que aqueles que têm homens nesse cargo. Por promover essa ideia, e também por não referir corretamente os países das ministras retratadas naquela fotomontagem, o conteúdo da publicação da “Associação Portugueses Primeiro” é falso.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

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