Durante uma grande parte da minha carreira de professor, dediquei-me a cumprir a cartilha da motivação, que fazia depender o sucesso escolar da minha capacidade de convencer os alunos da importância do sacrifício no presente, em prol de uma vida melhor quando fossem adultos.

Nunca fui malsucedido nessa função e uma grande percentagem dos jovens que acompanhei conseguiu resultados de grande qualidade. Mas, a dada altura, apercebi-me de como o estudo se tornara demasiado exigente para os alunos, e dei-me conta de que não faz sentido que a aprendizagem dependa de as crianças estarem disponíveis para tarefas que, muitas vezes, gostariam de dispensar. Foi aí que me incumbi da missão de encontrar um método que preservasse a excelência, mas que conferisse à Escola um pendor lúdico, que cativasse os miúdos e lhes retirasse o lastro de desânimo que é criado pela perspetiva de sacrifício pessoal.

Daqui nasceu um conceito que batizei de “A aula integral”, porque pretende levar a aula para a vida do aluno e fazer da Escola uma experiência integradora de aprendizagem e de responsabilização, mas que seja também confortável e desafiante. Investi no desenvolvimento de jogos (aquilo que, entretanto, viria a ficar conhecido como gamificação), abdiquei dos trabalhos de casa e introduzi bonificações para aqueles que atingem determinados objetivos, fomentando uma dinâmica de massificação das atividades que encoraje os mais desmotivados. Com isso, conquistei vantagens adicionais que me permitem criar condições para que os alunos se aproximem do Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória.

Reforçou-se a autoaprendizagem e a curiosidade, ficando livre mais tempo para a imaginação e para o debate informado, minimizando riscos de alheamento. Aumentaram as oportunidades para a produtividade em grupo, com mais ocasiões de pesquisa, saindo reforçada a solidariedade entre pares. A avaliação dos alunos deixou de ser feita apenas nas provas de avaliação e passou a um registo praticamente em tempo real, ainda que assuma um pendor essencialmente formativo. Como as plataformas eletrónicas fornecem relatórios pormenorizados do desempenho de cada aluno, passei a ter acesso a dados preciosos acerca das dificuldades e conquistas das turmas, o que me colocou ainda na posição de poder responsabilizar diretamente cada um pelo seu próprio trabalho.

Imagine o leitor uma aula em que o assunto é o Sistema Solar. Cada aluno cria uma pequena apresentação sobre um planeta, o Sol ou o que quer que seja, e dá à turma uma palestra de cinco minutos. A turma debate sob a orientação do professor e, ato contínuo, resolve um quiz numa aplicação chamada Kahoot, ou uma consolidação em grupo numa outra funcionalidade, o Quizlet!. Quando chegam a casa, recebem no telemóvel os códigos para jogarem entre eles com novos quizzes numa outra aplicação, o Quizizz. Muitos dos jogos contêm variações que nem foram abordadas nas aulas, mas que fazem parte da tal estratégia de autoaprendizagem. E os miúdos conseguem porque estão envolvidos e, acima de tudo, gostam do que estão a fazer! Na aula seguinte, eliminamos conceções alternativas através do Mentimeter e fazemos um novo Kahoot. Apesar de o programa da disciplina se ir desenrolando, os quizzes antigos vão sendo disponibilizados, de modo a dar a oportunidade a todos para consolidarem aprendizagens anteriores, ficando reservada ao professor a tarefa de moderador das aprendizagens.

A aula integral, com toda a ligação direta ao mundo da tecnologia de que os jovens já não abdicam e o seu manancial de ferramentas facilitadoras, não é apenas uma proposta pedagógica alternativa, mas um conceito revolucionário no que concerne a ensinar e aprender. Longe vai o tempo em que o professor era a fonte da informação ou o treinador que gizava as melhores estratégias para que todos pudessem decorar as matérias. Agora, estamos em condições de criar cidadãos de conhecimentos verdadeiramente consolidados e interligados, preparados para criar, inovar, imaginar e procurar as melhores soluções para os problemas com que se debatem. Nesse sentido, creio que até na educação, sempre tão tradicionalista, vivemos uma época verdadeiramente excecional, em que temos a possibilidade de operar uma mudança conceptual muito significativa, ao permitir que os nossos alunos aprendam mais, mas substituam o sacrifício pessoal por desafios e cenários de autoaprendizagem.

Professor de Física e Química na Escola Secundária Alcaides de Faria, em Barcelos. Finalista 2019 Global Teacher Prize Portugal.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.