Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

No momento em que Portugal celebra a Festa da Francofonia, surgiu a oportunidade de ressaltar a importância da língua francesa e de afirmar a mais-valia da diversidade do espaço francófono, não só em Portugal, mas também internacionalmente, graças a esta inédita tribuna que une Embaixadoras e Embaixadores de países membros e observadores da Organização Internacional da Francofonia (OIF), presentes em Portugal.

Com mais de 300 milhões de falantes espalhados entre os cinco continentes, a língua francesa é a 5ª língua mais falada do mundo. O francês é ainda a língua oficial de 32 Estados e Governos, a segunda língua mais usada na diplomacia europeia e multilateral, a quarta na internet e a segunda mais aprendida no mundo.

É importante ressaltar que, dos francófonos que utilizam diariamente a língua francesa, 55% vivem no continente africano, ou seja, mais de 155 milhões de pessoas. Aos quais é preciso somar um crescimento de 15% do número de falantes, desde 2010, em África. Esta tendência deverá aumentar rapidamente nas próximas décadas, dado que África continua com um forte crescimento demográfico, sendo, assim, inegavelmente um continente de juventude, esperança e futuro, mas que, ao mesmo tempo, enfrenta inúmeros desafios. Estima-se que, em 2050, África poderá reunir quase 85% dos francófonos. Sendo uma grande oportunidade para valorizar todo o seu potencial e para prosseguir com a promoção dos valores partilhados pelos países membros da Francofonia, fortalecendo a união da sua diversidade.

A Francofonia, sendo uma comunidade presente no mundo inteiro, contará com um emblemático espaço que visa retratar a sua influência: a “Cidade Internacional da Língua Francesa”. Esta será inaugurada, em 2022, no Castelo de Villers-Cotterêts, em França, lugar onde François I assinou, em 1539, a portaria de Villers-Cotterêts, impondo o francês como língua da vida pública e administrativa do Reino de França.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Hoje em dia, o francês não é apenas falado em França como à época. É a língua oficial e a língua utilizada em países de vários continentes. Alguns deles, nomeadamente o Canadá, a Bélgica, o Luxemburgo e a Suíça, têm importantes comunidades de origem portuguesa que conjugam frequentemente o francês e o português na sua vida quotidiana. Assim, a Francofonia designa um espaço institucional de cooperação multilateral entre 88 Estados e Governos membros, associados ou observadores da OIF. Fundada em 1970, esta organização internacional pretende não só promover a língua francesa pelo mundo, como também valorizar a diversidade linguística e cultural dos países membros, numa perspetiva comum de promoção de valores universais como a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento sustentável.

Um exemplo da contribuição da OIF para os direitos humanos é de grande atualidade. Recentemente, esta organização comprometeu-se em aprofundar a questão da igualdade de género, nomeadamente através da abertura de candidaturas para apresentação de projetos “A Francofonia com Elas”, que almeja o empoderamento económico e social das mulheres. Além disso, recrutou especialistas para garantir a integração da igualdade de género nas ferramentas pedagógicas dos editores e na identificação e recolha de informações sobre as normas e expressões sexistas no espaço francófono.

Uma cimeira é organizada a cada dois anos para consolidar ainda mais os laços entre os membros da OIF e reforçar a cooperação e a solidariedade no espaço francófono. A 18ª Cimeira da Francofonia ocorrerá, no próximo mês de novembro, na ilha de Djerba, na Tunísia, país fundador, e terá por tema a “Conectividade na diversidade: o digital vetor do desenvolvimento e da solidariedade no espaço francófono”.

No entanto, o francês não é apenas falado no espaço francófono da OIF. Se há alguns anos, em Portugal, devido à globalização, o ensino da língua francesa competia com outros idiomas, hoje o contexto foi revertido a favor do francês. Numa altura em que a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e a OIF cruzam dinâmicas de projeção das suas línguas, os dados estatísticos apontam para uma representação diferenciada do Francês em Portugal. Isto é, a presença de uma importante comunidade francófona visitante ou instalada, consideráveis investimentos de países francófonos que apelam à fluência em francês, bem como o fortalecimento da cooperação educativa bilateral em consonância com o projeto de criação de um espaço europeu da educação que envolve o reforço da aprendizagem de línguas estrangeiras – pelo menos duas – num âmbito alargado de fomentação do plurilinguismo.

Neste contexto favorável, observamos que a língua francesa é, de longe, a segunda língua estrangeira, a seguir ao inglês, mais escolhida pelos alunos do sistema educativo português. No ano letivo 2019/2020, mais de 250 mil alunos aprendiam francês, ou seja, 70% dos alunos aprendendo uma segunda língua estrangeira. Esta tendência positiva verifica-se há cerca de cinco anos. Esta mesma subida do interesse pela língua francesa também é observada no ensino superior, seja pelo número de estudantes escolhendo a língua francesa ou pelos que se matriculam em estudos franceses e francófonos. Atualmente, a Agência Universitária da Francofonia, que reúne 1.007 universidades e centros de pesquisa científica que usam a língua francesa em 119 países, é uma das maiores associações de instituições de ensino superior e investigação do mundo, promovendo o desenvolvimento económico, social e cultural da sociedade.

Querendo aproximar os jovens portugueses da francofonia e que o francês não seja apenas uma língua vivida pela geração dos pais e dos avós dos jovens de hoje e com o propósito de conseguir uma imagem renovada da língua francesa, como língua de modernidade, de empregabilidade e de inovação, podendo mesmo estimular o multilinguismo, a Embaixada de França em Portugal e o Institut Français du Portugal, com o apoio da rede das Alianças Francesas, lançaram, em outubro de 2020, a campanha “Rendez-vous ao futuro!”, campanha de promoção da língua francesa que quer estar presente em todo o território português. Graças à “Rendez-vous ao futuro!”, que se destaca pela sua jovialidade e pelo seu dinamismo, espera-se, em breve, que possamos afirmar com confiança que “o Francês está de volta!”.

Arte urbana da Festa da Francofonia, no bairro da Ajuda, em Lisboa

Personalidades de diferentes áreas associaram-se à “Rendez-vous ao futuro!” ao emprestar os seus testemunhos, através de vídeos curtos e impactantes, e, assim, descrever a importância da língua francesa nos seus percursos tanto profissionais como pessoais. Alguns vídeos já estão disponíveis na página da “Rendez-vous ao futuro!”, onde poderão descobrir outros formatos da campanha e mais informações sobre a língua francesa. Note-se que esta iniciativa francesa foi desenhada para que todas as embaixadas francófonas possam adotá-la e contribuir na sua divulgação.

Enfim, se, por um lado, todos os países francófonos têm uma língua comum, por outro, distinguem-se na sua diversidade cultural. Esta diversidade é comemorada todos os anos, no dia 20 de março, Dia Internacional da Francofonia. É nesse âmbito que, este ano, em Portugal, se celebra, durante os meses de março e de abril, a Festa da Francofonia, cuja programação cultural ilustra essa diversidade em torno de música, literatura, debates, gastronomia e da criação de uma obra de arte urbana em Lisboa. Concluída no passado dia 14 de abril, no bairro da Ajuda, esta obra pretende representar, através da arte, os valores da Francofonia. O lema do evento deste ano é “A Francofonia mantém-nos juntos” e toda a programação está disponível na página oficial.

Hoje, podemos afirmar que o francês não está apenas na moda, mas que é um instrumento fundamental para uma globalização mais diversa e humana.

Jaume SERRA, Andorra
Geneviève RENAUX, Bélgica
Lisa RICE MADAN, Canadá
Fana KOFFI, Costa do Marfim
Anita TRŠIĆ, Croácia
Adel EL ALFY, Egito
Ruth LAUSMA LUIK, Estónia
Florence MANGIN, França
Conrad BRUCH, Luxemburgo
Othmane BAHNINI, Marrocos
Ioana BIVOLARU, Roménia
André REGLI, Suíça
Mounir BEN RJIBA, Tunísia