A história de “Emilia Pérez” dava um filme muito mais interessante do que o filme que “Emilia Pérez”, de facto, é.

Primeiro, eis uma sinopse do filme (o qual, contra todas as evidências, não pretende ser uma comédia). Nos intervalos da organização de chacinas, “Manitas”, chefe de um cartel de droga mexicano, sonha há anos em mudar de sexo. Um dia, o homicida arranja uma advogada que lhe trata dos procedimentos necessários, e necessariamente clandestinos. Patrocinada por dinheiro sujíssimo de sangue, que a personagem e os argumentistas não questionam, a advogada viaja à Tailândia e a Israel, a debater questões técnicas e filosóficas com cirurgiões. Convém informar que “Emilia Pérez” é um musical, pelo que os debates acontecem sob a forma de cantorias. Com o médico tailandês, canta-se o seguinte diálogo:

“[Advogada] Hello, very nice to meet you. I’d like to know about sex change operation.

[Médico] I see, I see, I see. Man to woman or woman to man?

[Advogada] Man to woman.

[Médico] From penis to vagina.”

Mantive o inglês para não comprometer a subtileza lírica. Aliás, o pedaço transcrito constitui cerca de 70% da letra completa de “La Vaginoplastia”, o nome da cantiga.

Bom, após uns divertimentos do género (trocadilho intencional), o chefe do cartel simula a própria morte, instala na Suíça a mulher e os filhos (que o julgam morto) e submete-se à operação para encontrar o seu eu autêntico, viver a sua verdade, ser ele(a) mesmo(a) enfim. Além dos genitais, uma das coisas que o assassino deixa para trás é o cadastro. Se bem percebi, o filme defende que a amputação das partes baixas purifica o carácter e absolve os homens, desde que estes passem a “identificar-se” como mulheres. Aprendam com a potência poética de “Lady”:

“Changing the body changes society

Changing society changes the soul

Changing the soul changes society

Changing society changes it all”

Aprenderam? Não sei o quê, porque nenhuma das frases faz sentido. Mas a ideia é que a transsexualidade é redentora.

Para acabar de resumir “Emilia Pérez”, Emilia Pérez, ex-“Manitas”, sente saudades dos filhos e regressa incógnito(a) à antiga família, que não o(a) reconhece e o(a) acolhe como a prima de “Manitas” que diz ser. Entre cantilenas sublimes, o elenco em peso volta ao México e lá Emilia Pérez dedica-se a trabalho filantrópico com as vítimas dos cartéis de droga. Sucedem-se umas trapalhadas excessivamente fascinantes para eu as memorizar, Emilia Pérez morre talvez num acidente e é passeado(a) em efígie pelas ruas, a título de santinho(a) dos humildes. Fim.

Na perspectiva de pervertidos, “Emilia Pérez” é uma obra-prima. Não falo de perversões sexuais, mas de cinematográficas: quem gosta de fitas péssimas iria adorar isto de qualquer maneira. Não há nada ali que não seja gloriosamente ridículo. O enredo. Os diálogos. As interpretações. As músicas. As coreografias. A “mensagem”, sim senhor(a): a mensagem é um caso à parte. O que afasta “Emilia Pérez” de outras misérias é o pormenor de “Emilia Pérez” achar ter uma “mensagem”, uma “mensagem” alinhada com as tontices em voga nos últimos tempos e pretexto para se cobrir semelhante calamidade com prémios, palmas, palmitos e palmilhas. Hollywood nomeou “Emilia Pérez” para 13 óscares, o equivalente a nomear “João Broncas, o Eterno Repetente” para 48. A diferença é que “João Broncas”, que nunca vi, de certeza não era tão infantil, não era realizado e escrito por um francês sem talento, não era protagonizado por uma Karla que há meia dúzia de anos se chamava Carlos e por causa disso concorre ao boneco de Melhor Actriz, em suma não era a consagração do destrambelhamento “woke” que “Emilia Pérez” é. Ou se esforçou por ser.

Mais até que a lengalenga “identitária”, a pobreza criativa, o humanismo postiço e a moralidade tenebrosa preparavam-se para tornar “Emilia Pérez”, com aspas, numa santinha idêntica a Emilia Pérez sem aspas, um objecto de veneração cega por parte da ortodoxia, a cereja da “coragem” no topo do bolo “inclusivo”. Só que, de repente…

De repente, pessoas que não integram júris de festivais de cinema espreitaram “Emilia Pérez” e converteram a radical indigência daquilo em galhofa na internet. De repente, mexicanos desataram a protestar a profunda ignorância que “Emilia Pérez” revela acerca do país, principalmente acerca do sofrimento que a cultura da droga suscitou e suscita. De repente, auto-designados “membros” da “comunidade LGBT” começaram a queixar-se da “representação” da transsexualidade propagada no filme, que pelos vistos viola as apertadas regras da Federação Internacional do ramo. De repente, descobriram-se publicações de Carlos/Karla no Twitter a criticar a “asquerosa” misoginia da religião muçulmana, uma opinião polémica, inesperada e, depois de tudo o que o Islão fez pela liberdade sexual, ingrata. De repente, Carlos/Karla desceu de Primeiro(a) Actor Transsexual Nomeado aos Óscares para Primeiro(a) Actor Pressionado a Desistir da Nomeação. De repente, a Netflix hesita entre promover “Emilia Pérez” ou enterrá-lo de vez.

De repente, não apenas por isto, são numerosos os sinais de que o “wokismo” cedeu às contradições internas e entrou em autofagia. Ou de que o mundo parece ter recuperado um pedacinho do bom senso que se receou perdido para sempre. E não foi preciso mudar o corpo, a alma, a sociedade: se calhar bastou mudar o inquilino da Casa Branca.