Não gosto de viajar de avião. Calculem por isso a experiência de voar de Lisboa para Los Angeles. São quase doze horas. É muito, muito tempo no ar para quem apenas com pouco já sofre. Escrevo este texto nessa mesma provação. Sabe-me a testamento.
Não gosto da semana antes de voar. Já a passo em alheamento emocional ou, pelo contrário, em despedidas existenciais prematuras. Basta ter uma viagem grande marcada que logo um mês antes a minha rotineira joie de vivre começa a ressentir-se.
Odeio aeroportos. Tudo neles me lembra o terceiro capítulo do Génesis, quando Deus explicou a Adão e Eva que por terem pecado as consequências seriam globais. Sendo pontos de passagem, os aeroportos são a casa perfeita para Caim, amaldiçoado a vaguear pela terra como castigo por ter matado o seu irmão Abel.
Abomino as cerimónias documentais necessárias para voar. Apesar de já ter viajado sozinho, hoje recuso-me a fazê-lo. Fico mortificado no check in, ansioso no controlo de passaporte, angustiado na entrada do avião. Sinto-me a caminho de uma execução.
O voo propriamente dito é um assunto mais complexo. Ironicamente, não o passo em episódios maníacos. Acabo por aceitar a travessia com resignação. Agora fala-se muito de pensamentos intrusivos, o que acho algo absurdo porque quase todos os meus pensamentos se intrometem. Mas a verdade é que faço por não pensar nos filhos que ficam longe (geralmente a Rute está comigo), nas horas de voo que ainda faltam, no tempo em que vou estar fora do meus país, entre outros sentimentos que me deprimem.
Confesso que gostei quando a pandemia de há cinco anos fez o mundo parar e quase todos os projectos de viagens arderam. Nessa medida, fui um homem feliz no covid. Às vezes dá-me uma saudade…
O actor Billy Bob Thornton dizia que não tinha medo de voar; tinha medo de cair. O meu problema é quando a queda acontece ainda antes de voarmos. O que me tem feito sofrer não é tanto estar no ar mas mais o período em que me desce a qualidade de vida em função do voo futuro. O que detesto no avião é ver que ele desmascara o que de mais subterrâneo tenho cá dentro. São muitas as estações onde pode parar o metro dos meus medos.