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Fui ontem ao cinema ver As Sufragistas.

Mas não, está não é uma crítica do filme, porque estive sempre a olhar para o ecrã através de uma nuvem vermelha.

Parece que tenho uma memória bastante seletiva porque sempre que vou ao cinema em Lisboa, vou cheia de otimismo. Espero ficar entretida pelo filme ou dormir uma boa sesta, se por acaso acompanho uma criança e o filme é sobre coelhinhos. Acabo quase sempre desiludida pelo meu otimismo em todas as coisas, e o cinema não é excepção. Nunca consegui dormir uma sesta num cinema lisboeta, tal como nunca dormi num avião. A culpa, no caso do cinema, não é da ansiedade, mas da raiva.

O inferno no cinema, como todos nós sabemos, são os outros. Todos nós [“nós” sendo pessoas um pouco mais educados do que, digamos, as hienas] temos histórias de terror das nossas visitas ao cinema.

Começa na fila da bilheteira, onde há sempre quem tenha uma lista complicada de exigências e perguntas fantasticamente estúpidas, quando numa ida ao cinema há pouca coisa para decidir: filme, lugar, desconto (criança, etc), para as quais a resposta é normalmente sim ou não.

Depois são as pipocas trituradas nas bocas e no chão, e que têm um cheiro de urina.

A exibição de ontem à noite de As Sufragistas, porém, foi um exemplo de um filme sem pipocas. Nunca vi nem cheirei, desde que as pipocas se tornaram costume nos cinemas deste lado do Atlântico, tão poucas pipocas. A razão tinha a ver com a idade média da audiência, que era bem acima dos sessenta anos.

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A sala tresandava a naftalina, e àqueles perfumes mofados do talco e da laca. Irritei-me. Não porque fosse sair a cheirar a naftalina (e saí), mas porque era provavelmente o adulto mais jovem na sala. Onde estavam os jovens? Um filme do tipo das Sufragistas é demasiado digno para eles querem ver? É deprimente.

Uma senhora e a sua filha (mais velha do que eu) sentaram-se ao meu lado. A senhora, de penteado grande e lacado (veja ilustração para ver a espécie específica de penteado grande), óculos grandes, fato castanho de calças e mala agarrada fortemente ao colo, sentiu-se e queixou-se que os seus lugares não prestavam, filha, porque estão demasiados perto do écran, filha, e devíamos ter ido mais para trás, filha.

A senhora concordou e discordou de todos os anúncios em baixa resolução no écran, e fez aquela coisa de ler em voz alto os textos dos anúncios, uma coisa que todas as senhoras de penteados grandes de uma certa idade fazem porque…. não sei porque fazem, mas sempre fazem. Depois conversou com a sua filha durante os trailers todos, e comecei a odiá-la.

No fim dos trailers, mais duas senhoras chegaram em cadeiras de rodas, do tipo eléctrico. Uma delas era tetraplégica e a sua cadeira uma dessas máquinas maravilhosas que lhe dá mobilidade ao mesmo tempo que a mantém viva, com um ventilador.

A senhora de penteado grande ao meu lado, presumivelmente cheia do espírito do filme que estávamos prestes a ver, um filme sobre os direitos das mulheres serem grandes chatas, inclinou-se logo para frente, para se queixar, ó minha senhora, que não podia ver o écran e gostava que a senhora desviasse a cadeira um bocado para a esquerda. A cabeça da senhora tetraplégica bloqueava precisamente um centímetro do écran. A senhora do penteado grande teve pelo menos a educação de dirigir a sua queixa à própria senhora, em vez de ao seu companheiro do lado, mas ainda assim, olhei para ela boquiaberta (embora isso fosse capaz ser a versão inglesa do que é olhar rapidamente e ficar embaraçada). Odiei-a duplamente.

bat

Depois, durante o filme todo, ela não percebeu nada do que estava a acontecer. Abanou a cabeça perante as mulheres que se portavam mal no filme, e sussurrou a alto volume “tadiiiiiiinho” a cada vista do filho pequeno da protagonista principal. TADIIIIIIIIINHO. Se existe um exemplar perfeitinho desse estereótipo da senhora de penteado grande com mala bem agarrada no colo, é esta senhora de penteado grande.

Enfim, não consegui ver o filme a minha vontade por causa desta mulher ignorante, mal educada e irritante, que me fez subir o ódio ao nível 3.

Mas que se poderia esperar? Em Lisboa, nos cinemas, há sempre gente que consegue fazer o máximo de barulho possível a mastigar pipocas, gente a chegar tarde ao filme, gente que insiste em falar durante o filme todo — especialmente mães e avós galinhas que gostam de explicar a história ao idiota mimado do filho ou do neto –, gente que não desliga o telemóvel e que envia mensagens e até atende chamadas a meio do filme, gente que ressona, e gente que salta dos lugares para sair ainda o filme não acabou, como se estivesse num avião. É quase impossível conseguirmos aproveitar o escuro da sala para nos deixarmos absorver ou emocionar pelo filme.

Um dia, talvez haja um filme sobre gente idiota que acha que o mundo é a sua sala de cinema privativa.

(texto traduzido do original inglês pela autora)

Sufferage

I went to the cinema to see Suffragette.

This isn’t a review of Suffragette, because I watched the film through a red mist.

I seem to have a very selective memory, because I always go to the cinema in Lisbon with a sense of optimism. I look forward to either being engaged by the film or having a snooze if it’s one of those cinema trips with a child to a film about bunny rabbits. I am almost always let down by my optimism in most things, and cinema is no exception. I have never once managed to sleep at a Lisbon cinema, just as I have never managed to sleep on an aeroplane. In the cinema it has less to do with nerves or anxiety and more to do with rage.

The problem with going to the cinema is, as we all know, other people. We all [we, meaning anyone with the social skills of anything above hyena] have cinema horror stories.

It starts at the queue, where there is always someone with a fantastically stupid and complicated set of demands, requests and questions pertaining to their specific cinema needs, when in the cinema, criteria are pretty limited: film, seat, concession, to most of which the answer is yes, you can, or no you can’t, that’ll be €7,50 please.

Then there is the popcorn which crunches in mouths and underfoot and makes the auditorium smell of wee.

Last night’s showing of Suffragettes was, however, an exemplar of a popcornless film. Never have I seen, or smelled, so little popcorn in the twenty or so years since popcorn became de rigeur in cinema this side of the Atlantic. The reason was that the average median age of the audience was well over sixty.

The room was a-fug with the smell of naphthaline and powdery musty old lady perfume and hairspray. I was annoyed. Not because I would go home later smelling of mothballs, which I did, but because I was the youngest adult there. At 45, that’s quite some feat. Where were the young? Too worthy a film for them? How depressing.

A lady and her daughter sat next to me. The lady, all big hair (see illustration for exact big hair type), big glasses, brown trouser suit and handbag clutched tightly to her lap, sat and complained that theirs, the penultimate seats to be sold, were far too close, filha, to the screen, and that, filha, we should have been further back, filha.

She agreed and disagreed vocally with the tinny low resolution adverts on the screen, and doing that reading out of the adverts to the rest of us that big haired ladies of a certain age do, because … I don’t know why they do, but they always do. Then she chatted with her fiiiiilha during the trailers, and I already hated her.

As the trailers ended, and the film was about to start, two women arrived in front of us in electric wheelchairs. One was quadriplegic and her wheelchair one of those amazing machines that simultaneously keeps her mobile, and keeps her alive, with a ventilator.

The big haired lady next to me, presumably filled with the spirit of the film we were about to watch about a woman’s right to be a pain in the arse, leant forward immediately to complain, minha senhora, that she couldn’t see the screen and would the quadriplegic lady move to the left. The quadriplegic lady’s head was covering precisely one centimetre of the bottom of the screen. Big haired lady did have the good grace, I suppose, to address the woman herself and not to her able bodied companion seated nearby, but still, I stared at her, open mouthed (although it might have been English staring which is a quick glance and then looking away embarrassed). Hate points doubled.

Then, through the whole film, she entirely missed the point, tutted at the bad behaviour of the women in the film and loudly whispered “tadiiiiiiiiinho” every time she saw the main protagonist’s six year old son. TADIIIIIIIINHO. If ever any one person personified stereotype of the big haired, handbag clutching type it was this woman.

Hate points tripled, and the film ruined for me, because I was sitting next to a rude, ignorant old bat who needed a talking to who had made me angry.

But what to expect? In Lisbon cinemas there is always someone crunching popcorn as loud as they can, people arriving late to the film, people who insist upon talking through the whole thing – doting mothers and grandmothers a good case in point, who explain the plot to their idiot spoilt offspring from start to finish – people who don’t answer phone calls and messages, people who snore, people who jump up as soon as the credits roll as if they were on an aeroplane that just landed. It is almost impossible to sit in the dark and enjoy the film or have a little cry.

One day, maybe there will be a film about idiotic people who think the world is their very own cinema auditorium.