“Patrick, como vai ser a escola do futuro?” É frequente fazerem-me esta questão, mas a resposta, como qualquer exercício de futurologia, é arriscada e imprevisível. Contudo, há uma tendência que deve ser tida em consideração, devendo ser seriamente equacionada como um caminho possível: o que eu chamo de aprendizagem combinada, conceito que deve ser entendido como um modelo de aprendizagem que combina o ensino “tradicional”, mais teórico e expositivo, e uma abordagem mais prática, proporcionada pela tecnologia. Mas, na prática, qual é o objetivo? O princípio é o de aprender as “matérias de sempre” e desenvolver competências com o apoio da tecnologia, desenvolvendo também as competências tecnológicas simultaneamente.

Num mundo crescentemente assente (e, por vezes, até dependente) na tecnologia, a sua entrada na escola parece-me inevitável e, a vários títulos, desejável, nunca como um substituto, mas como um complemento. Em primeiro lugar, porque a tecnologia já está na sala de aula. Rara será a turma que conta com um aluno sem smartphone, atualmente, uma das maiores fontes de distração dos jovens. Daí a premência de converter esses aparelhos em ferramentas de trabalho, anulando o seu potencial distrativo. Por exemplo, por que razão obrigamos os alunos a usar uma calculadora, se ela já existe nos smartphones? Ao integrar esses dispositivos no processo de aprendizagem e transformando-os em auxiliares, não só anulamos uma fonte de distração (porventura a mais forte), como poderemos aumentar exponencialmente a atenção e o foco dos alunos nas aulas, tornando-as mais interativas.

Aplicações como o KAHOOT! já dão provas de como resgatar a atenção dos alunos de novo para a aula, através da sua interatividade, permitindo uma abordagem e um ensino mais apelativo, interessante e, sobretudo, inutiliza o smartphone como elemento distrator, uma vez que está a ser usado para a própria aula. Todavia, este é apenas o primeiro passo da convergência entre aprendizagem e tecnologia.

O segundo passo radica na evolução dessa convergência para algo de mais profundo e substancial, como a inclusão de áreas do saber como a robótica ou a programação, primeiro, nas aulas, como uma ferramenta de aplicação prática e consolidação dos conhecimentos teóricos. Tal ajuda uma vez mais os professores, no sentido de encontrar novas abordagens, mais criativas e inovadoras de ensinar e captar a atenção dos alunos, bem como de os fazer entender a aplicabilidade prática de alguns conhecimentos, muitas vezes questionada pelos jovens, ao mesmo tempo que pode apoiar os docentes numa explicação mais eficaz dos conteúdos mais complexos.

A título meramente ilustrativo, cabe aqui o exemplo da Escola Alemã de Lisboa, que tem desenvolvido um trabalho de relevo. A instituição encontra-se já nesta segunda etapa, contando com resultados muito positivos ao levar a robótica até a algumas disciplinas “tradicionais”. Será neste ponto que acabamos por atingir uma aprendizagem do tipo combinado para os estudantes, em que a tecnologia se alia ao professor. E este passo terá de ser dado, mais cedo ou mais tarde. Porque o mundo mudou e, sobretudo, porque os alunos mudaram, muito, assim como a sua forma de aprender.

Além disso, esta convergência reveste-se de uma extrema relevância, na medida em que só integrando a tecnologia na escola se pode dar resposta às necessidades do futuro, no qual os futuros trabalhadores, mesmo que não trabalhando na indústria tecnológica, terão de possuir conhecimentos na área, pois, mesmo não fazendo máquinas, certo é que terão de trabalhar lado a lado com elas.

O último passo deste caminho culminará, quem sabe, na autonomização da robótica e da programação como disciplinas dos planos curriculares do ensino obrigatório, sem que se deixe cair a sua integração nas outras disciplinas, como complemento.

Repensar o papel da tecnologia na educação é, por isso, de uma importância inquestionável, devendo merecer uma atenção acrescida pelos órgãos de tutela.

Fundador e CEO da Teckies