Isabel dos Santos

“Belinha, sai só”. A carta aberta de Rafael Marques a Isabel dos Santos

Autor
  • Rafael Marques de Morais
1.598

Prezada Isabel dos Santos, chegou a hora de retribuir o teu gesto de carinho para comigo, manifestado há já algum tempo na tua conta do Instagram, quando me tratavas por Rafaelzinho.

Prezada Isabel dos Santos,

Chegou a hora de retribuir o teu gesto de carinho para comigo, manifestado há já algum tempo na tua conta do Instagram, quando me tratavas por Rafaelzinho.

Portanto, Belinha, ironias e cinismo à parte, escrevo-te para reflectir contigo sobre o momento de mudança em curso em Angola e o involuntário e ingrato papel que te cabe: o de bode expiatório da corrupção generalizada e da arrogância do poder.

Há dias, em conversa com dois grandes servidores da pátria – leais ao MPLA –, fiz-lhes notar a forma vingativa como querem que o teu pai abandone também a presidência do partido. Há uma estranha e crescente onda conspiratória dentro do próprio MPLA para que o camarada José Eduardo dos Santos deixe o cargo tão cedo quanto possível. Ali mesmo, os dois homens pareciam ser os mais corajosos do mundo, como têm sido todos os dirigentes do MPLA a quem o teu pai fez de gato e sapato e a quem mandou ir lamentar-se para os muros da vergonha e da cobardia.

O mais velho dizia que tinha sido uma humilhação, na recente reunião do Comité Central do MPLA, o Presidente da República ter-se perfilado, de pé, para saudar a entrada omnipresente do presidente do partido.

Por mim, o teu pai devia continuar presidente do MPLA durante muitos mais anos, para que os militantes do MPLA, que nunca se tomam como cidadãos, sintam o quanto desesperou o povo.

Belinha,

A novidade agora é o João Lourenço. É o que está a bater. Dentro do MPLA quer-se a consagração absoluta de João Lourenço. Os agitadores querem a transferência dos poderes absolutos que o teu pai tinha e que lhe permitiam fazer de nós, pobres angolanos, meros instrumentos do seu poder. Todos esses poderes são agora desejados nas mãos de João Lourenço.

Passei muitos anos, armado apenas com o meu computador, com papéis e com canetas, a denunciar os excessos e os abusos monárquicos do teu pai. Não quero passar mais anos a fio a combater os poderes absolutos, sem freios nem contrapesos, que os do MPLA e o povo incauto querem colocar nas mãos de João Lourenço. Quero realizar o sonho de ir fazer a minha lavra em Malanje e reformar-me por lá, em paz e ligado à Internet. Mas antes quero também realizar o meu sonho de ver este povo livre, solidário no exercício da cidadania, exigente na afirmação da democracia, da transparência e da boa governação. Quero ver este povo a ser bem educado e encaminhado para o desenvolvimento humano. É uma questão de consciência. Por isso, peço a tua atenção.

No meio desta divisão que se agudiza dentro do MPLA, o centro das atenções és tu, princesa. Aperta-se o cerco à tua volta. És o teste para aferir se João Lourenço tem poder real e capacidade de decisão ou não, se tem coragem política ou não.

Quer dentro do MPLA quer nas ruas, onde o povo é um mero espectador, aguarda-se o acto de João Lourenço para te arrancar a coroa de princesa – a Sonangol – que o teu pai te ofereceu. Para piorar a tua situação, estás a exercer de forma ilegal, e por incompetência do teu pai, o cargo de presidente do Conselho de Administração da Sonangol.

Como teu crítico e teu irmão angolano, penso que te falta um acto de humildade e coragem enquanto angolana. Pelo teu próprio punho, pede a tua demissão. Entrega a Sonangol com um sentimento de alívio, e fala para este povo que hoje te vê como uma vilã, como a princesa má. Fala sem máscaras, sem assessoria estrangeira, do fundo do teu coração. Onde o reinado do teu pai acabou, o teu exercício de cidadania deve começar.

Todo o dinheiro que acumulaste, todo o poder que tiveste, todos os aduladores e amigos que juntaste por este mundo maravilhoso poderão, em breve, tornar-se num pesadelo, um sopro de tristeza, um mar de abandono. Olha para o teu pai hoje, no Miramar: é um velho triste e desonrado. À sua volta, só se vê o corrupio dos abutres esperançosos de mais alguma carne podre arrancada do ser angolano.

Se nada tiveres para dizer a este povo e para devolver a esta Angola, do fundo do teu coração, então, irmã, sai só, em paz. Entrega tu a coroa – a Sonangol.

Este texto de Rafael Marques foi publicado originalmente no site Maka Angola a 11 de novembro, pouco antes da notícia conhecida esta quarta-feira de que Isabel dos Santos foi afastada da Sonangol.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Angola

Marcelo e os portugueses em Angola

Rafael Marques de Morais
522

Pensei que o presidente dos “afectos” tivesse tacto diplomático para lidar com Angola. Enganei-me. Mas não me engano quanto à hospitalidade, amizade, capacidade de perdoar e tolerância dos angolanos.

Sonangol

Sonangol: O Partido da Monarquia Dos Santos

Rafael Marques de Morais
218

Isabel dos Santos foi a raposa nomeada para cuidar do galinheiro que é a Sonangol. Vão-se as galinhas, vão-se os ovos, e ficam as penas e as cascas. Isabel dos Santos adora ovos.

Angola

Portugal, Angola: afectos e o racismo encapotado

Rafael Marques de Morais
709

Há uma cumplicidade atroz entre os governantes portugueses e a sua elite de negócios no apoio à pilhagem de Angola pelo MPLA, Eduardo dos Santos, a sua família e o sistema de repressão que os sustenta

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)