Na Sala 4 há mais de 40 pessoas, a maioria deitada em panos ou sentada no chão. O calor é insuportável, assim como o cheiro a suor. É notória a falta de higiene. As janelas estão permanentemente abertas, para aliviar o ambiente abafado e trágico. Junto às janelas, nas traseiras do edifício, as águas pútridas das fossas rebentadas conferem um aspecto nauseabundo e aterrador ao Bloco de Urgência Pediátrica (BUP) do Hospital Américo Boavida. Trata-se do segundo maior hospital de Angola, a seguir ao Hospital Josina Machel, ambos localizados em Luanda.

O cenário repete-se nas demais salas de internamento do bloco pediátrico. Ao fundo do corredor, deitados ou sentados, prostram-se os familiares, que não têm lugar nas salas de tratamento onde se encontram os seus filhos.

Há sete camas na Sala 4, cada uma delas com dois pacientes. No chão sujo, deitadas em simples panos providenciados pelas famílias, há mais nove crianças. As restantes pessoas são familiares que estão ali a cuidar dos filhos, sentados, aninhados, deitados, esperançosos ou desesperados. Por entre os parcos espaços livres, uma enfermeira, com máscara de proteção, não tem mãos a medir. Movimenta-se de um lado para o outro, dinâmica e a transpirar a rodos, colocando balões de soro, monitorizando as transfusões de sangue. No meio da sala, está a sua mesa de trabalho, com seringas e parcos meios. A aparência é a de um hospital de campanha militar instalado numa zona de guerra.

Alguns balões de soro são colocados nas janelas, que dão para as fossas abertas. Não há mais espaço junto das camas ou nem suportes de soro suficientes para que os balões possam ser colocados acima dos pacientes.

Natália Julião dos Santos, com um ano de idade, está deitada no chão, a receber soro, com uma tia ao lado para lhe prestar os cuidados que forem necessários. É uma sobrevivente. Os três irmãos mais velhos morreram em menos de 24 horas, ceifados pela epidemia de febre-amarela no dia anterior, o mesmo dia em que Natália foi internada.

Teve de esperar mais de 15 horas para ser internada naquelas condições e lhe ser administrado apenas soro. Natália precisava de uma transfusão de sangue. Como a família não tinha doado sangue, a criança não podia receber.

Doar sangue para receber sangue

O sistema é pragmático, e muito claro. As famílias devem doar sangue antecipadamente para que os seus familiares possam beneficiar das reservas existentes no hospital. O autor deste texto disponibilizou-se a doar sangue para que Natália Julião dos Santos, registada ali com o nome do pai, António Dembo, pudesse receber a transfusão.

Já passavam das 22 horas quando se dirigiu à cave onde se localiza o centro de colheita e triagem de sangue. Entre as escadas e a pequena ante-sala, cerca de 40 pessoas, algumas deitadas no chão, aguardavam pela sua vez para doar sangue.

José António, pai de Carlos José, de dezoito meses, está desde as oito da manhã à espera para doar sangue, para que o seu filho possa receber a transfusão requerida com urgência. “Antes de vir aqui ao hospital grande, passei no centro de saúde da Estalagem, em Viana, no Hospital do Kapalanca, também em Viana, e no Hospital dos Cajueiros, no Cazenga”, explica o pai do menino doente, que foi diagnosticado com paludismo. “Todos dizem que não têm medicamentos para tratar paludismo nem sangue para fazer uma transfusão. Transferem para o Hospital Américo Boavida. Aqui dizem-nos para molhar sempre o doente porque não há medicamentos e praticamente não há assistência”, desabafa.

Outros potenciais doadores, que também aguardam há mais de 15 horas, reiteram a mesma narrativa.

Basta um vislumbre ao centro de recolha para se ter ideia da lentidão do processo. Há praticamente apenas um técnico e um assistente a realizarem todo o processo, em condições de trabalho caóticas. É um milagre que sejam capazes de processar corretamente a informação. A lista dos doentes que precisam de transfusão e dos respetivos doadores é feita circular por um guarda privado do hospital. Entre as dez da noite e a uma da manhã, o técnico tinha assistido apenas seis pessoas. Debalde.

Morrer

O gabinete da médica de serviço, do outro lado do corredor das salas de internamento, é revelador. De lá sai um pai aos gritos, com o filho morto nos braços, e o segurança pede para que os outros pais, que aguardam com os seus filhos para serem atendidos, se afastem o mais possível.

No gabinete, a médica cubana, protegida por uma máscara, revela que tem conhecimento da tragédia que se abateu sobre a família de Natália, mas diz que pouco mais pode fazer. Lamenta. Nota-se a sua fadiga. Para além da secretária onde está sentada e de uma cama de observação ao lado, o seu gabinete não tem quaisquer outros recursos. Ali, a morte reina por descaso das autoridades.

Um médico revela, sob anonimato, que em média morrem 25 a 30 crianças por dia no Hospital Américo Boavida, sobretudo por falta de assistência médica básica. “Por falta de espaço na morgue, muitas vezes deixam os mortos nas enfermarias”, denuncia.

O médico define o estado do Hospital Américo Boavida, e o seu terrível índice de mortandade, como um “verdadeiro crime público”.

Por sua vez, o pai do petiz Carlos José abana a cabeça e diz: “É simplesmente desumano.”

No que diz respeito ao estado do setor da saúde em Angola, as opiniões distribuem-se por três grandes correntes: para os que têm fé, só Deus pode mitigar a situação; para os que são críticos, só com uma mudança de regime será possível reestruturar o sistema e servir os cidadãos com humanidade; para os fiéis do regime, basta o comentário de um membro do MPLA que tomou nota das diligências: “É preciso não ver só o que está mal. Há muita coisa boa que foi feita. É melhor destacar o que tem sido feito de bom.”

Pois então seria bom que se explicasse o que se está a fazer de bem, já que isso leva à morte de 25 a 30 crianças por dia no BUP do Hospital Américo Boavida. Ou será que essas vidas não valem nada? Ah! A Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, situada neste hospital, tem um moderno edifício, e a parte frontal do Américo Boavida tem um jardim limpo. Claro, isso é positivo. Nem sequer vale a pena falar das fossas abertas. O governo já faz muito.

Este artigo foi originalmente publicado no Maka Angola