Eu juro que estava a preparar-me para escrever sobre as eleições autárquicas e a forma como os resultados de domingo podem contribuir para acelerar o ciclo eleitoral — se o Chega tiver uma boa votação e as presidenciais também correrem bem a André Ventura é certinho que a tentação de derrubar Luís Montenegro vai ser muito grande.

Mas há temas que se atravessam no nosso caminho e que se tornam também irresistíveis. No meu caso, foi este, acabado de publicar à hora que escrevo: Parlamento Europeu aprova proibição de usar termos como “hambúrguer” e “salsicha” em produtos à base de plantas.

O assunto pode parecer corriqueiro, menor face a todos os grandes problemas dos nossos dias, mas acreditem que é um bom exemplo das lógicas que nos trouxeram aqui.

Resumindo, apropriando-me do primeiro parágrafo do texto do Edgar Caetano, “o Parlamento Europeu aprovou uma proposta que impede o uso de designações tradicionalmente associadas à carne — como “hambúrguer”, “salsicha” ou “bife” — na comercialização de alternativas de origem vegetal. A proposta partiu do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), que defende que estas denominações devem ser reservadas exclusivamente a produtos de origem animal.”

Primeira nota rápida: estamos pior do que há cinco anos. Em 2020, uma proposta semelhante tinha sido chumbada. Agora, foi aprovada com 355 votos a favor e 247 contra.

Segunda nota rápida: nem tudo está perdido no grupo do PPE, porque dizem os relatos que alguns eurodeputados desta família política — onde estão o PSD e o CDS — tiveram a lucidez de se opor.

Terceira nota, mais demorada: o relatório Draghi foi definitivamente parar ao caixote do lixo. O documento liderado pelo italiano foi apresentado há cerca de um ano. Muito aplaudido, fez um diagnóstico implacável da perda de competitividade da União Europeia, colocou os dedos em várias feridas e apresentou alguns caminhos.

Nos pontos que importam para este magno tema da rotulagem de alimentos de base vegetal, que preocupa tantos eurodeputados, vou destacar dois.

A Europa tem um défice de inovação e um excesso de regulação, quando comparada com economias como a norte-americana.

Simplificando, enquanto outros dão prioridade à inovação, à criação e dão aos agentes económicos liberdade regulatória para isso, a Europa está sempre mais preocupada em regular, criar leis e afogar os inovadores erm burocracia para prevenir que alguma inovação possa ter algum impacto mais perverso ou negativo.

Não admira, por isso, que os gigantes tecnológicos estejam hoje todos nos Estados Unidos ou na China e que a Europa tenha perdido definitivamente este campeonato decisivo e com impacto transversal para a competitividade de tantas áreas de negócio.

A preocupação em regular os rótulos é apenas mais um sintoma dessa doença crónica. Parte de um princípio que contamina muitos legisladores: tomarem os cidadãos por mentecaptos, gente que não sabe tomar decisões corriqueiras do seu dia a dia, presas fáceis nas mãos de perigosos designers de rótulos e de marketeers sociopatas que não perdem uma oportunidade para enganar o inocente cliente perdido no meio de corredores de supermercado.

Cidadãos que perante uma embalagem que diz “hambúrguer vegetariano” pensam que estão a levar para casa a melhor carne picada do lombo de uma vaca açoriana. Ou que, perante a indicação de “salsicha vegan” não imaginam outra coisa senão a gordura animal de que também são feitas.

Com sorte, a medida agora aprovada vai perder-se no labirinto regulatório criado por Bruxelas — os burocratas também tropeçam nos próprios pés, vítimas das armadilhas que eles próprios criam para as sociedades.

Com azar, e nestas matérias temos tido muito azar nas últimas décadas, vamos ter toda uma cadeia de produção e logística mais preocupada em encontrar nomes alternativos do que em criá-los, desenvolvê-los e produzi-los. Hoje os nomes e rótulos, amanhã a forma dos produtos. Humm, bolas vegetarianas que fazem lembrar almôndegas? O melhor é proibi-las, não vá o incauto consumidor levá-las ao engano, pensando que está a levar carne para casa.

E assim continuaremos, até ao dia em que se ache fundamental regular a rotulagem dos frescos para que uma beringela não seja confundida com uma posta de vitela barrosã. Para mim pode ser mal passada, por favor.