Várias figuras do PS, inclusive do Governo, pediram nas últimas semanas a maioria absoluta. É uma tendência natural e uma ambição legítima para qualquer grande partido. Na teoria, governar com maioria absoluta seria sempre mais fácil do que governar sem maioria. Mas, talvez a realidade, no caso de Costa e deste PS, seja ligeiramente diferente.

A inovadora e arriscada aliança à esquerda que colmatou nesta geringonça teria, segundo a maioria dos comentadores políticos (e eu próprio), tudo para correr mal e um curto prazo de validade. Ultrapassaram todas as expectativas de estabilidade governativa. Mérito de António Costa e à sua equipa pela forma astuta como geriram a CDU e o BE. Mais do que encontrarem consensos com estes partidos, descobriram neles a âncora que tanto necessitavam para prosseguir 4 anos de governação, apesar de inúmeras polémicas. Foi um seguro de saúde inesperado, mas imprescindível, para chegarmos ao fim destes 4 anos e andarmos a discutir se o PS terá ou não maioria absoluta.

Façamos um exercício. Imaginem que o PS teria governado sozinho durante estes 4 anos, sem acordos à esquerda. Neste contexto, imaginem agora qual seria a intervenção da CDU e do Bloco perante as polémicas das dezenas de mortos nos incêndios, o roubo de Tancos, o Familygate ou as golas inflamáveis? Pergunto de outra forma: quantas seriam as demissões que estes partidos exigiriam ao governo? E quantas mais greves decorreriam perante a maior carga fiscal de sempre? Os partidos à esquerda do PS assumiram sempre nas legislaturas anteriores uma oposição agressiva, estando invariavelmente na linha da frente do combate político quando despoletavam escândalos colocando em causa a competência dos membros do governo e a sua idoneidade. Aproveitavam a ausência da esfera governativa para uma maior liberdade no debate político, abdicando, por inerência, de ficarem presos ao “sentido de responsabilidade” que tanto limita (e bem) os partidos que habitualmente fazem parte das soluções governativas. Ter o apoio da CDU e do Bloco significou minimizar bastante o conflito e oposição parlamentar, resultou num aumento de número de vidas políticas perante as graves polémicas que surgiram e um elevado controlo das principais estruturas sindicais.

Por outro lado, António Costa deambulou durante estes 4 anos numa passadeira livre, podendo disseminar os seus sound bites e marketing político, criando nos eleitores uma perceção de que o país estaria bem melhor do que efetivamente está. A ausência de ideias da direita e crise de liderança no PSD e CDS foi um ingrediente adicional para a aparente pacificação desta legislatura.

Sem o apoio da esquerda, o PS talvez conseguisse, mesmo assim, completar o mandato, mas as feridas seriam inevitavelmente maiores, com reflexo no número de demissões de membros do governo, bem como numa expectativa eleitoral a 6 de outubro bem menos atrativa. Aliás, este governo nos últimos 4 anos sem maioria absoluta mas com acordos à esquerda teve certamente um percurso mais cómodo (ainda que negocialmente mais exigente) do que aquele que teria se tivesse tido maioria absoluta sem acordos à esquerda. Neste cenário, chegaríamos às eleições com perspetivas menos animadoras para António Costa.

Um governo com maioria tem um nível de exigência do eleitorado muito superior. Exigir-se-iam reformas estruturais que foram inexistentes nesta legislatura e representou uma clara oportunidade perdida. Mas terá António Costa perfil para liderar um conjunto de reformas estruturais? Não. António Costa é um sobrevivente, é um animal político que gere os conflitos e alianças procurando ir passando entre os pingos da chuva. António Costa não tem, nem nunca demonstrou ter (e provavelmente nem quer ter), uma visão reformadora para o país. Ter maioria absoluta obrigá-lo-ia a fazer o que ele não quer e que possivelmente não sabe. Sem maioria absoluta poderá continuar a apregoar que gostaria de fazer muito mais, mas que o acordo tripartido não o permite. A CDU e o Bloco continuarão a ser a desculpa natural do PS para o desenvolvimento de Portugal saber a tão “poucochinho” numa conjuntura internacional favorável.

António Costa é hábil na gestão das suas relações e essa vantagem só será potenciada pela inexistência de uma maioria absoluta e em replicar a fórmula dos últimos 4 anos (mas, quem sabe, com outro ator político: PAN). Num contexto de possível abrandamento da economia nos próximos anos, decorrente de um abrandamento internacional, uma solução de governo liderada pelo PS suportada por acordos será ainda mais crítica para assegurar a estabilidade da próxima legislatura. O PS continuará a precisar das suas muletas políticas para mascarar as suas fragilidades e debilidades governativas.

Não, António Costa não deseja maioria absoluta, mas pretende, em parte, passar essa perceção. Tem receio de a ter, e não sabe o que fazer com ela. Uma maioria absoluta seria para António Costa uma prenda envenenada.