O Big Brother faz 20 anos e a TVI resolveu celebrar a data com uma nova edição do programa. Dizem os especialistas que o Big Brother revolucionou a televisão. Revolucionou é a palavra. Das revoluções não se pode esperar nada de bom. Seguro é que nestes 20 anos o Big Brother fez escola. O país, esse, perdeu o escol.

Vamos nós primeiro ao que fez escola e depois ao escol, já que muito escol preferiu ir pouco à escola.

O Big Brother inaugurou um género televisivo onde as massas ganharam protagonismo. Os modos de falar, as mundividências – e já agora a ausência de mundo e de vidências também –, as egomanias e as artificialidades e sobretudo as emoções dos homens e das mulheres comuns ganharam palco. E os que estavam em casa, entre os que se reviram e os que se reviraram, identificaram-se por simpatia ou por rejeição.

Neste caminho, o que a televisão – então o alfa e o omega da comunicação social, depois que o video killed the radiostar – encontrou na sobreexposição da humanidade com as suas virtudes e os seus defeitos, que sempre tinha calado ou exibido com pudor, foi um filão torrencial de receitas. As massas nunca prescindiram do circo e os donos do circo nunca prescindiram da “massa”.

Entretanto, 20 anos volvidos, as redes sociais deram a cada um de nós a ilusão da produção, da realização e da interpretação do nosso próprio reality show. Dos spots da moda, da comida, dos gins, dos sentimentos à flor da pele à pele dos pés descalços na praia, cada cidadão é agora personagem principal da sua história. E do topo do seu perfil, qual banco no speaker’s corner, grita a sua inconsequente indignação e espalha a sua “verdade”.

Mas do escol, esta elite decadente que nos tem governado, o pior ainda estava para vir.

De pequenos canastrões, aldrabões de tasca, que plagiam textos e inventam habilitações, zelosos no tratamento deferente de “doutor”, para se alcandorarem numa qualquer ponta do poder a grandes artistas, ladrões de palácios, que fazem exames aos Domingos e compram títulos de “engenharia”, empenhados numa estratégia global de poder, todos partilharam a mesma gamela. A isto o país dos brandos costumes assistiu num misto de dormência e indulgência; e vá, nalguns redutos, com alguma fúria e escândalo.

A verdade é que desde o ex-primeiro-ministro do partido-dono-disto-tudo, passando pelos melhores gestores disto-tudo-e-arredores e pelos juízes acima-disto-tudo, ao enfático dono-disto-tudo, todos se arrastam hoje – arrastando com eles a decência e a esperança do país – pelos intermináveis e labirínticos corredores dos tribunais.

Não surpreende, portanto, o discurso anti-sistema que vai ganhando terreno um pouco por todo o lado. O sentimento anti-elites é um facto e é global. E tem no palco das emoções e na ligeireza das “verdades” proclamadas em 140 caracteres do Twitter o combustível para crescer e provocar danos irreparáveis à democracia liberal. A ignição? Cada novo caso de corrupção, cada novo caso de nepotismo e cada novo caso de Marxismo. Do Groucho, não do Karl: em que as regras e os princípios se mudam em favor dos interesses de circunstância, num atropelo às mais elementares regras do Estado de direito. A fogueira? Como alguém dizia – não me lembro agora quem – “nós não somos de esquerda nem de direita, vimos de baixo e vamos tomar os vossos lugares aí em cima.” No fim, um Napoleão.

Tenho insistido aqui no Observador, em várias passagens de alguns artigos, nos riscos de transformar o debate político numa caixa de ressonância das emoções. Os populistas são pródigos nisso. Gustave Le Bon, tão atentamente lido no início do sec. XX, bem percebeu que se dominam mais facilmente os povos excitando as suas paixões do que cuidando dos seus interesses. Em 1994 um ilustre presidiário disse: “Me dêem uma chance de ser presidente que eu faço em quatro anos o que a elite não fez em 40.” O presidiário? Luís Inácio Lula da Silva. Resta saber quem será o próximo.

Das “órgias” de estupidez dos concorrentes do Big Brother às orgias de poder das elites, venha o Diabo e escolha. Nós, enquanto país, vamos com o Diabo.