Dar aulas pelo amor à criatividade e à educação impede-me de cair na rotina académica. Dedico-me, há vários anos, a ajudar muitos alunos a escreverem sobre os seus projetos de vida, potencializando a imaginação e seus talentos, recorrendo às suas memórias/ histórias de vida. A partir de 2010, implementei oficinas de escrita criativa e de ficção, para desenvolver, além do ensino da língua e literatura, ferramentas que ajudem os alunos a lidar com o emocional, o mental e o espiritual, apoiadas na terapia Gestalt. Para suplantarem os saberes escolarizados e recuperarem o gosto por aprender, ensino-lhes técnicas de escrita automática para terem acesso à sua vocação literária natural e à perceção do comportamento humano, tendo em conta as suas fontes (necessidades, lembranças, emoções, pensamentos e sonhos). Complementando esta abordagem, desenvolvo o “método” que designo por «educura», isto é, educar e, ao mesmo tempo, curar, através do qual eles aprendem a dar a atenção ao corpo e à respiração, a descobrir os benefícios da visualização criativa e da meditação, do autoconhecimento e da consciência baseada no coração. Sempre que possível, promovo o envolvimento dos pais e da família neste processo.

Enquanto professora de Português, fiz as minhas opções: ensinar o menos possível a escrever com técnicas puramente reprodutivas, que obrigariam os alunos a estar o tempo todo a escrever para “ninguém”; aprender para ensinar a aceder a uma escrita “não trabalhada” para que, como diz José Luís Peixoto, fosse vivida como uma afirmação tranquila, uma forma de crescer. Esta escolha viria a implicar, da minha parte e da parte dos alunos, um compromisso de aproximação às suas histórias de vida, de autoconhecimento maior, que passa, como disse, por fazer emergir suas memórias, sonhos, sentimentos e emoções.

As minhas escolhas ligam-se, claramente, à minha própria história de vida. Antes de me tornar professora de Português, comecei a escrever poesia para desenvolver a vocação de escritora, treinando a minha voz “literária” por puro prazer. Quando me confrontei no início da minha profissão, e nos anos subsequentes, com turmas de adolescentes considerados “difíceis” e “resistentes”, deparei-me com as suas dificuldades relativamente à escrita escolar.

Para transformar esta vivência “negativa” da escrita em algo mais significativo para as suas vidas, dediquei um ano de licença sabática para criar um projeto de formação em escrita criativa (ficcional e autobiográfica), com 26 alunos do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico, cuja experiência se encontra narrada no livro Escritas de vida, histórias da escola. Na Roda Gigante. Foi o ponto de partida para a construção de um dispositivo didático que continuo a desenvolver num trabalho escolar integral, que não ignora o que os alunos já “sabem” nem o que gostam ou não de aprender. O resultado é muito satisfatório: alunos mais motivados e mais participativos na vida da escola. Colaboram nas sessões de oficina de escrita com alegria e emoção, com gosto por adquirirem conhecimento importante para as aulas de língua, e não só, e por poderem expressar-se pela escrita, em liberdade.

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