Enquanto prosseguiam as mais alarmistas análises sobre o significado e as consequências do referendo britânico, as lideranças das três maiores democracias ocidentais — os EUA, o Reino Unido e a Alemanha — procediam exemplarmente à tranquila adaptação democrática aos resultados de um referendo democrático.

Foi particularmente feliz a realização da cimeira da NATO em Varsóvia, no passado fim de semana, pouco mais de quinze dias depois do referendo britânico. Isso permitiu a David Cameron reafirmar o comprometimento do Reino Unido na Aliança Atlântica — afastando quaisquer dúvidas sobre o impacto do Brexit no posicionamento ocidental dos britânicos. E permitiu a todos os Aliados reafirmar a sua determinação em defender as repúblicas Bálticas e a Polónia contra eventuais novos projectos expansionistas da Rússia.

Barack Obama e Angela Merkel merecem particular destaque na forma como expressaram o empenho dos seus países no reforço da NATO. E também pela forma sensata e prudente como reagiram ao resultado do referendo britânico. Ambos deixaram claro que aceitavam os resultados. Ambos sublinharam que esses resultados em nada alteravam a amizade e aliança de fundo entre os três países. E ambos recomendaram calma e tranquilidade na negociação da saída britânica da UE.

Angela Merkel, em particular, deixou saber o seu desagrado pelas reacções precipitadas de Jean-Claude Juncker, actual presidente da Comissão Europeia e, segundo se diz, um federalista ardente. Contrariou qualquer tentativa de responder ao Brexit com mais integração supranacional súbita. E sinalizou a disponibilidade da Alemanha para encontrar soluções flexíveis que possam vir a permitir ao Reino Unido um estatuto do género de “membro associado” da UE.

Tudo isso está naturalmente ainda em aberto, como sublinhou José Manuel Durão Barroso no Estoril Political Forum, poucos dias após o referendo britânico. E nada deve ser precipitado. O processo de clarificação deve em primeiro lugar seguir o seu curso democrático no Reino Unido.

É isso que está a acontecer. Apesar de algumas peripécias de percurso, é agora visível a vantagem de a divisão entre o “Remain” e o “Leave” ter passado pelo interior dos dois grandes partidos democráticos, o Conservador e o Trabalhista. Isso impediu o crescimento de partidos extremistas. E garantiu que a (na altura improvável) vitória do “Leave” tivesse lugar no âmbito das tradições ocidentais, democráticas e abertas da mais antiga democracia parlamentar do planeta.

Essas tradições estão solidamente representadas nas duas actuais candidatas à liderança do partido Conservador. Theresa May, ministra do Interior, foi moderadamente a favor do “Remain”. Andrea Leadsom, secretária de estado da Energia do mesmo governo conservador, foi moderadamente a favor do “Leave”.

A batalha adivinha-se renhida, mas as posições políticas de qualquer delas são basicamente moderadas. São fundamentalmente as mesmas que Michael Gove (“Leave”) e Timthy Garton Ash (“Remain”) exprimiram entre nós na revista Nova Cidadania dedicada ao referendo britânico.

PS: Em total contraste com este clima demo-liberal e ocidental, estão entre nós as patéticas diatribes do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista contra a recente nomeação de Durão Barroso para presidente não executivo da Goldman Sachs. Essas diatribes só sublinham a natureza autoritária de quem as pratica: dois partidos que odeiam a liberdade e, por isso, odeiam o sector privado e a economia de mercado — onde as pessoas não andam às ordens deles.