No meio da polémica sobre as referências à corrupção, as recomendações da ‘Economic Survey’ da OCDE publicada esta semana infelizmente receberam pouca atenção no debate público. Entre várias outras propostas reformistas de grande interesse, na área específica da educação a OCDE propõe a Portugal:

expandir programas de formação profissional como os cursos de aprendizagem e os cursos de educação e formação de adultos, para que possam beneficiar um número maior da população menos qualificada; e

consolidar os dois sistemas de educação vocacional num sistema único com uma componente forte de aprendizagem em posto de trabalho e desenvolver uma avaliação detalhada de todos os programas de formação profissional.

Ambas as medidas são muito acertadas e oportunas. Desde já, agora que a queda do desemprego parece chegar ao seu fim, é ainda mais importante investir nas qualificações. Enquanto que nos últimos anos o crescimento económico resultou em grande medida do aumento dos níveis de emprego, a partir de agora, este crescimento – a existir – deverá resultar sobretudo do aumento da produtividade. Por outro lado, as megatendências da inteligência artificial, da automação, e do envelhecimento (sobretudo este último no caso português) redobram a necessidade de ajustar o nosso sistema de educação e formação. E aqui importa sublinhar a relevância que a OCDE atribui, direta ou indiretamente, ao envolvimento das empresas neste sistema.

Exemplos disto são as referências aos cursos de aprendizagem – em que os jovens dividem a sua semana entre a escola e a empresa, aprendendo e praticando, praticando e aprendendo – ou à formação em posto de trabalho – em que os desempregados (ou não) adquirem novas qualificações ao mesmo tempo que identificam o seu potencial junto de potenciais empregadores. Num contexto tão imprevisível como aquele que se afigura para os próximos anos – para não falar das próximas décadas –, o contributo das empresas para a definição e para o desenvolvimento das áreas de educação e formação prioritárias é cada vez mais imprescindível e não pode continuar a ser desperdiçado.

Isto é sobretudo o caso quando estes contributos forem proporcionados também através de investimentos feitos pelas próprias empresas (indicando “skin in the game”), com a disponibilização de colaboradores próprios como tutores, com o desenvolvimento de novos conteúdos formativos, ou com o copagamento das despesas dos cursos e das bolsas de formação. Daqui resultará um sistema mais equilibrado entre procura e oferta, não dominado por esta última, mais ágil a responder positivamente às inevitáveis mudanças dos próximos anos, e com um contributo mais forte na promoção do aumento da produtividade e da melhoria das condições de trabalho.

Uma última palavra para outra ideia importante das recomendações da OCDE: a avaliação detalhada de todos os programas nesta área. Os desenvolvimentos dos últimos anos ao nível do “big data” tornam cada vez mais acessível a análise dos impactos de cada curso. Esta informação é imprescindível, não só para os jovens interessados em conhecer as perspetivas profissionais de diferentes cursos e escolas – e relembremos essa área tão esquecida do sistema que é a orientação escolar e profissional –, como também para os decisores públicos. Estes últimos continuam a tomar todos os anos decisões envolvendo muitos milhares de milhões de euros com uma base de informação extremamente limitada. Também aqui é possível fazer (muito) melhor.

Professor no Queen Mary College, Universidade de Londres
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.