Poderíamos apontar inúmeros fatores que nos impediriam de definir a China como um verdadeiro país desenvolvido. Contudo, quem estivesse durante a passada semana em Dalian, no nordeste chinês, defenderia aguerridamente o contrário.

Foi ali que se realizou a Annual Meeting of the New Champions (AMNC), acarinhada também de Summer Davos, um conclave desenhado pelo Fórum Económico Mundial para juntar líderes mundiais das mais variadas áreas: negócios, política, ciência e tecnologia, arte, saúde são alguns exemplos. Um espaço onde 2.000 pessoas discutiram inteligência artificial, automação, blockchain e, como tema principal da conferência, o crescimento inclusivo no âmbito da quarta revolução industrial.

Este ano, dois Global Shapers portugueses foram convidados a representar Portugal num evento recheado de discussões sobre o futuro da tecnologia e o seu impacto no mundo do trabalho. Desde pequenos grupos de trabalho a discussões com líderes políticos, foi este o principal tema na agenda de centenas de participantes, que partilho em maior detalhe.

A quarta revolução industrial e o futuro do trabalho

O mote tinha sido dado pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang: a conferência seria sobre como a tecnologia podia habilitar e potenciar o humano, não substitui-lo. Durante os três dias seguintes, vários passos foram dados no sentido de discutir novos modelos de crescimento económico, guiados pela moral e pela ética, a favor de uma sociedade mais justa, inclusiva e equitativa.

Ao contrário das suas precedentes, a quarta revolução industrial terá como características não só a velocidade (tudo está a acontecer mais depressa que no passado), como também a sua escala e profundidade (muitas mudanças radicais, a nível global), resultando na total transformação dos sistemas.

Sabemos que esta será capaz de gerar desafios e benefícios em igual medida. Porém, não podemos descurar que viveremos das mais profundas e sistémicas alterações ao nosso modelo de sociedade.

Aqui, muito se tem falado sobre o receio patente de que os sucessivos avanços tecnológicos possam tornar muitos dos nossos trabalhos obsoletos, deixando-nos sem fontes de rendimento, contribuindo assim para um agravamento da nossa situação sócio-económica. Com estes avanços, aproximamo-nos de uma era onde a diferença entre o retorno do capital e o retorno do trabalho é cada vez maior, em prejuízo do segundo. Consequentemente, a falta de foco no desenvolvimento de políticas inclusivas de crescimento poderá resultar, num futuro próximo, numa força de trabalho inativa, com recursos humanos e materiais subaproveitados.

Historicamente, as ondas do progresso têm sido acompanhadas por forças de difusão e de concentração. A difusão acontece quando o poder e os privilégios das partes estabelecidas se dissipam e a concentração, quando a influência daqueles assumir o controlo das novas tecnologias, se expande. Assim, uma das preocupações debatida foi a possibilidade de existir uma tendência para um forte aumento da desigualdade, seja no acesso ao trabalho ou na justa distribuição de riqueza.

Aliás, já em 1930, Keynes previa que no futuro existiria uma massificação do desemprego causada pelos avanços tecnológicos, devido à descoberta de novas formas de economizar o uso do trabalho, estas mais rápidas que a nossa velocidade de criar novas formas de trabalho.

Desemprego: reduzir agora, reorientar depois

Para lá do impacto dos avanços tecnológicos do futuro, outro dos temas da conferência passou por aferir a situação atual, tendo sido identificados vários problemas estruturais que obrigatoriamente terão de ser resolvidos o quanto antes, entre eles a estagnação da natalidade nos países desenvolvidos, o envelhecimento da população e ainda o desemprego jovem.

Aliás, não foram poucos os painéis onde a temática do desemprego dominou o discurso dos vários participantes. Como seres humanos, sempre tivemos uma capacidade estupenda de nos adaptarmos. Contudo, devido aos motivos supracitados (velocidade, impacto e escala), é fundamental que a forma como nos preparamos para esta nova leva de desenvolvimento seja bem preparada e executada. Falhar aqui significa que o efeito de capitalização de políticas de formação e emprego serão largamente suplantadas pelo efeito de destruição e de substituição que as novas tecnologias nos trarão.

Assim, e sem demora, é necessário pensar holisticamente e focar em criar novas formas de pensar, de estudar, de criar negócios (e os seus modelos), enfim, novas formas de trabalhar, ao mesmo tempo que democratizamos o acesso à educação e formação de skills para as desempenhar.

A inclusão como pilar dos valores da sociedade

Concluindo, é evidente que ninguém consegue definir como serão as nossas próximas décadas – como podemos, então, planear e preparar para algo que desconhecemos? As mudanças radicais na nossa sociedade significam que as camadas mais jovens necessitam de novos skills, muitos deles ainda pouco percebidos e identificados.

Contudo, uma das soluções pode passar por dinamizar processos de aprendizagem que criem esses novos skills. Facilitar a criatividade e questionar os mais diversos pressupostos com que fomos criados. Um deles prende-se com o combate à(s) desigualdade(s). Um primeiro-ministro europeu deixou esta mensagem bem clara numa das sessões: “À medida que caminhamos em frente como sociedade, temos de garantir que ninguém fica para trás”.

Perceber como podemos garantir o progresso para todos e criar sistemas distributivos, porém justos, por defeito, questionando novamente tudo aquilo que conhecemos, é uma das principais formas de atacarmos as injustiças e desigualdades que bem conhecemos.

Este é, possivelmente, um dos maiores desafios da nossa geração.

João Romão tem 28 anos e é o fundador da GetSocial.io, uma empresa portuguesa que ajuda jornais online e equipas de marketing digital a descobrirem quais dos seus conteúdos estão a ficar virais, onde e porquê. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2013 e é presença assídua em eventos do Fórum Económico Mundial, tendo já participado nos eventos de Davos (Suíça) e de Dalian (China).

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre temas associados à quarta revolução industrial. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.