Somos — quase todos — infelizes, devagarinho. Vamos tendo motivos para acreditar que temos, ao nosso lado, o(a) nosso(a) melhor amigo(a). Ainda assim, mais distraído(a) do que queríamos que fosse. Ou numa omissão de gestos em relação à forma como nos sente muito maior do que aquilo que gostaríamos que tivesse. A vida com essa pessoa pode não ser, por exemplo, uma alegria. Mas leva-se. De rotina em rotina. Sem sobressaltos de maior. Temos, por outras palavras, quem goste de nós. Estamos junto dessa pessoa. Repartimos com ela algumas cumplicidades. Sem que, contudo, deixemos de nos sentir, vezes demais, sozinhos. Não seremos — é verdade que não — as pessoas mais infelizes do universo. Mas reconhecemos que a forma como ela nos conhece vai deixando de ser um valor inestimável. E ficamos tristes. Aos poucos. Somos infelizes, devagarinho.

E não, não é verdade, que a felicidade precise de ser um estado de comunhão sem princípio nem fim. E também não é verdade que não suporte arrufos, conflitos ou discussões. Ou que “estou feliz” e “sou feliz” sejam estados que tenham a separá-los, entre si, um desfiladeiro de sentimentos tão diferentes assim. A diferença entre sermos felizes ou sermos infelizes, devagarinho, traça-se pela forma como, sempre que somos felizes, quando olhamos quem se ama, se sente que a beleza dessa pessoa será, hoje mais do que ontem, “a luz dos nossos olhos”. Sem a qual a nossa vida morre sem ser preciso que se morra. E quando somos infelizes, devagarinho, não nos sentimos nem felizes nem infelizes. Ainda assim, não temos “público” para as nossas lamúrias. O mimo chega-nos por gestos ocasionais, quase sem querer, que acabam por se ter. E o colo não é uma profissão de fé, quase diária, que se assuma, como quem se sente capaz de tratar por tu qualquer milagre. As coisas sucedem-se e acontecem. Num “É a vida!” que, primeiro, se insinua e, depois, quase se entranha. Que é uma forma das pessoas dizerem que, depois da paixão, se perde o jeito para os pequenos detalhes. E que a resignação começa a conspirar, sem alarido. Não se mente. Mas não se assina, tantas vezes assim, por debaixo da verdade. Consente-se. Há pouco o que nos co-mova. Que será, talvez, o primeiro sinal de que se está a ser infeliz. Devagarinho.

A questão que se pode colocar, de seguida, fica-se pelas consequências que pode ter sobre nós sermos infelizes devagarinho. De que forma nos pode revolver alguém com quem conseguimos, sobretudo, conversar sobre as crianças. Sobre as trocas e as baldrocas do trabalho. Acerca de quezílias, miudinhas, de família. Ou sobre um ou outro acontecimento à nossa volta. Nada de mais. Com que se enche a conversa e se enxota o silêncio. Como se pode recordar momentos lindos com alguém que nos morreu e, ainda assim, sermos felizes junto de quem os viveu a par, connosco? Ou vivermos o amor como uma vocação que, simplesmente, nos escapou (e que, quando muito, existe só nos filmes)? Como se pode estar vivo e desistir do amanhã? Como pode o melhor do amor ser a memória?…

É verdade que há pessoas muito infelizes nos seus amores. E pessoas cuja presença, ao pé de nós, nos magoa e nos faz mal. É verdade que há pessoas que se nos transfiguram e acidificam. E que há pessoas que nos maltratam, enquanto repetem e repetem que gostam de nós. E que diante de todas essas violências ser infeliz, devagarinho, é ser-se tão mais feliz que todas elas que quase nos dá medo ao querermos mais.

Eu acho que todos nós falamos da felicidade como um lugar distante. Ou como uma coisa breve e passageira. Ou, ainda, como os cisnes, que cantam, quando morrem. Como se, em resumo, ser feliz não fosse, simplesmente, para nós.

Se eu pudesse, proibia que as pessoas falassem assim da felicidade. Porque só o fazem porque aceitam ser felizes, a olhar para trás.

Sempre que a memória é a melhor companhia do amor isso distrai. E, diante da infelicidade, que chega, assim, com delicadeza, não nos deixa dizer: “Agora, não!” Nem seguir, por diante. Prosseguindo. Até ser feliz.