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Governo

Isto não é para assustar, mas há outras matas para limpar

Autor
  • Filomena Martins
662

Estamos como antes dos incêndios. Há sinais e mais sinais de que alguma coisa grave pode acontecer. Na saúde, na educação, nos transportes. Há mais matas para limpar.

A principal ponte do país tem parafusos a cair e necessita de obras urgentes. Mas só a reboque de uma notícia e após vários comunicados caricatos e contraditórios, o Governo corre a desbloquear em cinco dias as verbas que o LNEC exigia há meses para fazer as necessárias intervenções.

60% das linhas de comboio em Portugal revelaram um índice de desempenho “mau” ou “medíocre” e os descarrilamentos dos últimos anos ocorreram em troços não modernizados. Mas a Infra-Estruturas de Portugal desvaloriza o relatório e prefere a expressão vaga e inócua de que a análise é “globalmente positiva”, garantindo uma “segurança” que para já ainda só resultou num desabamento aqui e ali, mas que todos tememos que acabe em algo bem pior.

A maternidade de Coimbra e a área pediátrica do hospital de Évora estão em ruptura, os médicos e enfermeiros queixam-se de falta de condições e de meios todos os dias e as salas das urgências estão a rebentar entre surtos de doenças. Mas o ministro apenas recebeu verbas para pagar uma pequena parte dos milhões das dívidas que se acumulam aos fornecedores e só depois da pressão se tornar insuportável, de haver uma rábula de desmentidos, e do Governo bondosamente anunciar que lhe destinava a parcela dos lucros do Banco de Portugal.

Os alunos da Secundária do Restelo, como muitos, mas muitos mais, em todo o país, têm de levar cobertores e estar de casacos, gorros e luvas por causa do frio nas aulas porque a degradação das escolas se agrava, sobretudo no interior, e os pais recebem pedidos de ajuda para comprar papel para fotocópias e para as casas de banho. Mas a maior preocupação dos sindicatos e a grande discussão no ministério é a progressão dos professores.

O Forte de Santo António da Barra está a cair aos bocados, como vários outros monumentos históricos. Mas se em Cascais há dinheiro e há salvação, em Peniche, porque o PCP quis salvar a simbólica prisão de se tornar um hotel, já há pedaços das velhas celas a chegar às Berlengas e em Mafra os sinos podem cair em cima de alguém (mesmo turista) a qualquer momento. E a única solução para outros quatro edifícios nacionais é mesmo entregá-los à gestão de privados.

Podia continuar a longa lista: além das pontes, dos caminhos de ferro, das escolas e dos monumentos a precisar de obras, há também esquadras, tribunais e hospitais em estado inqualificável. Carruagens de comboios e alguns barcos a precisar de reforma urgente. O metro sempre apinhado e atrasado sob constantes apelos de reforços. Os polícias a usar carros quase do tempo do “Duarte e C.ª”. O rol é interminável nas mesas dos vários ministérios e o silêncio ensurdecedor de uma esquerda que estaria aos berros há quatro anos, mas cujos fiéis parecem agora apenas preocupados com o facto de Passos ir ser professor catedrático convidado numa universidade pública ou com quem escreve o programa do CDS.

Não sei se o problema está no facto de o dinheiro ter ido para os créditos fiscais dados à Associação Mutualista do Montepio, na tal “criatividade contabilística para tapar os olhos”, como lhe chamou Bagão Félix. Ou se servirá para convencer outras IPSS a juntarem-se à Santa Casa, tornando-se assim instituições sociais-banqueiras para comprarem 2% do banco Montepio por 50 mil milhões, o que o fazem valer uns inacreditáveis 2.5 mil milhões por auto-avaliação.

Também não sei se o dinheiro terá ficado nos bolsos da EDP graças aos 0,7% de IRC que apenas parece ter pago pelos lucros recorde. Ou se irá para as tais obras na Ponte 25 de Abril, que tem receitas privadas mas despesas públicas, garantidas pelas sucessivas renegociações da concessão feitas nos bons anos pré-troika.

Sei é que estamos como antes dos incêndios. Há sinais e mais sinais de que alguma coisa grave, muito grave, pode acontecer. Na saúde, na educação, nos transportes, em tanta coisa. Não é preciso um descodificador da II Guerra Mundial, espiões russos, do MI5, da Mossad ou da CIA, nem qualquer hacker norte-coreano atual para ver os padrões. Estão à vista de qualquer um nas notícias diárias. É tempo de começar a mandar limpar estas matas governamentais. Antes que outras tragédias aconteçam. Porque depois já não haverá desculpas. Estão todas gastas.

Só mais duas ou três coisas

  • O Benfica está envolvido em pelo menos três investigações judiciais: a dos e-mails, a do Lex e a do e-Toupeira. E o que faz? Reúne uma equipa de conselheiros jurídicos e escritórios de advogados para responder com processos e contra processos a quem divulgar parte dos processos de que é suspeito e cujas suspeitas são exatamente as de ter acesso ilegal e antecipado a esses (e outros) processos. É isto, certo?
  • Relvas usou a presidência da Assembleia Geral de um Rancho Folclórico para ter créditos para cadeiras do seu falso curso. Barreiras Duarte usou uma falsa passagem por uma universidade californiana para dar ‘colorido’ ao seu currículo e (talvez) se livrar de umas aulas de mestrado. Não são casos da mesma gravidade. Mas revelam, como tantos outros, a mesma coisa: uma parolice nacional.
  • Nos dois casos, é revelador que ambos se queixem da rapidez do Ministério Público. Ora essa! Investigue mais devagar drª. Joana Marques Vidal, pode ser que a partir de Outubro venha alguém mais complacente.

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