Rádio Observador

Serviço Nacional de Saúde

Lei de Bases da Saúde: a vitória da ilusão e do jogo político

Autor
321

O texto final é omisso em áreas cruciais, é uma manta de retalhos, sem consistência, manifestamente inadequado, insuficiente face à natureza dos enormes desafios que se colocam na área da Saúde.

A aprovação de sexta-feira em plenário de uma nova versão da Lei de Bases por Verdes, PCP, BE e PS representa uma oportunidade perdida para o país, representa a vitória de uma mão cheia de nada, representa a vitória do “jogo-político”, naquilo que ele tem de pior.

Quando poderíamos ter avançado através dum consenso alargado com visão, com ambição, em direcção à inovação e modernidade, prevaleceram os interesses e os jogos partidários.

O texto final é omisso em áreas cruciais, é uma manta de retalhos, sem consistência, manifestamente inadequado, insuficiente face à natureza dos enormes desafios que se colocam na área da Saúde dos portugueses. Deixa em aberto aspectos cruciais que remete para o processo de regulamentação e para depois das eleições. Promete hoje, não faz, “empurra com a barriga”. Afinal, um espelho da própria governação das esquerdas unidas.

Da Saúde Pública, aos cuidados continuados e paliativos, ao apoio aos cuidadores, à genómica, às novas formas de gestão e organização do sistema de saúde, para mencionar as principais, muitas são as lacunas, e também algumas as incoerências. Abstenho-me de aqui comentar tudo em detalhe mas seguramente haverá lugar para isso noutra sede. O resultado final é mesmo um texto pobre, sem visão estratégica, que não serve os interesses dos portugueses.

Tínhamos no CDS uma proposta mais completa e moderna, com visão alargada, sem preconceitos ideológicos, baseada em consensos prévios, uma proposta que foi, como tantas outras nesta legislatura, rejeitada.

Sobre o processo que se iniciou há cerca de um ano e que conduziu a esta aprovação atabalhoada em cima das eleições, foram visíveis os avanços e recuos e a ausência de responsabilidade dos partidos da esquerda, a ausência de um rumo que não fosse aquele de sacrificar o interesse público em prol de jogos políticos que permitissem a cada um anunciar primeiro mais uma “vitória”, criando vários “números políticos” para abrir noticiários. O importante foi agitar bandeiras sectoriais e reafirmar preconceitos ideológicos, em prejuízo das pessoas, profissionais e doentes. Sem visão e sem ambição. Isso é muito poucochinho, isso é lamentável.

Tudo isto – aprovação do texto final e processo que a ele conduziu – foi revelador de que para as esquerdas unidas do BE, PCP e PS, responsáveis pela governação nos últimos quatro anos, não é o interesse público que mais conta, nem como encontrar verdadeiras soluções para o estado calamitoso da saúde em Portugal.

Os tempos de espera para consultas e cirurgias inaceitáveis, a grave assimetria regional no acesso aos cuidados de saúde, a falta de investimento em equipamentos e infra-estruturas, a exaustão dos profissionais insatisfeitos e desrespeitados, são factuais e atestam o que digo.

Criou-se, com este processo da lei de bases, uma encenação consertada, diria desonesta, para gerar a ilusão aos incautos de que seria esta lei que resolveria esses graves problemas com que o sistema de saúde em geral, o SNS, os profissionais e os portugueses se confrontam na actualidade em matéria de saúde. Pretendeu-se também criar a ilusão de que seria esta lei a permitir trilhar caminhos promissores para o futuro. Nem uma coisa, nem outra. Mais um falhanço desta troika de esquerda que nos (des) governa.

Desejaríamos ter ido muito mais além, mantendo o que sempre afirmámos: a necessidade de proteger e garantir o acesso aos cuidados de saúde de todos os portugueses – o que não acontece agora e que se agravou nos últimos quatro anos. Temos uma visão moderna e alargada para a Saúde, em que um Estado social de base alargada conta com o SNS enquanto pilar de coesão social e também com o sector social e privado para dar um contributo efectivo, com transparência e fiscalização, em prol das pessoas e apesar dos preconceitos. As pessoas, sim, as pessoas, que carecem de soluções efectivas e não de ilusões, de encenações, de mais uma mão cheia de nada. É por elas que uma mudança de rumo se impõe.

Médica; Deputada do CDS-PP

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Bioética

Eutanásia: ouvir os avisos da Holanda

Isabel Galriça Neto
2.418

Os factos e a realidade da Holanda estão à vista de quem os quiser ver, não podem ser ignorados, e suportam a inconveniência de fazer uma lei que permita a eutanásia na linha das propostas existentes.

Combustível

O mundo ao contrário /premium

João Pires da Cruz

Se o seu depósito é mais importante do que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)