Eu sei que é um bocadinho irritante esta mania de toda a gente começar agora a falar de, e com, os escoceses, mas ao mesmo tempo é compreensível. E pela minha parte não me privo da oportunidade, esperando bem não me enganar ao pensar que eles votarão hoje pelo “não”, e até por uma margem maior do que as muito apertadas sondagens indicam, o suficiente para pôr Alex Salmond em maus lençóis.

Muitas pessoas falaram do contributo colectivo do Reino Unido para a cultura (em filosofia isso é muito notório, mas estende-se, é claro, por todos os domínios) ou de três séculos de união militar, que permitiram, entre outras coisas, a guerra a Napoleão ou o heróico combate, por muito tempo solitário, ou quase, contra a barbárie hitleriana. Tudo muito verdade, é claro. Falou-se também repetidamente das presumíveis consequências negativas do ponto de vista financeiro e económico (o petróleo do Mar do Norte está longe de ser uma solução mágica) que a independência traria para a Escócia. E das trapalhadas presumíveis que ela acarretaria no contexto da União Europeia, quer no que respeita a dificuldades intrínsecas à sua própria integração quer no que se refere às reacções de países como a Espanha, que, dados os seus próprios problemas com movimentos independentistas, veriam na Escócia um péssimo precedente. Certamente muito verosímil.

E há várias coisas que, sob muitos aspectos, são eminentemente desagradáveis no Partido Nacional Escocês de Alex Salmond. Em primeiro lugar, o próprio nacionalismo, algo que a União Europeia tem involuntária e paradoxalmente, mas por razões fáceis de explicar, vindo a fomentar em vários lugares. Depois, o que vem quase inevitavelmente com ele: um fechamento sobre si, o acentuar do paroquialismo e o crescimento de uma clientela do poder, algo para o qual, com algumas excepções (entre as quais um compositor que, por acaso, me aconteceu conhecer pessoalmente, James MacMillan), os artistas tendem naturalmente. Muitos estão com Salmond. O ódio aos tories ajuda, é claro, mas as promessas de subsídios (e os subsídios já dados nos últimos anos) são igualmente importantes.

Mas isso são problemas dos escoceses, e, por muito que uma pessoa pense que nem o monstro de Loch Ness vê com bons olhos o restabelecimento da muralha de Adriano, se quiserem ser independentes isso é lá com eles. Edimburgo, onde já não ponho os pés há séculos, continuará uma bela cidade, a paisagem permanecerá magnífica e a parte dos anjos voará, como sempre, dos cascos de whisky. O que já não é mau, convenhamos, mesmo  que o resto dê para o torto, como ameaça fortemente dar se o “sim” ganhar.

Mas há coisas que não são só problema dos escoceses, nem sequer só do Reino Unido. Uma delas é o de nos arriscarmos a assistir à desintegração, face aos nossos olhos, de algo que representou, e representa, uma realidade admiravelmente excêntrica, a todos os títulos, nesta Europa de conformismos vários e neste mundo de vasta selvajaria, o Reino Unido propriamente dito. Claro que há riscos, pessoais e colectivos, que são muito mais temíveis do que esse. Mas esse comporta de facto consigo a ameaça de uma perda enorme, de uma descontinuidade abrupta da nossa experiência da cultura, da política e da história.

E a bandeira, a bandeira do Reino Unido? Pelo que sei, não é obrigatório que, depois de três séculos, se transforme, mas é provável que tenha de ser assim. E, se assim for, como será ela sem o azul da Escócia? Isto poderá parecer uma questão pueril, e talvez o seja de facto. Mas para muitas pessoas do mundo trata-se da mais bela das bandeiras e, para as pessoas da minha geração, a bandeira pop por excelência, apesar dos memoráveis esforços de Jasper Johns com a bandeira americana. A bandeira que associamos imediatamente à música dos Beatles, dos Kinks, dos The Who, de David Bowie, e certamente de muitos outros que vieram depois, tarde demais para mim. Viver num mundo sem a Union Jack é viver num mundo diferente e com menos beleza.

Nos anos 90, em Paris, vi, num programa cultural da televisão francesa, uma entrevista dada por Elia Kazan a uma jornalista francesa, Laure Adler (íntima de Miterrand e tão sua admiradora que sustentava que este tinha decidido exactamente a hora da sua morte). Às tantas, Laure Adler fez a Kazan a pergunta típica de qualquer “jornalista cultural”: se ele se punha a si mesmo em questão sempre que fazia um filme. Depois de ouvir a tradução nos auriculares, Kazan virou-se para ela, e, com um sorriso entre o paternal e o libidinoso, disse-lhe: C’mon, you can do better than that!

Eu sei que a situação é muito diferente, mas por estes dias tenho-me apanhado a pensar, a propósito dos escoceses que tencionam votar no “sim”, na resposta de Kazan. C’mon, Scots, you can do better than that! E espero que façam mesmo.