A malnutrição é uma vergonha para Portugal e tem custos para todos nós! Esta é a dura realidade que os profissionais de saúde e decisores políticos têm de encarar e resolver.

É muito preocupante que em Portugal, dados preliminares indicam que 2 em cada 4 adultos internados estão em risco de malnutrição (como sinónimo de desnutrição), em contraste com a média europeia de 1 em cada 4. Importante referir que a malnutrição se caracteriza por uma ingestão alimentar-nutricional insuficiente com causas multifatoriais, quase sempre associada à doença, que se traduz na perda não intencional de peso sob a forma de massa muscular, fundamental para a recuperação, mobilidade e autonomia do doente.

Com a implementação do rastreio nutricional nos hospitais, prevista pelo Despacho n.º 6634/2018, vamos verificar que a prevalência da malnutrição é elevada, superior à média europeia e que afeta todas as regiões do país, diferentes etnias e classes sociais – do “muito rico” ao “pensionista”.

A realidade é que muitos doentes entram nos hospitais malnutridos e agravam o seu estado nutricional nos hospitais e os que têm alta e que necessitam de nutrição clínica, acabam por voltar precocemente porque estão malnutridos, não conseguem assegurar a nutrição adequada e ninguém se preocupa com isso.

Preocupamo-nos, sim, em diagnosticar os doentes e esquecemo-nos de nos preocupar com o que eles estão a comer, se o estão a fazer de uma forma adequada ou não. Conseguimos elaborar diagnósticos brilhantes, obter medicamentos inovadores mas, no fim, temos o doente malnutrido, com incapacidade de tolerar e rentabilizar todo o investimento terapêutico efetuado. Não faz sentido nenhum estarmos preocupados em dar terapêuticas de ponta a estes doentes e não nos preocuparmos em dar-lhes o básico: uma alimentação adequada.

Anualmente mais de 115 mil doentes em risco nutricional ou malnutridos precisam de apoio nutricional com recurso a nutrição clínica (entérica e parentérica). São doentes que quando têm alta hospitalar saem sem qualquer apoio do Estado para manter a nutrição clínica no contexto ambulatório/domicílio. Aqui a diferença é que, apesar do “muito rico” e do “pensionista” estarem malnutridos, apenas um poderá ter acesso à terapêutica se esta lhe for recomendada.

A acessibilidade zero à nutrição clínica no ambulatório/domicílio traduz-se em elevados custos para o SNS, com deterioração da condição clínica do doente, ao contrário do que acontece na maioria dos países europeus onde o acesso está garantido a 100%. Dando como exemplo a nossa vizinha Espanha onde, desde o século passado, a nutrição clínica em ambulatório/domicílio é comparticipada há mais de 20 anos, em oposição a Portugal onde continuamos a negligenciar estes doentes.

A malnutrição custa ao SNS mais de 255 milhões de euros, por estimativa. Tratar a malnutrição resultaria numa redução significativa dos encargos para o SNS, estimando-se uma poupança anual líquida superior a 166 milhões de euros. Por cada 1€ investido nesta terapêutica nutricional o SNS poupa 1,86€.

Identificar e tratar a malnutrição precocemente, tanto no hospital como no ambulatório/domicílio, resulta em benefícios clínicos para o doente e em benefícios económicos para o SNS, mas ainda assim preferimos gastar e prejudicar, de uma forma irreversível, a saúde dos nossos doentes

Aníbal Marinho é médico, presidente da APNEP (Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica) e Chairman português da campanha ONCA (Optimal Nutritional Care for All)