Prevê-se finalmente a extensão da Linha Vermelha do Metro até Alcântara e os planos levantam preocupações: com a estação de Campo de Ourique, no Jardim da Parada, pela sobrevivência do próprio jardim; e com o Baluarte do Livramento, junto ao Palácio das Necessidades, que vai ser gravemente afectado se não mesmo definitivamente destruído – o Metro diz que o desmancha para fazer passar o túnel e que o volta a construir; só que a muralha é feita de pedra miúda assente com areia, pelo que não se compreende como é que o Metro conseguirá devolvê-la nas condições em que a encontrou. O mais provável é entrarmos no túnel com um monumento e sairmos dele com uma falsificação. Sobre as obras que o Metro anda a preparar, com os proverbiais dinheiros do PRR, há três pontos que se tornaram cada dia mais evidentes.

Primeiro ponto. Discute-se agora a extensão da Linha Vermelha; antes disso, o governo deu prioridade à Linha Circular, que ficou decidida contra todas as vontades: dos partidos, dos técnicos, dos urbanistas e da população. Uma teimosia que o governo apresentou como um facto consumado. Em vez de desenvolver a rede de Metro dentro da cidade, onde ele já tem uma cobertura razoável, a prioridade devia ter sido aproveitar as linhas existentes e prolongar esses braços para fora de Lisboa, em direcção aos outros municípios da Área Metropolitana. Por uma razão simples. Já se percebeu que não é possível ter toda a gente a morar no centro de Lisboa; mas é possível ir buscar e levar essas pessoas, no trajecto entre a casa e o trabalho, num transporte cómodo, rápido, e a preços comportáveis pelos orçamentos das famílias. O Metro reúne estas condições. Por correr em linhas próprias segregadas, não sofre com as oscilações do trânsito de superfície (chuva, acidentes, horas de ponta, etc.); e por ser subterrâneo, ao contrário do comboio, não causa descontinuidades no tecido urbano e não divide o território entre um lado e o outro da linha. Por outras palavras, o Metro podia suavizar o problema da falta de habitação no centro de Lisboa. O governo não quis. Foi um erro.

Segundo ponto. Não é verdade que não se pode voltar atrás. Há dois ou três anos, quando impuseram a linha circular, disseram-nos que tudo estava já decidido e era definitivo. Nas últimas semanas, os jornais dão notícias de prováveis alterações, e a linha circular pode afinal ser “em laço” (mais umas semanas e sabe Deus que forma dará o PS ao desenho da linha; ainda nos sai a barriga de António Costa, numa sentida homenagem do povo ao primeiro-ministro mais “habilidoso” de sempre). O facto é que agora, em relação ao prolongamento da Linha Vermelha, assistimos à mesma coisa. Respondendo à pergunta de um deputado do CDS, Martim Borges de Freitas, oficialmente reunidos com a 8ª Comissão Permanente (de Mobilidade e Transportes) da Assembleia Municipal de Lisboa, a administração do Metro informou que a alteração dos planos custaria 300 milhões de euros. Estávamos presos às regras do PRR. Sucede que os deputados do PCP ao Parlamento Europeu fizerem essa pergunta, limpa e directa, à Comissão Europeia. E o senhor Valdis Dombrovskis respondeu pessoalmente, com a mesma clareza e limpidez, que as alterações não comportavam custo algum. No fundo, a Comissão “acompanhava de perto o processo” mas não interferia no traçado, e tudo o que exigia era o cumprimento dos prazos – 31 de Agosto de 2026. (É nestes zelos basilares que se gastam burocratas regiamente pagos na União Europeia; estes, em Fevereiro de 2023, ocupavam-se do traçado de uma linha de Metro em Lisboa; de que minudências se ocuparão no resto do tempo?) Portanto, entre o que o governo diz e aquilo que ele faz há um imperturbável campo de arbitrariedade. A lógica não é aleatória: o governo faz o que lhe apetece e diz o que lhe convém para se livrar de sarilhos. As perguntas e críticas são consideradas uma insolência. No fim de contas, para o nosso assunto a parte importante é que ainda é possível alterar o traçado da Linha Vermelha. Se o governo não alterar é porque não quer.

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