Sempre que Luís Montenegro tem o atrevimento de olhar para os portugueses que votaram no Chega — e que, convém notar, não são párias, são eleitores — ouve-se um coro a repetir o mesmo aviso desencorajador: “As pessoas preferem o original à cópia”. Quem diz isto não sabe que, na verdade, está a fazer uma citação porque a primeira vez que esta frase foi usada saiu da cabeça e da boca de Jean-Marie Le Pen. Foi em 2007, quando Nicolas Sarkozy, líder dos gaullistas de centro-direita, fez um raide junto do eleitorado da extrema-direita.

A história começou cinco anos antes. Em 2002, a primeira volta das eleições presidenciais francesas parecia um hipermercado em dia de promoções. Com uma multiplicação interminável de candidatos, destacavam-se os dois favoritos de sempre: o líder do partido de centro-direita, Jacques Chirac, e o líder do Partido Socialista, Lionel Jospin. Toda a gente tinha a certeza de que seriam eles, sem dúvidas nenhumas, os dois finalistas na segunda volta. Quatro dias antes das eleições, um jornalista perguntou a Jospin, como se estivesse a falar da hipótese de um pelotão de marcianos aterrar um OVNI no centro de Paris: “Imagine, por um momento, que não passa à segunda volta. Votaria em quem?”. O secretário-geral do PSF deu uma gargalhada divertida e respondeu: “Eu tenho imaginação, tal como qualquer outra pessoa, mas temperada pela razão.” E depois: “Se calhar, podemos passar à próxima pergunta.”

A “próxima pergunta” era irrelevante porque, em breve, quando os votos foram contados, a França do sistema percebeu, entre o choque e o espanto, que a segunda volta seria disputada entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen, que conseguiu uns robustos 16.86% dos votos e, dessa forma, ficou à frente de Jospin. Chegadas as coisas a este ponto de pré-rutura da República, os partidos tradicionais tinham duas hipóteses: chorar ou lutar.

Nicolas Sarkozy, do partido gaullista, decidiu lutar. Primeiro, assumiu o cargo de ministro da Administração Interna de Jacques Chirac. Depois, começou a dar resposta às preocupações dos eleitores da Frente Nacional. Nas presidenciais seguintes, em 2007, estava preparado para esvaziar uma parte substancial do saco de votos da Frente Nacional.

Jean-Marie Le Pen queria passar uma imagem de invencibilidade, mas os estudos de opinião da época mostravam, na verdade, que ele tinha fragilidades da raiz dos cabelos à ponta dos pés. Por um lado, sem surpresa, as duas grandes preocupações dos votantes da Frente Nacional eram a imigração e a segurança — o que quer dizer que, havendo vontade, era fácil tranquilizá-los com algumas medidas focadas. Além disso, não havia um “eleitor-tipo” de Le Pen: uns consideravam-se de direita, outros de esquerda, outros “nem-nem”; uns eram pequenos empresários, outros empregados de comércio, outros agricultores, outros operários — o que quer dizer que não eram um grupo homogéneo e consistente que fosse difícil dividir. Terceira fragilidade: os eleitores de Le Pen não procuravam apenas um tribuno, mas alguém com capacidade para efetivamente provocar reformas no sistema. Ora, as sondagens feitas entre estes votantes mostravam que 94% reconheciam em Sarkozy “o perfil de um Presidente” e 95% acreditavam que ele queria “mesmo mudar as coisas”. Mais e pior: de forma fatal, esses eleitores “tinham dúvidas sobre a capacidade de Jean-Marie Le Pen para concretizar as promessas que fazia”. Tradução: eles acreditavam que Sarkozy podia ganhar e acreditavam que Le Pen nunca iria ganhar.

O resultado de tudo isto foi espantoso para o líder dos gaullistas e desastroso para o líder da Frente Nacional. Em 2002, na primeira volta, Chirac tinha tido 19.88% e Le Pen 16.86%; em 2007, também na primeira volta, Sarkozy teve o triplo dos votos de Le Pen: 31.18% contra 10.44%. Antecipando o colapso, Le Pen passou a campanha eleitoral a tratar Sarkozy como “um rapaz oportunista”. Em desespero, proclamou, usando a frase que hoje tanta gente repete em Portugal: “As pessoas preferem o original à cópia”. Em breve, perceberia que não, não preferem. Se a “cópia” for competente, o “original” apaga-se.