O desempenho económico e das contas nacionais ao longo dos últimos anos tem surpreendido muitos analistas. Depois de um longo período de crescimento económico reduzido (ou negativo) e desequilíbrio externo, que levou ao resgate em 2011, seguiram-se um rigoroso período de ajustamento, o final da recessão em 2013 e o início de uma trajetória de crescimento que já vai em 23 trimestres consecutivos.

Entre outros marcos relevantes, destacaria a melhoria em 15 lugares da posição portuguesa no índice de competitividade do World Economic Forum em 2014, o crescimento de 3,5% do PIB em 2017 (o maior desde 2000), a taxa de desemprego em mínimos desde 2004 e o défice de 2019, o mais baixo da história da nossa democracia.

Para além da dinâmica do turismo e do imobiliário, têm-se destacado alguns setores industriais com vocação exportadora, as empresas tecnológicas impulsionadas por uma vaga de empreendedores abertos ao mundo e um crescente interesse estrangeiro por ativos na área das renováveis.

O mérito destes resultados é dos nossos empresários e trabalhadores, e também de políticas que privilegiaram o ajustamento da nossa economia, a estabilidade e o equilíbrio das contas públicas. Não obstante, o abrandamento económico na Europa e o risco associado à dívida externa devem fazer-nos refletir, num momento em que os efeitos do coronavírus sobre a economia global ainda não são possíveis de estimar.

Muito se tem debatido sobre a qualidade das instituições, o nível do investimento público e o stock de capital físico e humano, como razões para a nossa baixa produtividade e competitividade. No curto prazo, é improvável que hajam mudanças significativas nestes indicadores. As reformas estruturais, sempre apreciadas no léxico da classe política, demoram anos a produzir efeito.

Por outro lado, há factos relevantes que permanecem longe do holofote mediático e que devem merecer a nossa atenção. A nível mundial, 2019 foi o quarto ano consecutivo em que os fundos de private equity ou venture capital angariaram mais de 500 biliões de dólares (escala curta: 1 bilião = mil milhões), estimando-se que tenham agora disponíveis para investir quase 1.500 biliões de dólares (o dobro do que se registava em 2015), não contando com fundos de infraestruturas ou real estate.

Foi também o crescimento deste dry powder que ajudou à criação dos três “unicórnios” portugueses (mais do que Espanha tem), e à concretização de várias operações menos divulgadas, que permitiram desenvolver novas ideias e melhorar o nosso tecido empresarial.

Num mundo de baixas taxas de juro, em que muitas empresas a nível mundial também acumularam liquidez nos últimos anos, deveremos estar cada vez mais atentos às oportunidades de captação de investimento estrangeiro. Para além de proporcionar a entrada imediata de capitais, há setores nos quais o investimento estrangeiro é particularmente importante para criar emprego, aumentar a produtividade e o PIB e transferir recursos e conhecimento provenientes de ecossistemas mais desenvolvidos.

Contudo, atrair investidores é uma tarefa complexa, na qual os fatores estruturais de competitividade de uma economia, tais como estabilidade política e social, infraestruturas, enquadramento fiscal, capital humano, entre outros, são apenas uma parte. Os investidores procuram ativos e negócios específicos e querem saber se estes se enquadram na sua estratégia e política de investimento. Na maioria dos casos, é importante apresentar-lhes o desempenho financeiro histórico do negócio de forma credível e mostrar que existem razões pelas quais se espera que venha a ser gerado valor, isto é, lucros e dividendos, de forma sustentável. Tudo isto se processa no espaço de alguns meses, envolvendo intensas trocas de informação e negociações sobre contas, contratos, processos legais, entre outros aspetos.

O que expliquei acima poderia parecer corriqueiro, por ser eminentemente técnico e processual. Na realidade, a qualidade na execução de cada um desses passos é determinante. Mesmo quando tudo parece certo, há operações que acabam por não acontecer. Cada ativo concorre pela atração de investimento com milhões de outros em todo o mundo, e em Portugal temos de saber “vender” melhor.

Já temos, mas precisamos de mais, empresas bem integradas nas cadeias de valor internacionais. Empresas com gestores que pensem de forma global, contratem talento internacional, recebam investimento estrangeiro e também cresçam lá fora.

Alguém disse um dia que a sorte favorece os audazes. A capacidade de se promoverem bons negócios nos próximos tempos também passará por aí.