São os quinze minutos iniciais para intervenção do público em todas as sessões ordinárias e extraordinárias da Assembleia Municipal, ou seja, pelo menos uma vez por semana. São as Assembleias “descentralizadas”, uma em cada freguesia de Lisboa, cuja Ordem dos Trabalhos se destina exclusivamente a ouvi-los. São as Petições e respectivas audições, boa parte do trabalho de cada Comissão Permanente. São os Debates Temáticos e as Audições Públicas para discutir isto e aquilo. Em nome da resposta que devemos ao ouvir dezenas ou centenas de munícipes ao longo de um mandato, repetindo variantes de uma reprimenda comum, tentarei explicar o seguinte paradoxo: a ideia de que “os políticos são todos corruptos” é a primeira ajuda moral à corrupção e, portanto, um obstáculo traiçoeiro no combate à corrupção. Como funciona esta ajuda e este obstáculo?

Imaginemos outras constatações igualmente arbitrárias. Por exemplo, “os enfermeiros são todos facínoras”; ou “os mecânicos de automóvel são todos sucateiros”; ou “os informáticos são todos ladrões”. Consequência? Os que efectivamente forem facínoras, sucateiros, ou ladrões, sentem-se um entre iguais (talvez um pouco mais espertos). Nada os diminui perante os outros. Afinal, todos fazem como eles, comportam-se da mesma maneira, obedecem aos mesmos impulsos e expandem-se ao longo dos mesmos códigos morais. A ideia traz conforto aos piores.

Como não estender o privilégio aos transgressores da política? Porque é exactamente isso que acontece quando se procede partindo do princípio de que “os políticos são todos iguais e todos corruptos”. Quem participa neste erro, por ignorância, má-fé, boa-fé, idiotia conselheiral, ou a mais basáltica estupidez, abre caminho aos piores para passearem a corrupção ostentosa deles nas televisões e nos restaurantes sem que ninguém se levante da mesa para escapar de tão miseráveis companhias.

Não falo em corrupção apenas no sentido jurídico, ou tal como está definida no Código Penal. Falo no sentido devasso e deteriorado dos comportamentos políticos e da integridade democrática. E trago exemplos de como os cidadãos de Lisboa, quando acusam nas assembleias, se limitam a reproduzir as lógicas marteladas pelas excelências da Pátria em programas de informação ou comentário televisivo, e ao mesmo tempo em certa incompetência ou cobardia por parte de dirigentes partidários que não sabem pegar nestas misérias, interpretá-las, e fazer a transposição para linguagem política.

Que exemplos e misérias são esses? Refiro-me à indiferença olímpica com que o mundo mediático tratou os gravíssimos danos políticos e democráticos decorrentes da governação de Sócrates em nome do “respeito” pelo “tempo da justiça” da Operação Marquês. Refiro-me à naturalidade com que ficam por mencionar, e muito menos explicar, o caso Tutti-frutti – em que os responsáveis dos partidos se entendiam para distribuir entre si contratos públicos e resultados autárquicos – ou a Operação Influencer – em que os governantes mais poderosos do país usavam os labirintos da burocracia para “agilizar” processos, favorecendo as empresas da predilecção deles.

Sempre que o jornalismo, o comentário político e, em geral, o ainda não totalmente descredibilizado mundo mediático abdicam de dar importância aos casos elementares da corrupção do regime, e sempre que sentam em frente deles para entrevistar um governante (ou candidato) livrando a conversa de perguntas desconfortáveis sobre os casos conhecidos, e sobre a cumplicidade política dele com os casos conhecidos, estão a dizer aos portugueses o seguinte: não tem importância, não é critério, em matéria de indecências “os políticos são todos iguais”. Os portugueses ouvem os senhores importantes dizer isto todos os dias, antes, durante, e depois de todos os telejornais; naturalmente, os que moram em Lisboa vão às assembleias dizer que “os políticos são todos corruptos”.