Economia em dia com a CATÓLICA-LISBON

O Diabo não chegou mas vem aí o Anjo

Autor
  • Filipe Santos
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A força da Economia deve-se aos empresários e trabalhadores que realizaram um difícil ajustamento estrutural durante os últimos 15 anos e desde 2011 começaram a ganhar competitividade internacional.

O anunciado Diabo não chegou no 2º semestre para arrastar a Economia Portuguesa para o precipício, esperando-se um crescimento perto de 1.3% em 2016. Mas 2017 inicia-se com forte incerteza económica e política. A nível internacional, a eleição de Trump, o Brexit, a possível redução dos estímulos monetários do BCE, bem como a crise institucional na Europa constituem perigos para o desempenho da Economia Portuguesa. A nível nacional, o forte endividamento público e privado e os 11.9% de crédito mal-parado nos balanços dos bancos fazem antever a continução da fraqueza da economia Portuguesa que, na década de 2006 a 2015, cresceu exatamente 0%. As previsões mais recentes apontam para um crescimento em 2017 entre 1.2% (OCDE) e 1.7% (NECEP da Católica-Lisbon), com a maior parte das estimativas a apontar para um crescimento em torno de 1.5%. Este é um valor insuficiente para colocar a nossa dívida pública num patamar sustentável ou resistir a uma crise internacional.

Felizmente, penso que estas previsões são demasiado pessimistas. É minha convição que a Economia Portuguesa está prestes a iniciar um período de crescimento sustentado com forte criação líquida de emprego. Aliás, este processo já se iniciou no 3º trimestre de 2016 que foi o trimestre de arranque. Dados da Comissão Europeia mostram que Portugal foi o país da UE que mais cresceu no 3º trimestre (0.8% face ao trimestre anterior, a par com a Bulgária) e o país com a maior taxa de criação de emprego líquido (1.3% contra 0.8% da Espanha em segundo lugar). Ironicamente, quando foi anunciada a vinda do diabo da economia, já o anjo económico tinha chegado.

Isto está a acontecer porque os riscos e fraquezas apontados acima estão a ser suplantados por um conjunto de forças e tendências ascendentes da economia real que se vão revelar em força em 2017, permitindo acelerar o crescimento económico para valores superiores a 3%, mais do dobro das previsões atuais e colocando o desemprego claramente abaixo dos 10%.

Este desempenho não se deve nem à política de austeridade excessiva do Governo anterior, que quase matou o paciente, nem à política de devolução de rendimentos do atual Governo, que não é sustentável nos seus efeitos nem aumenta a competitivdade da economia. Ambos os governos tiveram, no entanto, a virtude de conseguir gerir a crise e evitar o afundar da Economia Portuguesa no meio da grande tempestade económica que foi a crise financeira e a grande recessão.

A força atual da Economia Portuguesa deve-se aos empresários e trabalhadores portugueses que realizaram um difícil ajustamento estrutural da economia durante os últimos quinze anos e começaram nos últimos cinco anos a ganhar competitividade internacional, com um aumento sustentado das exportações que passaram, numa década, de 27% para 40% do PIB. Vejamos quais são as forças que vão puxar pela Economia Portuguesa em 2017:

  • O investimento público e privado irá acelerar no triénio 2017-2019 sustentado pela dinâmica da economia e pelos fundos estruturais europeus que começam a ter forte execução depois de um arranque lento do Portugal 2020 que levou a que 2016 fosse um ano de forte quebra de investimentos. Áreas como a reabilitação urbana, eficiência energética e investimentos produtivos de empresas nacionais e internacionais serão prioritárias, bem como o relançar de algumas obras públicas e uma maior facilidade de acesso a financiamentos bancários alavancados pelos instrumentos financeiros do Portugal 2020.
  • Crescimento do Turismo: o setor do Turismo apresenta desde há 3 anos um crescimento acima de 10% sendo prevísivel a continuação do forte crescimento em 2017. Dado o peso relevante que este setor já tem na Economia Portuguesa (perto de 7% de contributo direto para o PIB) e a sua natureza intensiva em mão de obra e orientada para a procura externa (sendo a maioria das receitas de Turismo oriundas de clientes não residentes e portanto equivalentes a exportações), este será um setor que puxará fortemente pela Economia Portuguesa. E se o ano de 2016 teve o Websummit (que se repetirá em 2017), o ano de 2017 terá um evento com um impacto económico muitíssimo superior no turismo – o centenário das aparições de Fátima e visita do Papa em maio. Este forte crescimento do Turismo acrescentará mais de 1% ao PIB anual nos próximos anos.
  • Imobiliário: o setor imobiliário está em recuperação sustentada, após anos de crise profunda, com aumentos significativos da venda de casas e dos preços médios por m2 em várias regiões do país, o que está a atrair investimento na construção para habitação e para servir a forte procura do Turismo. Isto tem impactos positivos na construção civil, que atravessou uma crise profunda, e também em todos os setores da Economia a montante – como Arquitetura, Mobiliário, e Materiais de Construção.
  • Dinâmica dos Setores Industriais: um conjunto de setores industriais tradicionais, após mais de quinze anos de ajustamento a um contexto competitivo global com uma moeda forte, estão a evidenciar uma forte dinâmica e capacidade exportadora. Falo do Calçado, do Têxtil, da Metalomecânica, dos Produtos Químicos, dos Moldes, da Pasta e Papel, entre muitos outros. Estes são setores que produzem maioritariamente em Portugal para mercados externos, estando a conseguir uma posição mais competitiva no mercado global, com capacidade de criar marcas novas e acrescentar valor, tendo Portugal criado clusters setoriais interessantes com forte incorporação tecnológica em indústrias como o automóvel, a aeronáutica e energias renováveis.
  • Novo fôlego no Setor Primário: os setores agrícola e florestal estão a exibir forte investimento e crescimento em muitos dos seus nichos como produtos frescos, vinhos, cortiça, azeite, produtos artesanais entre outros, com uma cada vez maior exposição e sucesso em mercados internacionais. Assiste-se também a uma completa transformação do panorama agrícola no Alentejo devido à barragem do Alqueva.
  • Crescimento de novos Setores de Serviços: dinamismo de áreas como o Ensino Superior, a Ciência e a Saúde, áreas historicamente centradas no consumo interno mas que começam agora a atrair procura internacional – são setores que não exportam produtos mas sim “importam” clientes para os seus serviços, o que traz impactos significativos para a Economia Portuguesa. Aliás, Portugal é atualmente muito competitivo a exportar a sua qualidade de vida, “importando” novos residentes ao abrigo de programas como os Vistos Gold e o estatuto de Residente Não Habitual, o que levará a um aumento sustentado da população residente e do consumo interno.
  • Centro de Competências e Serviços (Near-Shoring): grandes empresas europeias estão a iniciar um processo de repensar as suas cadeias de valor numa lógica regional, com vista a reduzirem custos, riscos e tempos de entrega. Portugal tem condições de estabilidade, telecomunicações, aprendizagem de línguas, capacidade produtiva, e relação qualidade/custo que o tornam um dos países mais atrativos da Europa para desenvolver centros de competências de multinacionais. Empresas em Portugal que prestam este tipo de serviços em sub-contratação estão crescer e criar emprego qualificado. Multinacionais, como o BNP Paribas, a Siemens, ou a Bosch estão a aumentar significativamente as suas equipas de serviços em Portugal. Este é um setor que com um impacto menor no investimento a curto prazo, pois não exige a construção prévia de infraestrutura pesada, mas que são geradores de emprego qualificado e têm fortes impactos multiplicadores na Economia.
  • Empreendedorismo: Na última década Portugal desenvolveu um ecosistema de empreendedorismo tecnológico que está agora a dar frutos, com a criação de empresas de forte intensidade tecnológica e/ou forte inovação de produto que nascem para servir um mercado global. Estas empresas são criadoras de emprego qualificado e ímans de talento e investimento nacional e internacional. Portugal está até a começar a atrair empreendedores e centros de desenvolvimento de start-ups criadas em outros países e que procuram agora aumentar as suas equipas, sabendo que o podem fazer em Portugal a metade do custo médio da UE, com maior segurança e qualidade de vida para os seus empregados.

Esta é uma lista não exaustiva que demonstra bem a força atual da Economia Portuguesa. A previsão económica é uma arte falível e posso estar enganado na minha análise da dinâmica da Economia. Muita coisa pode entretanto correr mal no plano internacional político e financeiro. Mas acredito que 2017 marcará o início de um período sustentado de crescimento da Economia Portuguesa.

Full Professor & Chair in Social Entrepreneurship, Católica-Lisbon School of Business & Economics; INSEAD Visiting Professor of Social Entrepreneurship

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