A crise dos refugiados na Alemanha e na Europa pode acabar com o consulado político de Merkel. Até ao fim do Verão passado, a Chanceler alemã gozava de uma posição invejável. Era de longe a política mais popular do seu país e o seu partido, a CDU, liderava nas sondagens com uma grande margem de avanço. A situação alterou-se. A CDU ainda lidera as sondagens, mas está a cair, e Merkel perdeu popularidade. Começa mesmo a ser contestada no interior do seu partido.

A declaração pública de boas vindas aos refugiados durante o Verão do ano passado pode ter sido o momento em que se iniciou o fim de Merkel. Poderá ter sido um daqueles momentos em que a maioria dos cidadãos se interrogou se o seu líder, após uma década no poder, perdeu a noção da realidade. Esse é o primeiro passo para se perder a confiança. As grandes qualidades de Merkel têm sido o seu pragmatismo e a sua sensatez. Por isso, a maioria dos alemães deu-lhe a sua confiança. Nem a crise da zona Euro, nem a crise com a Rússia abalaram essa confiança; pelo contrário, a credibilidade de Merkel saiu reforçada das crises anteriores.

Apesar das próximas eleições federais (legislativas) se realizarem apenas em Setembro do ano que vem, 2016 será decisivo para o futuro político de Merkel. Durante este ano, haverá cinco eleições regionais (nos Lander). Se a CDU sofrer maus resultados – e sabe-se como as eleições regionais costumam ser complicadas para os partidos no poder – a vida ficará muito difícil para Merkel.

Mas os próximos dois meses serão igualmente muito importantes. Merkel terá que demonstrar que recuperou a relação de mútua compreensão com a maioria do eleitorado alemão. Terá de mostrar igualmente que tem uma solução viável para a crise dos refugiados. Julgo que o primeiro passo será uma decisão pessoal da própria Merkel. Este será o momento em que decidirá se quer lutar por mais um mandato. Se o fizer, Merkel tem margem e capacidade para dar a volta à situação complicada em que se encontra. Mas pode chegar à conclusão que a sua energia política se esgotou e que o seu tempo chegou ao fim. Nesse caso, terá que começar a preparar a sua sucessão.

Se Merkel decidir lutar e candidatar-se a mais um mandato, terá que fazer um discurso forte para matar as suas antigas declarações e anunciar uma nova política. Uma política que recupere a confiança dos alemães. E julgo que não terá muito tempo; terá dois, três meses. A nova estratégia terá que ser bem clara antes do Verão – durante o qual o número de refugiados aumentará de novo.

Já se percebeu que a distribuição dos refugiados pelos Estados membros da União Europeia não funciona. Não só muitos desses países, sob pressão das opiniões públicas internas, não aceitam essa solução, como os próprios refugiados também não a querem. Se os refugiados quisessem ficar em Itália ou emigrar para França, já o teriam feito. Se os refugiados não quiseram ficar nos países que lhes são atribuidos, não terão qualquer dificuldade em regressar à Alemanha. Se vieram do Iraque e da Síria, não lhes custa nada viajar no interior da Europa, a não ser que se acabasse com a liberdade de circulação e com Schengen.

Há quem comece a defender uma alternativa, sobretudo na Alemanha e na Áustria: o fecho das fronteiras dos dois países com o sul. Ou seja, seria a criação de uma espécie de “mini-Schengen do Norte”, deixando de fora a Itália, a Eslovénia, a Croácia e a Grécia. Seria uma solução muito má para a UE. Seria uma segunda divisão entre o Norte e o Sul, depois da que aconteceu durante a crise do Euro. Merkel e o governo alemão tudo farão para que isso não aconteça.

Resta assim a solução inevitável: travar a vinda de refugiados para a Europa. Não será nada fácil. Mas, paradoxalmente, foi Merkel que levou a Europa a esta situação. Quando se faz um convite, e o número de convidados se transforma num problema, só há uma solução: retirar o convite. E terá que ser Merkel a fazê-lo. Um ponto parece evidente: mais um acidente semelhante ao da noite da passagem de ano em Colónia e será o fim político de Merkel. Um país não aceita um líder em quem não confia para garantir a sua segurança.