No passado mês de abril, Volodymyr Zelensky assinou, em pouco mais de duas semanas, acordos de cooperação militar de longo prazo com a Arábia Saudita e o Qatar, deslocou-se a Istambul para se encontrar com Recep Tayyip Erdogan e terminou com uma visita inédita a Damasco, onde se reuniu com Ahmed al-Sharaa. O que este percurso elucida, e que a visita a Damasco torna particularmente visível, é um eixo emergente de convergência entre a Ucrânia e a Turquia que se afirma precisamente nos espaços que a Rússia, durante décadas, considerou seus e cuja consolidação, a confirmar-se, terá implicações de longo prazo para o Médio Oriente, para o Cáucaso e para a Ásia Central mas, e talvez sobretudo, para a própria arquitetura de segurança da Europa.

Para perceber a profundidade desta inflexão, convém começar pelo que torna a Ucrânia hoje atrativa para os parceiros do Golfo. A guerra desencadeada a 28 de fevereiro entre o eixo americano-israelita e o Irão, e em particular a resposta iraniana através de campanhas massivas de drones e mísseis contra alvos americanos, israelitas e nas próprias monarquias do Golfo, expôs de forma constrangedora para Washington o problema central da defesa contemporânea contra ameaças assimétricas. As bases americanas e os territórios dos seus aliados foram protegidos, em muitos casos, com mísseis Patriot que custam vários milhões de dólares cada, intercetando drones iranianos cuja produção custa alguns milhares. A equação financeira é insustentável a médio prazo e a equação política, para os Estados do Golfo que assistem à transformação da proteção americana em algo simultaneamente caro, condicional e instável, é ainda mais delicada.

Foi neste vácuo que Zelensky entrou, oferecendo aquilo que a Ucrânia, ao fim de mais de quatro anos de guerra contra a maior campanha de drones da história, acumulou em quantidades que nenhum outro país do mundo possui hoje: soluções defensivas anti-drone escaláveis e a uma fração do custo dos sistemas americanos. A Ucrânia está também, neste contexto, a aprender a apresentar-se como um verdadeiro fornecedor de competência prática, como evidenciado pelo anúncio feito pelo líder ucraniano no mês passado de que mais de duzentos especialistas ucranianos foram destacados para o Médio Oriente para apoiar parceiros regionais a contrariar drones iranianos.

Esta projeção de competência militar para fora do teatro europeu é também o sinal de uma alteração de fundo no estatuto da Ucrânia. Durante anos, Kiev foi tratada por uma parte significativa das opiniões públicas e dos governos ocidentais como um buraco financeiro, um destinatário de transferências a fundo perdido cuja sustentabilidade dependia inteiramente da generosidade alheia, um aliado moral mas oneroso.

Essa narrativa, instrumentalizada à direita por figuras como Donald Trump e JD Vance para justificar o desinvestimento americano e à esquerda por correntes que mantêm um carinho suspeito pelo regime russo como herdeiro do regime soviético, sempre teve o defeito de ignorar uma dimensão essencial. A guerra na Ucrânia foi para Kiev um laboratório à pressão de inovação militar à escala industrial, que hoje se  materializa num complexo de defesa do qual nenhum país europeu se consegue sequer aproximar. Com mais de novecentos mil soldados, com a indústria de drones mais desenvolvida do mundo e com uma capacidade demonstrada de resistir durante mais de quatro anos àquela que se apresentava como a maior potência militar do continente, a Ucrânia que Zelensky leva ao Golfo e à Síria não é a Ucrânia pedinte mas a Ucrânia que oferece, em condições próprias e em pé de igualdade, aquilo que tem para oferecer.

Esta conversão é particularmente legível em Damasco e é por isso que a visita à Síria, mais do que qualquer outro momento da tour, revela a arquitetura geopolítica em formação. A Síria de al-Sharaa é, no estado atual das coisas, a peça mais visível e simbólica da decadência russa na região. Foi em solo sírio que Moscovo, durante anos, exibiu a sua capacidade de projetar poder no Médio Oriente e na bacia do Mediterrâneo oriental, mantendo as bases de Tartus e Khmeimim como prova de que continuava a ser uma potência com presença global. A queda de Assad, exilado agora em Moscovo, expôs os limites desse poder e a sucessão de fracassos russos foi compondo o retrato de um império em decadência, cada vez mais incapaz de honrar os compromissos para com os seus supostos parceiros.

A incapacidade de sustentar Maduro na Venezuela, de socorrer a Arménia durante o conflito em Nagorno-Karabakh, de oferecer cobertura efetiva a Teerão durante os ataques, a queda iminente do regime cubano, tudo isto compõe a imagem de uma Rússia cada vez mais presa nos pântanos ucranianos e cada vez menos capaz de se oferecer como potência pluri-regional que compita com os EUA ou com a China.

E onde Moscovo recua, Ancara avança. Avança através de uma estratégia paciente que ocupa metodicamente todos os espaços que a Rússia vai deixando, do Cáucaso à Ásia Central, do Mar Negro ao Mediterrâneo, e que tem na Síria contemporânea o seu mais visível exemplo. Convém recordar que Ancara foi o principal patrocinador externo da oposição síria durante quase toda a guerra civil, que abrigou al-Sharaa e os seus quadros durante anos no seu território e que o regime que hoje governa em Damasco existe, em grande medida, por causa do apoio político, militar e logístico turco. A particularidade da estratégia turca, no entanto, e aquilo que a torna distinta de qualquer alinhamento ocidental, é que coexiste com uma relação ambígua e calculada com a própria Rússia. A Turquia não aderiu às sanções europeias, mantém canais de diplomacia ativos com Putin, tem na Rússia um dos seus principais parceiros comerciais e, ainda assim, aproveita-se sistematicamente das brechas que Moscovo vai sendo forçado a abrir.

É à luz disto que se compreende a verdadeira natureza da visita de Zelensky a Damasco, visita esta que dificilmente se explica sem pressupor a existência de mediação turca. A Síria de al-Sharaa, um país que até há poucos meses não tinha relações diplomáticas estáveis com a Ucrânia, abre as suas portas a um chefe de Estado ucraniano em circunstâncias que tornam essa abertura inseparável da relação privilegiada de Damasco com Ancara. O que a fotografia trilateral mostra, nestes termos, é a cristalização visível de um eixo de convergência entre Kiev e Ancara que tem em Damasco um dos seus terrenos de afirmação prática.

Uma parte importante desta incipiente aliança é o facto de os seus interesses serem mutuamente potenciadores. A Síria possui das maiores reservas mundiais de fosfato, recurso essencial para a agricultura ucraniana num país que é, com razão, conhecido como o breadbasket da Europa. A Ucrânia, o tal breadbasket, pode funcionar como fornecedor de cereais e outros produtos agrícolas para uma Síria que emerge da opressão do regime de Assad com a sua segurança alimentar profundamente comprometida. A Turquia retira desta triangulação a possibilidade de afirmar-se como o nó central de uma nova arquitetura regional que articula o Mar Negro, o Cáucaso e o Levante e que tem na disputa pelas rotas energéticas que ligam o Cáspio à Europa o seu maior desafio de longo prazo. A degradação infligida pela Ucrânia à frota russa do Mar Negro, com cerca de um terço dos navios russos abatidos, alterou o equilíbrio marítimo da região e ampliou, na prática, a margem de manobra turca, abrindo espaço a uma cooperação tácita anti-russa entre Kiev e Ancara. A mesma lógica parece agora alargar-se à dimensão terrestre e mediterrânica.

Há nesta convergência uma profundidade histórica que importa registar. As relações entre os territórios que hoje correspondem à Ucrânia e à Turquia datam de um tratado celebrado em 1649 entre os cossacos e o Império Otomano, que garantiu aos navios ucranianos liberdade de navegação no Mar Negro e isenção aduaneira durante um século, e a Turquia foi, em 1918, um dos primeiros países a reconhecer a República Popular Ucraniana. Mas o novo eixo emergente, mais do que uma reedição nostálgica histórica, surge com a coincidência objetiva de interesses entre dois Estados que partilham uma desconfiança estrutural face a Moscovo e uma vontade declarada de afirmar autonomia estratégica num sistema internacional em rápida reconfiguração, onde, como referiu Mark Carney em Davos, as potências médias se devem unir de forma a estarem à mesa e não no menu.

Para a Europa, a capacidade ucraniana de oferecer infraestrutura de transporte, armazenamento e exportação energética complementa a posição turca como hub energético em ascensão e a soma das duas oferece uma alternativa real às rotas controladas pela Rússia. Num momento em que reduzir a dependência energética de Moscovo deixou de ser uma opção para passar a ser um imperativo de segurança, o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan e o corredor do Mar Negro articulado com o corredor energético do Cáspio passam a desempenhar um papel central numa arquitetura energética europeia que pode finalmente libertar-se das dependências herdadas da Guerra Fria e da falhada estratégia Wandel durch Handel.

A questão que se impõe à União Europeia, perante este quadro, é como integrar este eixo emergente numa estratégia coerente em vez de o observar com a passividade habitual com que tem assistido à transformação do seu próprio continente. A guerra na Ucrânia, a fragilização do guarda-chuva americano sob a administração Trump, a evidência de que os exércitos europeus carecem de pessoal, de tecnologia e de experiência operacional para fazer face a um conflito de alta intensidade no flanco leste, tudo isto deveria conduzir a uma conclusão simples mas politicamente difícil. As forças armadas ucranianas são hoje o único ativo militar verdadeiramente disponível para reforçar a defesa europeia em prazos que façam diferença.

Contudo, a integração da Ucrânia na NATO, dada a proximidade entre Trump e Putin e o desinteresse declarado da Casa Branca pela aliança transatlântica, é uma hipótese remota. A adesão plena à União Europeia é, nas próprias palavras do Comissário da Defesa Andrius Kubilius, um processo demasiado lento para responder à urgência das capacidades militares. Mas é precisamente por isto que a proposta avançada pelo próprio Kubilius nas últimas semanas ganha uma relevância particular.

A criação de uma União Europeia de Defesa, articulada por um tratado intergovernamental que permita integrar as capacidades militares da Ucrânia, do Reino Unido, da Noruega e dos Estados-membros dispostos a participar, é a única forma plausível de reconciliar a urgência geopolítica com as limitações jurídicas dos atuais tratados europeus. Os mecanismos de cooperação reforçada já previstos nos tratados, ou a evolução da União para uma estrutura em camadas em que diferentes graus de integração coexistam consoante a vontade política dos Estados-membros, oferecem caminhos institucionais credíveis para reagir a uma realidade que a arquitetura atual não consegue acomodar.

O eixo que se desenha entre Kiev, Ancara e Damasco é ainda um esboço, mas insere-se num movimento mais amplo. As potências médias têm vindo, em diferentes regiões e a diferentes velocidades, a ocupar os espaços que a hegemonia americana já não preenche e que a Rússia se revelou incapaz de defender. A reorganização em curso no Médio Oriente e no Nordeste Africano segue a mesma lógica. A presença turca no Cáucaso e na Ásia Central também. O sistema internacional que durante três décadas se organizou em torno de uma única potência hegemónica está a entrar numa fase em que essa centralidade se tornou disfuncional, abrindo espaço a uma multiplicação de arranjos regionais, mais voláteis, mais pragmáticos e muito menos previsíveis.