“Não podemos deixar a nação para os populistas”, assim titulou certeiramente Teresa de Sousa a sua longa entrevista com Timothy Garton Ash, publicada ontem no Público, no âmbito de uma série de 10 entrevistas sobre “A Europa e o Presente”. Não é possível resumir aqui a riqueza intelectual da demorada conversação publicada em seis páginas do jornal. Mas alguns pontos podem ser salientados.

Em primeiro lugar, convém sublinhar que Timothy Garton Ash — frequente participante do Estoril Political Forum e um dos oradores na série de palestras anuais Alexis de Tocqueville do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica — é um dos críticos do Brexit mais respeitados, quer em Inglaterra quer no continente, sobretudo na Alemanha. E é como crítico do Brexit que dá esta entrevista — em que o tom é sempre moderado e a preocupação central é sempre de diálogo.

Referindo-se aos chamados “movimentos populistas”, Garton Ash alerta para que a tese habitual de que eles resultam sobretudo de razões económicas não é satisfatória. “Porque, afinal de contas, a Alemanha ou a Polónia estão muito bem economicamente, os salários aumentaram, e isso não trava esses movimentos populistas e nacionalistas.” (O mesmo poderia ser dito do Reino Unido, acrescento eu, em que o nível de pleno emprego atingiu em 2018 recordes históricos).

Garton Ash vai então argumentar que há uma crucial dimensão cultural: “esta grande divisão das nossas sociedades entre a metade que foi para a universidade, que vive nas cidades e que se tornou citadina, liberal, cosmopolita, a favor da imigração e da Europa, e aqueles que não apenas foram deixados para trás economicamente, mas também, nalguma medida, culturalmente.”

E prossegue: “Prefiro dizer que eles sentem não apenas a desigualdade de rendimento, mas também a desigualdade do respeito. E, quando essas pessoas dizem o que pensam, são imediatamente acusadas de serem fascistas por terem ideias que não são bem vistas pelo liberalismo dominante.”

Em seguida, Garton Ash vai dizer que “a parte realmente importante da resposta tem de ser aquilo a que chamo ‘patriotismo liberal’. Não podemos deixar a nação para a direita, para os populistas, os xenófobos. Temos de ter a nossa própria imagem positiva de nação.” Este conceito de “patriotismo liberal” faz lembrar o “patriotismo razoável” defendido pelo norte-americano William Galston na sua Palestra Dahrendorf, proferida no Estoril Political Forum do ano passado — cujo tema global, não por acaso, era precisamente “Patriotismo, Cosmopolitismo e Democracia”.

É importante recordar e sublinhar que estas não são as palavras de um defensor do “Brexit” — mas de um crítico destacado do “Brexit”. Elas contrastam vincadamente com os temas habituais dos críticos do “Brexit” e do “populismo” no continente europeu. Em vez de atacar o sentimento nacional e de o colocar em oposição ao projecto europeu, Garton Ash defende um “patriotismo liberal” — em sintonia com o projecto europeu. Em vez de atacar a “ignorância” dos eleitores do “Brexit”, Garton Ash condena a arrogância sectária dos que chamam “fascistas” a toda e qualquer manifestação de orgulho patriótico. E ele próprio insiste na urgência de um “patriotismo liberal”.

Subscrevo inteiramente os alertas de Garton Ash. Tenho procurado argumentar no mesmo sentido, dizendo que devemos evitar a dicotomia infeliz entre populismo e vanguardismo. O desprezo vanguardista pelo sentimento nacional e o dogma vanguardista de sempre maior integração supranacional estão a empurrar os eleitores para movimentos populistas — basicamente porque os partidos centrais deixaram de dar voz ao sentimento nacional.

Num premonitório ensaio publicado em 1997, Garton Ash alertava — já nessa altura — para o perigo de um vanguardismo internacionalista poder desencadear uma reacção de tipo nacionalista. Vale a pena recordar essas palavras com mais de vinte anos:

“Um procedimento visando superar os velhos e maus hábitos europeus de rivalidade entre Estados-nações arrisca-se a acelerar o regresso desses velhos e maus hábitos. Carregue-se no botão ‘depressa para a frente’ e o resultado pode ser ‘depressa para trás’.” (TGA, “Catching the Wrong Bus?”, in Peter Gowan and Perry Anderson, Eds, The Question of Europe, Verso, 1997, p. 124).

Na magnífica entrevista de ontem a Teresa de Sousa, Garton Ash mantém-se fiel ao alerta de 1997. E deixa-nos um sábio apelo para evitar a infeliz dicotomia entre vanguardismo e populismo:

“Creio que os intelectuais, as universidades, os media têm um papel muito importante a desempenhar, começando por tratar a outra parte das nossas sociedades com maior respeito, levando a sério as suas preocupações e desenvolvendo um patriotismo liberal positivo.”