Por incrível que pareça o setor financeiro está a alinhar-se com a neutralidade carbónica decorrente do Acordo de Paris e com os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. As Nações Unidas lançaram em novembro passado os “Princípios para a Banca Responsável” que já mereceram a assinatura de 28 bancos. O Barclays, o BBVA, o BPN Paribas, o ING, o Santander, Societe Generale são alguns deles.

Estes princípios identificam seis temas com os quais os bancos se têm de comprometer: 1) Alinhar os empréstimos e a gestão do risco com o Acordo de Paris e com os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável; 2) Aumentar o impacte positivo e reduzir os impactes negativos decorrentes da sua atividade de intermediário financeiro: 3) Encorajar os clientes a utilizarem práticas sustentáveis na produção e no consumo; 4) Envolver e interagir com os vários stakeholders de forma a ir ao encontro das expectativas da sociedade; 5) Definir metas de ambição sobre os nossos impactes, e ter uma Governance e uma cultura de banca responsável; e 6) Ser transparente sobre o desempenho efetivo da implementação destes princípios, nomeadamente sobre os impactes positivos e negativos que têm sobre a sociedade. Além deste nível de compromisso que é exigido, os bancos que não demonstrem estar a evoluir na implementação destes princípios e que não tenham metas objetivas e públicas podem vir a sair da lista dos bancos subscritores. Estes princípios vêm assim mudar por completo a cultura e o propósito dos bancos. Vem mudar para melhor. Vem alinhar os bancos com o futuro.

Este alinhamento também está a ser seguido pela Comissão Europeia que lançou em 2018 o Plano de Ação para a Sustainable Finance que ambiciona: 1) reorientar os fluxos de capitais para investimentos sustentáveis; 2) gerir os riscos financeiros decorrentes das alterações climáticas; e 3) promover a transparência e a visão a longo prazo nas atividades económicas e financeiras. Já estão em processo de elaboração três regulações: definição de atividades sustentáveis; criação de índices de referência de empresas cotadas em bolsa – alinhadas com acordo de Paris e em transição; e a identificação da informação ambiental, social e de governance que os fundos de investimento terão de divulgar sobre as empresas que constituem os seus portfólios.

Também os Bancos Centrais estão a reconhecer este contexto. A associação internacional dos bancos centrais e que aconselham o G20 sobre políticas para manter a estabilidade financeira – O Financial Stability Board – através da Task Force on Climate Related Financial Disclosures, reconheceu que as alterações climáticas são um risco sistémico para o sistema financeiro, tendo desenvolvido Guidelines sobre a informação que qualquer organização deve reportar sobre a forma como está a combater as alterações climáticas. Até o ECOFIN reconheceu a importância de tornar os fluxos financeiros consistentes com um desenvolvimento de baixo carbono, valorizando a importância do setor financeiro privado, uma vez que não existem fundos públicos suficientes para as necessidades de investimento.

Neste contexto, o setor financeiro internacional tem sido proactivo em desenvolver produtos financeiros que estejam alinhados com a neutralidade carbónica, e por isso têm surgido de forma crescente as obrigações verdes, os empréstimos verdes, os fundos de investimento responsáveis e de impacto. Os chamados Bancos Éticos, como o Triodos, têm também vindo a ganhar relevo a nível internacional.

Num país que ambiciona ser neutro em carbono em 2050 e que tem já um roteiro que identifica as tecnologias e os investimentos necessários para lá chegar, a Sustainable Finance constitui uma oportunidade para todos, quer instituições financeiras, quer Estado, quer cidadãos. Estas práticas de financiamento já estão muito desenvolvidas pelo mundo, existindo exemplos na China, no Reino Unido, na França, na Holanda. Até nos EUA existem vários Bancos Verdes e quer os EUA quer a China são os dois países que mais obrigações verdes se emitem. Publicações recentes vêm lançar uma reflexão atual sobre este tema, uma vez que existe todo um mundo novo das finanças, que vale apena abraçar.

Economista especializada em sustentabilidade

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