O Presidente francês, François Hollande, considerou hoje que é preciso suspender as sanções contra a Rússia, porque Vladimir Putin “já pagou demasiadamente caro” pelas suas acções no Leste da Ucrânia e “observou-se progresso na situação”.

O argumento do dirigente francês baseia-se numa promessa do seu homólogo russo: “O senhor Putin não tenciona anexar a Ucrânia Oriental. Estou convencido. Ele disse-me isso. Mas ele quer continuar a ser influente. Não aceita as perpectivas da adesão da Ucrânia à NATO. Putin não quer ver divisões da NATO junto das suas fronteiras”.

Desde o início da crise que é difícil vislumbrar mudanças em direcção ao diálogo no Kremlin ou para a redução da retórica nacionalista e agressiva em muitos dos órgãos de informação russos. Bem pelo contrário.

Recordo que a Europa e os EUA lançaram as sanções depois da anexação da Crimeia pela Rússia e o Kremlin já deu por encerrada a discussão sobre o estatuto dessa península.

Quanto à palavra de Vladimir Putin, ela vale o que vale. Os factos não jogam a seu favor: Moscovo continua a apoiar com homens e armas os separatistas no Leste da Ucrânia e a pretender limitar a soberania do país vizinho ao impor condições sobre a sua futura política externa.

No fundo, alguns dirigentes europeus já se mostram dispostos a aceitar a “federalização” e a “finlandização” da Ucrânia. Para eles o principal é levantar as sanções económicas e esperar que Putin não se lembre de defender os russófonos noutras paragens. Senão vejamos: o Presidente Hollande diz, por exemplo, que “Putin não quer ver divisões da NATO junto das suas fronteiras” e parece fazer de conta que ignora que a Letónia, a Lituânia e a Estónia fazem fronteira com a Rússia e são membros da NATO. E se Moscovo decidir que também não quer tropas da NATO nesses países?

Compreendo a posição do Presidente francês do ponto de vista económico, pois o seu país sofreu perdas consideráveis com as sanções. Para além disso tem nas mãos o imbróglio dos porta-helicópteros “Mistral”, negócio que envolve muitos milhões de euros. Um deles já está na água, e Hollande, com estas declarações, parece querer entregá-lo rapidamente à Marinha Russa.

Eu sempre me manifestei contra a política de sanções pois, quando se avança para elas, é necessário ponderar bem as consequências a curto, médio e longo prazo. Desta vez, estas sanções foram declaradas com o intuito de castigar a Rússia por violar o Direito Internacional ao anexar a Crimeia e, por conseguinte, só deveriam ser levantadas se Moscovo desse sinais de mudança de política nesse sentido, o que ainda não aconteceu.

A propaganda de Moscovo já está a apresentar a flexibilidade de alguns líderes europeus como um sinal de vitória da política externa russa e da fraqueza da União Europeia, sublinhando, contra todas as evidências, que a Rússia não sofreu graves prejuízos e, se sofreu alguns, foram mais pequenos do que os sofridos pelos europeus. Sobretudo aguentou-os.

Alguns dos dirigentes europeus não aprendem nada com a história. Cederam em 2008, cedem em 2015 e, pelos vistos, se a política externa da UE não tomar um carácter sério e esclarecido, irão voltar a ceder.

P.S. Posso estar redondamente enganado, mas se a extrema-esquerda vencer na Grécia, essa poderá transformar-se em mais um campo de luta pela influência entre a UE e a Rússia. Se Bruxelas levar a Grécia à saída do euro, o passo seguinte poderá ser o abandono da UE. Moscovo certamente virá em ajuda, desta vez não dos irmãos russófonos, mas ortodoxos. Com isto não quero dizer que a luta seja no campo militar.