Segundo os especialistas na Bíblia, o Génesis, o livro que contém o relato do Dilúvio, terá sido redigido no séc. V a.C.. A Epopeia de Gilgamesh, que narra o mito que inspirou a história de Noé, terá sido composta na Babilónia entre 1800 e 2100 a.C. As cheias reais que terão inspirado essas lendas serão mais antigas. Significa isso que, durante cerca de 4 milénios, esses textos velhos terão bastado para ir lembrando a humanidade que, de vez em quando, vem uma inundação fora do comum.
Agora já não basta. Quando há uma nova cheia, parece que esquecemos facilmente o que aconteceu há vinte ou trinta anos. Assistimos a uma tarde de cobertura jornalística ininterrupta e percebe-se que a maioria dos jornalistas nunca viram sequer um bidé a transbordar, quanto mais um rio a galgar margens e a alagar casas. Para eles, é tudo novidade.
Só que há uma altura em que até mesmo os jornalistas têm de admitir que não, não é uma novidade. É quando, para preencher tantas horas dedicadas ao tema, começam a compilar listas de outras cheias “excepcionais” e “únicas”, que não são uma coisa nem outra, pois repetem-se com regularidade desde que há memória. Como, aliás, alguns dos entrevistados nas zonas afectadas lhes tentam dizer, sem grande sucesso. Já não é o primeiro nem o segundo popular que, quando lhe perguntam como está a reagir a esta situação extraordinária, explica que está a reagir da mesma forma que nas outras cheias que já presenciou desde que vive naquele local, umas maiores, outras menores, nenhuma sem igual.
Convido o leitor a visitar esta reportagem, guardada no arquivo da RTP, sobre as cheias que em 2001 atingiram o Ribatejo. É uma experiência curiosa. Vai reconhecer as localidades inundadas ou isoladas (são referidas Constância, Reguengo do Alviela, Valada do Ribatejo e outras de que agora ouvimos falar diariamente), vai reconhecer a figura do técnico especialista com dados factuais e rigorosos e vai reconhecer as imagens do Tejo a espraiar-se por áreas que, habitualmente, estão secas. Só não vai reconhecer uma coisa: o jornalismo. O repórter não está ofegante, excitado por estar a noticiar o apocalipse. Está tranquilo. Comparado com o que se vê agora é sonolento. E, pesquisando no arquivo da RTP, encontra-se a mesma sobriedade perante catástrofes naturais em 1979, em 1983, em 1989, em 1996 ou em 1997. O que é que se passou entre essas cheias e estas de agora, que mudou a forma como a comunicação social se comporta?
Eu tenho uma ideia. Ainda em 2004, data desta notícia do Público, “para os ambientalistas as cheias ocorrem devido a um conjunto de factores, com destaque para a falta de ordenamento: «A Rede Ecológica Nacional [REN] tem sido constantemente desrespeitada», criticou o dirigente ecologista, sublinhando que muitas das cheias ocorrem «porque há zonas habitadas que não deviam ter sido ocupadas»”. Também aconselho este documentário de 1984 sobre as razões das cheias em Portugal. A orografia, os padrões de pluviosidade, a impermeabilização dos solos, a construção em locais historicamente alagados, a gestão do caudal dos rios, tudo contribui para o fenómeno das cheias. Já referências a “emergência climática”: zero.
Entretanto, em 2006 estreia o filme de Al Gore, “Uma verdade inconveniente”, e a crise climática (na altura ainda se dizia “aquecimento global”) passa a ser a única explicação para tudo o que acontece na Natureza. De repente, o clima, um sistema altamente complexo e multifactorial, que regulou as condições atmosféricas da Terra durante 4,5 mil milhões de anos, passa a ser controlado pela actividade industrial humana.
Ou seja, a responsabilidade por um desastre deixa de ser dos homens que construíram em leito de cheia e dos homens que licenciaram e passa a ser do Homem. Ora, quando reporta sobre os primeiros, o jornalista aplica critérios jornalísticos e fala sobre sanções criminais. Quando fala sobre o segundo, é um missionário a pregar a culpa e alude a retribuição divina. Isso explica o tom e o tremendismo.
Porém, o cataclismo previsto por Al Gore não se verificou. Ainda há gelo no Ártico, ainda há ursos polares, ainda há neve no Kilimanjaro, ainda não vivemos com água pela cintura. Mas, como é evidente, registaram-se alterações no clima nas últimas décadas – como em todas as décadas desde a formação do planeta. Aqui socorro-me do Sexto Relatório de Avaliação (AR6) do IPCC (Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas) publicado entre 2021 e 2023 e que, no capítulo 12, fala da detecção de aumentos ou diminuições de fenómenos extremos climáticos além do que é esperado pela variabilidade natural e do discernimento ou não de influência humana. Para este organismo oficial da ONU, detecta-se aumento da temperatura, aumento de ondas de calor, diminuição de ondas de frio. (O que, no cômputo geral, nem é mau de todo, uma vez que – e isto raramente é referido pelos alarmistas – no mundo morre-se 5 vezes mais de frio do que de calor. Um aumento da temperatura pode causar mais mortes por calor, mas evita 5 vezes mais mortes por frio).
O que não se detecta são aumentos de uma série de fenómenos como tempestades, furacões, ciclones, chuvas, cheias e outros. As que há são iguais às que sempre houve. Mas com nomes assustadores como “rio atmosférico” ou “ciclogénese”. E são baptizadas e chegam em comboios. O que dantes era um Inverno particularmente rigoroso, agora é uma sucessão de Joseph, Kristin, Leonardo, Marta e Noélia, noticiadas com histerismo 24 por dia, partilhadas em pânico nas redes sociais. Segundo dados do IPMA, o trimestre entre Novembro de 2025 e Janeiro de 2026 foi o 7º mais chuvoso desde 1931, tendo este sido o 14º Janeiro mais chuvoso desde esse ano. 12 desses janeiros foram ainda no século passado. Não quer dizer que não tenha chovido muito, nem que as tempestades não tenham sido destruidoras. Quer só dizer que não é nada de novo, nem resultado de uma crise climática que exponencia qualquer ocorrência a níveis inauditos.
A única diferença é que hoje morre menos gente em eventos climáticos extremos (95% menos em relação há 100 anos) e os estragos são mais avultados (porque há mais coisas para estragar, e mais caras, se bem que nas análises em que se faz uma normalização de custos, as tempestades de há 70 e 80 anos teriam o mesmo impacto económico que as actuais).
De resto, trata-se de tempestades e cheias iguais às que Portugal sempre teve. Podem parecer mais graves, mas isso é porque agora somos nós que ficamos molhados e em 1979, 1983 ou 1997 eram pessoas a preto e branco.
No entanto, o alarmismo funciona e a solução proposta para evitar os estragos causados pelas cheias não é a que em 2004 seria mais lógica, o melhor ordenamento do território. É a que surge depois disso: transição energética e neutralidade carbónica. O que é engraçado, se tivermos em conta que nas milhares de horas de reportagens sobre as cheias tenhamos visto a importância de barcos a motor, carros de bombeiros a gasolina, geradores a diesel, todos tributários de uma tecnologia que se tornou anátema. Mas que continua a ser responsável pelo conforto e segurança da humanidade. E vai continuar a ser. Não só pela intermitência e não armazenamento das renováveis, que só funcionam se houver um back up alimentado por combustíveis fósseis, mas também porque a quantidade de mineração necessária para extrair os recursos essenciais ao funcionamento de ventoinhas, baterias e painéis solares já começa a mostrar que não são energias assim tão limpas.
É bizarro, mas há quem defenda que, para evitar que as pessoas fiquem sem electricidade por causa das tempestades, a solução é diminuir a as tempestades pondo as pessoas a não terem electricidade.