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Como já todos sabemos, a atmosfera do planeta apresenta níveis cada vez mais elevados de gases de efeito estufa, onde o dióxido de carbono (CO2) tem um papel de destaque. Este fator contribui inevitavelmente para um ritmo cada vez mais acentuado de alteração dos padrões do nosso clima, com impacto visível no aquecimento global e degelo, mas também na frequência de eventos naturais disruptivos, como as secas, os incêndios ou fortes tempestades. Neste contexto, a trajetória atual das emissões de CO2 constitui um obstáculo ao objetivo crucial de limitar o aquecimento global a 1,5 °C e assim limitar o impacto das alterações climáticas na natureza e nas sociedades humanas.

Mesmo antes da COP26 começar, a UNEP (Programa Ambiental das Nações Unidas) estimava que os atuais compromissos colocavam o planeta numa trajetória de 2,2°C a 2,7°C, um resultado apresentado como “catastrófico” pelo Secretário-Geral da ONU António Guterres na apresentação destas conclusões.

A COP26 veio reforçar os compromissos nacionais com a descarbonização da economia e evidenciou uma forte mobilização do setor privado, mas a transformação tem agora de ser acelerada e concretizada.

Para limitarmos o aumento das temperaturas a 1,5 °C, é necessário que até 2030 se reduzam em cerca de metade as emissões anuais de CO2, com tudo o que isso implica: definição dos planos, adoção das políticas, implementação das tecnologias e mudanças comportamentais. Este é o “maior desafio que a humanidade já enfrentou”, como o descreve Bill Gates, implicando transformações significativas no tecido económico mundial e nos próprios modelos de sociedade existentes. Estima-se que o investimento necessário para atingir a descarbonização da economia mundial ronde os 3,5 biliões de dólares por ano e que, no caso português, esse investimento seja cerca de 30 mil milhões de euros por ano até 2050 (tal como previsto no Roteiro para a Neutralidade Carbónica).

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Para uma eficaz e consequente alocação de recursos nesta escala, será necessário que exista uma forte concertação de esforços, não só a nível intergovernamental, mas também entre os vários agentes sociais, como reguladores, empresas e cidadãos. Para tal, todos deverão adotar quatro passos fundamentais para uma abordagem estruturada e mais efetiva, nomeadamente a contabilização e divulgação das emissões por cada entidade, ao longo da respetiva cadeia de valor; a redução das emissões através da implementação de um plano ambicioso de base científica, assente em melhores práticas e nas várias tecnologias maduras ou comprovadas; a definição de compromisso financeiro com a redução das restantes emissões, não endereçadas pelo plano no ponto anterior, que internalize os seus custos externos e divulgando o custo implícito por tonelada de CO2, e, por último, o investimento do compromisso financeiro num conjunto de ações com grande impacto para o clima e a natureza (por exemplo em novas metodologias ou tecnologias para redução ou captura de emissões).

Por outro lado, a UE aparece na linha da frente do combate ao aquecimento global, procurando criar os incentivos e ferramentas necessárias à mudança. A Comissão Europeia lançou, em julho, o plano “Fit for 55”, que representa um conjunto de grandes desafios e oportunidades para empresas de diversos setores. O plano traduz-se num leque de propostas legislativas que visam o alinhamento entre a legislação europeia e os objetivos climáticos traçados, e inclui medidas como restrições adicionais ao nível de emissões, o aumento dos preços do carbono, através da revisão do Regime de Comércio de Licenças de Emissão, a reforma fiscal do setor energético, e ainda a aplicação das receitas da venda de licenças de carbono para o apoio a famílias e PMEs vulneráveis e mais expostas ao custos necessárias ao processo de transição.

Será, pois, num contexto regulatório mais exigente que empresas de diversos setores serão pressionadas a contribuir para a redução das emissões. Contudo, tal contributo será também crucial para o posicionamento estratégico das empresas: clientes, parceiros, colaboradores e investidores tenderão a incorporar cada vez mais nas suas decisões o nível de compromisso que cada empresa tem com a sustentabilidade ambiental. Assim, esta dimensão assumir-se-á rapidamente como um fator essencial de criação de valor e de diferenciação entre empresas, criando um ciclo virtuoso de reforço da transformação.

É certo que tais medidas terão um impacto bastante significativo em setores onde os custos de descarbonização são mais elevados (por exemplo, nas indústrias de produção de aço ou de cimento onde se estima que a descarbonização aumente os custos unitários na ordem dos 70% a 80%). No entanto, estudos que realizámos recentemente demonstram que, mesmo nestes setores, estes custos e os respetivos impactos nas cadeias de valor, traduzir-se-ão num aumento de preço relativamente modesto para o consumidor final, na ordem dos 2% a 4%, consoante o produto em causa. Por um lado, as empresas poderão justificar este aumento de preço com o impacto “neutro” no ambiente, diferenciando-se dos seus competidores, e por outro lado, os consumidores/utilizadores mais vulneráveis deverão ser apoiados.

O objetivo de se atingir a neutralidade carbónica está associado a outros grandes desafios globais, tais como a criação de uma economia circular para redução do desperdício, a transformação dos sistemas de produção de alimentos e de uso da água ou a eficaz adaptação das sociedades aos impactos do aquecimento global. E esta jornada de sustentabilidade ambiental implica o alinhamento de vários fatores complexos, tais como a definição de planos e políticas eficazes, o desenvolvimento e adoção de novas tecnologias, uma correta alocação dos recursos e a coordenação entre vários agentes a nível global.

Temos todos a responsabilidade de acelerar o ritmo desta nossa jornada coletiva.