Em O Labirinto da Saudade (1978), obra fundamental para entender a cultura contemporânea portuguesa, Eduardo Lourenço identifica os portugueses como um povo passivo, letárgico, pouco original e avesso à audácia que, de maneira a fugir de um presente decadente, marcado por crises e catástrofes múltiplas, passa o tempo contemplando as caravelas dos séculos XV e XVI. O leitor de agora perguntar-se-á se o filósofo tem razão, se os portugueses de hoje, os tais da “geração mais bem preparada de sempre”, que trabalham na Europa e se adaptam e estudam e falam línguas, continuam cabisbaixos e em negação em relação a uma realidade que não lhes é generosa. Seremos ainda um povo que oscila entre negras depressões e exageradas euforias, entre complexos de inferioridade e esse “benfiquismo exarcebado” que, em fátuos momentos de glória, nos inspira a bradar que não há ninguém melhor do que nós?

Lendo Lourenço e outros intelectuais, escritores e poetas que meditaram sobre questões ligadas à identidade portuguesa (desde Oliveira Martins a Teixeira de Pascoaes, a lista é interminável), ficamos com a sensação de que os portugueses têm vivido fechados, obcecados consigo próprios, intrigados com a implacabilidade das crises e com a incapacidade revelada por sucessivos governantes de encontrar caminhos para a superação da tristeza e da saudade. Para quem vive fora de Portugal e assiste à distância às conquistas e desgraças dos lusitanos, não custa perceber que há muito sentido nestas descrições e que ainda hoje choramos com aquela canção melancólica e modorrenta chamada fado. Desde o porteiro do prédio à senhora Maria do terceiro esquerdo, ninguém hesita em bradar que “isto vai cada vez pior”, que lá fora (na Europa, na América), longe dos esquemas e das corrupções, é que se vive bem e em abundância. Em Portugal, diz a mesma senhora Maria, ressentida com a vida madrasta que levou, é só esquemas, manigâncias e favorecimentos, e quem quiser chegar longe tem de ser primo ou sobrinho de algum doutor. Porém, ao mesmo tempo que isto ocorre, coitado daquele que se atreva a criticar Portugal a um português: é imediatamente sacudido com hinos patrióticos e com referências aos excelsos séculos de história, aos versos de Fernando Pessoa, aos sermões de Padre António Vieira e aos feitos heroicos dos Descobrimentos.

Subscrevendo as ideias do referido filósofo português, diria que ter muitos séculos de história é algo que nos enche de orgulho e, ainda que apenas momentaneamente e devido às mais estranhas razões, nos faz esquecer as misérias do presente. Quando há uns anos Cristiano Ronaldo ergueu um troféu em Paris, após a selecção portuguesa de futebol ter vencido os franceses, não era um jogador quem ali estava, mas Vasco da Gama ensinando aos estrangeiros o significado de ser português. Quando Salvador Sobral ganhou o festival eurovisão da canção e foi recebido entre lágrimas e aplausos no aeroporto da Portela, quem ali estava era Camões, Cabral e todos os heróis pátrios condensados naquele D. Sebastião. Tudo isto quer dizer que tantas tristezas e cortes e austeridades transformam qualquer pequena vitória numa espécie de redescoberta do Quinto Império.

O que com este pequeno artigo pretendo afirmar é que o século XXI, a abertura de fronteiras e os avanços na escolarização não nos salvaram dessa tristeza aguda, desse problema de existir pobres, fatalistas, com breves relâmpagos de euforia. Neste império espiritual à beira-mar erguido ainda moram o atraso, o provincianismo, a inveja e os burocratas do romance de António Lobo Antunes que impedem que Luís de Camões retornado de África enterre o caixão do pai. O benfiquismo exacerbado de que fala Eduardo Lourenço é consequência de décadas de míngua e de medo e sobrevive à custa de optimistas discursos políticos que intentam perpetuar o marasmo. À sua maneira, cada português tem carregado o fardo dos Descobrimentos, tem carregado a histórica cruz de querer ser mundo sem conseguir ser europeu ou cosmopolita ou aberto ao mundo. Saímos de Portugal sem abandonar a aldeia, carregamos o soturno fado para Nova Iorque, comemos bacalhau e côdeas em Queens, seguimos dizendo que vai tudo mal, que antigamente é que era, e que se fossem todos como nós, melhor servidos estaríamos. É este o nosso mal, não conseguirmos ser quem deveríamos ser, não sabermos ser outros, permanecermos encerrados numa bolha silenciosa que nos inspira a acreditar na fantasia de que em Portugal se produz a melhor comida, os melhores atletas, os melhores escritores, os melhores tudo que o mundo alguma vez verá.