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E junta-se agora a nós para uma conversa Luísa Ribeiro Lopes, presidente da .PT. Luísa, muito boa tarde. Muito obrigado por se juntar a nós.
Boa tarde.
Olá, boa tarde, Luísa. Viva. Olá, muito boa tarde. Sabemos que nesta altura, mais do que nunca, Luísa, a necessidade de recurso ao uso dos meios digitais para fazer coisas que vão desde as compras até ir à escola, neste caso, tem sido notória com o estado em que nos encontramos no contexto de pandemia. O que eu lhe começava por perguntar é se há muita gente excluída destes meios digitais, do acesso a estes meios.
Olhe, antes de passar à parte menos boa, que é falar de quem está excluído.
Falar de quem está incluído.
Exatamente, falar de quem está incluído e dizer que isto foi uma oportunidade única de fazer uma aceleração rápida da entrada no digital. Nós temos assistido nestes últimos dias, eu diria nas duas últimas semanas, uma aceleração muito grande do digital, nomeadamente da existência de cada vez mais sites em .PT. As empresas, os empreendedores, as pessoas singulares, têm uma necessidade muito maior hoje de ter uma presença online, para fazer chegar aos seus clientes de sempre aquilo que se habituaram a ter. Por isso, houve aqui uma aceleração grande. Eu diria que esta aceleração da presença online está acompanhada também de uma aceleração das competências digitais. Não da maneira como nós estávamos à espera, que fosse uma transformação suave, mas uma transformação mais abrupta, porque, na realidade, e como disse, esta situação de isolamento e de confinamento social agudiza também a exclusão, e a exclusão, neste momento, é uma exclusão que passa muito pela exclusão digital. A exclusão social está potenciada pela exclusão digital. E se nós pensarmos que os grupos mais vulneráveis são também aqueles que são os excluídos digitais, temos aqui uma oportunidade única de trazer toda a gente pro digital.
Luísa, há pouco estava a dizer que aumentaram os registros no domínio .PT e que isso provavelmente se deu aquando do decreto do estado de emergência. Faz mais ou menos uma ideia de que tipo de setores é que se estão a registrar, que tipo de negócios é que estão a apostar nesta digitalização mais do que nunca, neste momento?
Sim, nós temos feito monitorização dos registros. Nós aumentamos relativamente, por exemplo, em março do ano passado pra março deste ano, houve quase mais de 3 mil novos domínios do que no ano anterior. Só em abril, em oito dias, já registramos mais de 3 mil domínios em .PT. E efetivamente, há aqui uma diferença relativamente ao que é habitual. Há muitos projetos que têm a ver com restauração, entrega de serviços alimentares, serviços domésticos, ginásios e exercício físico. Aliás, um bocadinho na sequência daquilo que vocês falaram há pouco na vossa rádio. Projetos de solidariedade social, de ajuda, como nós sabemos, que têm sido tão essenciais pra fazer face a toda esta situação de pandemia.
Mas, portanto, são projetos que muitos deles não tinham domínios na internet, que ainda se movimentavam pouco ou pelo menos movimentavam-se um pouco menos neste setor e que agora meteram mãos à obra para, no momento de pausa neste trabalho mais presencial, conseguirem estar presentes na internet e para conseguirem chegar às pessoas que de outra forma não conseguiam.
Sim, efetivamente, nós temos vindo a fazer um trabalho junto das empresas. Ainda existia, e existem, uma percentagem muito grande de empresas portuguesas, especialmente as pequenas empresas do comércio, que não tinham uma presença online, e hoje perceberam que não ter uma presença online é não existir, porque na realidade não se pode sequer hoje ter uma presença física. E houve então esta necessidade rápida de aceder ao online, e o primeiro passo para poder fazer comércio digital é efetivamente ter um domínio, e um domínio que seja um domínio de confiança, como é o caso do domínio .PT.
Mas nota que muitas empresas ainda continuam a resistir a aceder a este tipo de espaços na internet, ou as empresas mesmo, e muitas vezes falamos dos mais velhos, que ainda continuam muitos deles a resistir a estas novas tecnologias. Nota que já há agora uma maior abertura, nomeadamente nessas faixas etárias, por exemplo, continua a haver uma maior resistência, apesar destas dificuldades criadas agora por esta pandemia da Covid-19.
Olha, eu diria que resistência todos nós temos sempre à mudança, não é? Quando estamos perante uma situação em que aquilo que temos ao nosso dispor passa pelo digital, ou passa quase só pelo digital e por projetos digitais, resistimos menos a essa mudança. Portanto, eu quero crer que qualquer empresário hoje, de qualquer faixa etária, se quiser continuar a ter os seus clientes, vai ter mesmo que lançar mão do digital, e importa que seja do digital. E quando eu refiro do domínio .PT, porque é muito importante também nesta altura gerar confiança no consumidor. Nós sabemos que existem muitas situações de Em que o consumidor não se sente protegido. E é importante que esta passagem para o digital não seja só feita como nós gostávamos que existisse, que todos tivessem uma presença, mas que essa presença seja uma presença de confiança para o consumidor.
E de continuidade também, porque é preciso também passar essa mensagem muitas vezes, que este é um momento de maior aperto para muitos, mas que será preciso, eventualmente, continuar também a insistir nestes domínios, não apenas neste momento de maior aperto durante a pandemia. Ou seja, é preciso também que haja uma continuidade, e é preciso uma pedagogia para que todos estejam também cientes que mesmo depois de passar este período, que é preciso continuar a insistir neste tipo de espaços.
Sim, sabe que o Einstein dizia que uma cabeça que se abre a uma nova ideia nunca mais volta ao seu tamanho original. E eu estou convencida que depois disto, não voltaremos ao que éramos antes, quer nós consumidoras, quer nós empresas. Portanto, aquilo que nós hoje lançarmos mão, nunca mais voltará a ser como era antes. Quem hoje tiver uma presença online, certamente vai perceber as grandes vantagens da economia digital.
Luísa, corrija-me se estiver errado, mas Portugal tem cerca de 20% da população excluída do acesso aos meios digitais. O que é que pode ser feito numa altura destas para alargar esta disseminação dos meios digitais, para fazer os meios digitais chegar à casa e à vida destas pessoas?
Olha, é verdade, essa foi a primeira pergunta. Eu tive só que falar da parte mais positiva. É verdade, nós temos cerca de 17%, números para este ano, cerca de 17% da população está excluída do digital. E é muito importante neste momento fazermos uma aceleração rápida para que as pessoas que já estão excluídas socialmente, porque estão em confinamento, porque estão isoladas, também não sejam mais excluídas ainda porque não conseguem aceder ao digital. O que é que nós podemos fazer? Podemos fazer ações de desenvolvimento destas competências de uma forma também digitais. Pedir àqueles que estão com quem não acede ao digital para os ensinar, já que estamos em casa, estamos com as pessoas que não conseguem aceder, nomeadamente os netos com os avós, os filhos com os pais, possam ajudá-los a aceder ao digital hoje. E depois existem muitos projetos neste momento, que estão a sensibilizar e que nos ajudam. É o caso do Muda em Casa, que é um projeto da iniciativa Muda, que é o movimento para uma utilização digital ativa, de que nós também fazemos parte, o Ponto PT, com tutoriais online para ajudar a ter uma presença e a poder aceder aos meios digitais. É o caso do Somos Digitais, da própria iniciativa da INCO2030, que é uma iniciativa governamental. E depois existe a grande iniciativa Estamos On, do governo português, que ajuda a fazer uma transição para o digital, mesmo para aqueles que nunca usaram o digital. Neste momento, é urgente que nós ajudemos quem nunca usou, possa usar o digital.
Já agora, Luísa, aproveito para lhe perguntar, hoje foi um dia de anúncios por parte do governo sobre as escolas, o ensino à distância, vamos ter aqui a teleescola. Vamos precisar também de muita literacia da área do digital por parte de pais, alunos e professores. Olhando aqui para esses números que falava, da percentagem de pessoas que ainda não têm acesso a estes meios digitais e à internet, considera, e olhando aqui também para aquilo que foi hoje anunciado, que vai ser possível, por exemplo, haver forma de a totalidade da população, ou pelo menos a grande maioria da população, ter acesso a este ensino à distância através dos meios digitais, ou na sua opinião, há muita gente que, como alguns têm dito, ainda vai ficar de fora?
Olhe, nós corremos sempre o risco de ter uma percentagem de pessoas de fora. Ainda assim, no que diz respeito ao ensino, eu sou muito positiva. Acredito que os alunos são uma faixa etária que está muito mais no digital. Os professores estão a fazer um esforço incrível neste momento para conseguir transmitir o conhecimento e para conseguir que quase tudo esteja na mesma como estava antes.
E muitos deles a aprender com novas ferramentas, não é?
Exatamente, muitos deles a aprender. Estamos todos, efetivamente, a aprender novas ferramentas, novas formas de trabalhar, novas formas de ensinar. Eu, sinceramente, no que diz respeito, quer aos meios da teleescola, quer aos meios digitais para ensinar e aprender, porque é importante saber ensinarmos, também é importante o outro lado conseguir aprender, eu estou otimista que vamos conseguir chegar a bons resultados no que diz respeito, quer ao ensino secundário, quer ao ensino universitário. Os professores e os alunos estão a fazer um esforço incrível e os pais em casa também, de repente, estão a aprender o quão os filhos estudam e têm acesso aos meios digitais para o fazer.
Luísa, entrando aqui agora num outro conflito, uma espécie de conflito geracional, em que muitas pessoas, e a maioria delas mais velhas, defende que os meios digitais contribuem para o afastamento entre pessoas, para uma perda do contacto. Acha que esta situação que vivemos agora, em que podemos, através de nossas casas, fazer uma conferência com os nossos amigos para, de certa forma
Ganharam espaço esta situação de isolamento em que nos encontramos para estar com os outros. Acha que a imagem do digital pode mudar depois deste isolamento a que nos vemos obrigados?
Sem dúvida. Aquela ideia de que o digital contribuía para o afastamento das pessoas, neste momento é precisamente o contrário. Ou seja, aquilo que potencialmente mais nos afastava, é aquilo que hoje nos consegue juntar de uma forma virtual, mas nos consegue juntar. Mesmo aquelas pessoas que não tinham grupos no WhatsApp, passaram a ter. Aquelas pessoas que não usavam o telemóvel para comunicar, passaram a fazê-lo. De repente, todos nós fazemos chamadas de vídeo para ver as pessoas que mais gostamos e que não podemos estar presencialmente. Acho, sem dúvida, que o digital passou de algo que podia parecer uma forma de afastamento e algo que tinha até uma conotação algo negativa, para ser uma forma de aproximação. Uma forma de aproximação não só da família, mas de aproximação social, porque o ser humano é um ser social e efetivamente, tudo isto que nós hoje estamos a passar, afasta-nos muito do social e isso aí é potenciado pelo digital hoje, que nos está a aproximar e não nos está a separar.
Luísa Ribeiro Lopes, muito obrigado por se ter juntado a nós em direto na Rádio Observador. Muito obrigado.
Obrigada eu.
Até à próxima. Muito obrigado.
Bom trabalho. Obrigada.
Luísa Ribeiro Lopes, que é a presidente do domínio do .pt, aqui a falar-nos além da necessidade urgente de inclusão digital em contexto de isolamento, mas também das boas notícias para o meio digital quanto ao incremento e ao registo que tem vindo a aumentar no site do domínio .pt de empresas, ginásios. A transição para o digital pode estar a acontecer e pode estar a ser promovida por esta situação de isolamento em que nos encontramos.
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