Dois filhos na mochila

A saudade bateu no Uruguai e no Brasil encontrámos um alegre porto

No Uruguai e no sul do Brasil, a chuva foi uma constante e os vestígios de Portugal trouxeram a melancolia da distância. Em Porto Alegre, fomos muito bem recebidos por quem não conhecíamos.

A Luísa e o Manel continuam a conhecer o mundo de mãos dadas.

Depois de uma semana animada em Buenos Aires, cruzar o Uruguai teve o seu quê de anticlímax. Não é que o país tenha falta de encanto: Colonia del Sacramento, por onde entrámos, é uma pequena vila colonial com traços portugueses (no século XVIII mudou de mãos sete vezes, entre Portugal e Espanha) e Punta del Este é uma das praias mais procuradas pelo jet-set sul-americano. O povo uruguaio pareceu-nos até mais simpático e prestável que o argentino. Mas pareceu-nos um pouco “mais do mesmo”, em relação à Argentina — o mesmo sotaque com o som “ch” para o duplo “ele” e o ípsilon (como em bachena e chógurt), o mesmo vício do mate, o mesmo artesanato e o mesmo gosto pelo tango (os dois países disputam até a nacionalidade de Carlos Gardel).

Foi talvez o cinzento melancólico trazido pela chuva constante que fez surgir as saudades. Por exemplo, à chegada a Punta del Este, tivemos a sensação de estar em Vilamoura em época baixa, com o clima de Vila do Conde no outono (mas sem uma francesinha para nos animar). Viajar é ótimo, mas os quase quatro meses fora de casa, sempre a saltitar de pouso, já fazem mossa. Não estamos ainda fartos, mas o cansaço vai espreitando. Na Luísa, notamos mais vontade de falar e trocar emojis via Whatsapp com os avós e as amiguinhas, e ambos dizem que querem ir para a escola (espero que a vontade não esmoreça quando chegarmos). Como temos estado mais dentro de portas, passam mais tempo a desenhar e fazer rabiscos, e finalmente vemos a criatividade da Luísa a vencer o medo de não fazer bem as coisas.

O ponto alto em Colonia del Sacramento foi a visita ao Museu Português, que reúne mobiliário, loiças e artesanato nacionais, fardas militares do tempo em que combatíamos os espanhóis, curiosos mapas dos séculos XVI e XVII, e o escudo que encimava as muralhas quando aquele canto era nosso.

Em Montevideu, voltámos a encontrar a história de um caso extremo de sobrevivência. Depois de revivermos o resgate da Mina de San José, no Chile, no Museu Andes 1972 recordámos o desastre do avião onde ia uma equipa uruguaia de râguebi e a sua comitiva. Das 45 pessoas que iam no voo, 16 conseguiram sobreviver durante 72 dias num ambiente gelado, no meio dos Andes (há um filme de 1993 sobre este caso, com Ethan Hawke). Curiosamente, o acidente aconteceu a 13 de outubro, precisamente o dia em que visitámos o museu, obra recente de um holandês apaixonado pelo caso. A coleção, alojada num prédio que pertence a uma família de Amarante, tem imensa informação, incluindo o discurso em que um dos sobreviventes assume que tiveram de se alimentar dos cadáveres dos companheiros.

Há muito que os miúdos aguardavam a chegada ao Brasil, para poderem voltar a ver desenhos animados em português e pelo encontro com os primos em São Paulo. Foi a primeira fronteira que passámos sem notar: entregámos os passaportes ao condutor ao entrar no autocarro, e acordámos de manhã com tudo já carimbado. Ao chegarmos à primeira cidade do “país irmão”, o Manel diz zangado que “isto não é o Brasil”, porque não encontrou lá os primos, e talvez em negação (ou mais provavelmente em confusão) continuou a falar com os outros meninos no seu portunhol: “quieres jugar comigo?”

A cidade é Porto Alegre, onde a chuva foi ainda mais implacável nos três dias da visita. Mas aqui vivemos uma experiência de acolhimento que não vamos esquecer. Recebemos no Facebook um pedido de informações sobre a Colômbia, de uma amiga de um amigo que ia viajar para lá. Conversa puxa conversa, a Valéria ofereceu a sua casa para nos receber, mesmo sem estar lá. Ainda resistimos, por sermos muitos a invadir-lhe a casa, mas ela insistiu e não se ficou por aí: pediu a uma irmã para nos ir buscar ao terminal e a uma amiga para nos levar a passear nesse domingo. O casal que tinha ficado a cuidar-lhe da casa (um mimo de bricabraque) e do gato tratou-nos nas palminhas, cozinhou para nós e levou-nos a conhecer a cidade, mesmo debaixo de chuva forte. Mais uma vez, na dúvida entre ir e não ir, valeu a pena conjugarmos o verbo na positiva. E assim ganhámos novos amigos em Porto Alegre.

Seguiu-se Florianópolis, terra de colonização açoriana. Por lá encontrámos igrejas bem portuguesas, várias referências aos Açores no nome de ruas e lojas, e até uma doçaria que vendia travesseiros de Sintra. Alugámos carro para palmilhar a ilha de uma ponta à outra, e assim pudemos gozar um raro dia de sol e calor numa praia mais remota, que estava por nossa conta.

Outra imagem que ilustra o nosso cansaço: somos do género de querer experimentar sempre sítios novos — três dias numa cidade seriam habitualmente seis restaurantes. A exceção tinha sido durante a visita dos sogros, em que em equipa ganha (isto é, restaurante aprovado) não se mexia. Mas aqui acabámos por seguir o mesmo princípio: os miúdos enturmaram com os filhos dos donos da pizaria onde fomos no primeiro dia, por isso fomos lá sempre. Também ajudou o facto de servirem à sobremesa uma piza doce: metade brigadeiro, metade banana com doce de leite. Vai estar no top das coisas de que teremos saudades quando voltarmos a casa.

Na nossa última viagem longa de “ônibus” (daqui para a frente, vai ser só avião), chegámos a Curitiba, cidade-modelo do urbanismo equilibrado. Só ficámos dois dias, mas conseguimos ver muita coisa, graças a mais uma alma generosa. O meu melhor amigo tinha lá estudado há muitos anos, e deu-me o contacto de um amigo desse tempo que nos poderia dar algumas dicas. Acontece que o Vinicius abdicou do seu sábado e domingo de descanso (abriu um negócio há pouco e tem uma filha de cinco meses) para nos levar a todos os cantos da sua cidade. Além dos muitos parques, levou-nos a jantar ao Madalosso, o maior restaurante da América, com capacidade para mais de quatro mil pessoas.

O Museu Óscar Niemeyer foi também um sucesso para todas as gerações. Nós ficámos a conhecer melhor a obra de uma figura incontornável da cultura brasileira e as crianças puderam pôr mãos à obra e criar as suas pinturas na oficina pedagógica. Uma das exposições do museu tinha como título “Obras sob Guarda do MON“, tive curiosidade de espreitar. Logo à entrada tinha um Miró, seguido de meia centena de quadros de pintores nacionais. Eram obras apreendidas pela Polícia na Operação Lava Jato, que teve em Curitiba o epicentro das investigações. Lembra-lhe alguma coisa em Portugal?

A viagem aproxima-se do fim. Vamos agora conhecer as cataratas do Iguaçu, antes de encontrarmos a família em São Paulo e amigos muito especiais no interior de Minas Gerais. Continue a seguir-nos no blogue O Verbo Ir, no Facebook e no Instagram.

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