Cinema

“It”: o palhaço maléfico de Stephen King volta a aterrorizar

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Depois da minissérie de 1990 com Tim Curry, o monstro cósmico do livro de Stephen King que se manifesta sob a forma de um palhaço chega ao cinema em "It". Eurico de Barros dá-lhe três estrelas

Autor
  • Eurico de Barros

É falso que todas as crianças gostem de palhaços. Muitas têm medo deles que se finam. E no cinema e na televisão não há apenas palhaços ricos alegres e palhaços pobres trapalhões. Também os há bastante desclassificados e nada recomendáveis. Lembremos só Shakes, o palhaço copofónico, priápico e depressivo de “Shakes the Clown” (1991), de e com Bobcat Goldthwait; ou os alienígenas-palhaços dessa gloriosa série B intitulada “S.O.S-Palhaços Assassinos” (1988), que vieram à Terra para transformar a humanidade em “hamburgers”. Mas o palhaço mais assustador de todos é sem a menor dúvida o de “It”, primeiro de dois filmes baseados no livro de Stephen King, e que antes de ser interpretado por Bill Skarsgard na fita do argentino Andy Muschietti que se estreia hoje, foi-o por Tim Curry na minissérie de televisão “It-O Palhaço Assassino”, realizada por Tommy Lee Wallace em 1990, quatro anos depois da publicação da obra.

[Veja o “trailer” da minissérie de 1990]

King estava a atravessar um período difícil da sua vida quando escreveu “It”, consumindo bebidas alcoólicas, cocaína e fármacos em doses muito pouco recomendáveis. O escritor meteu tudo neste livro gordo de 1300 páginas, entre recordações de juventude e o seu próprio mal-estar existencial, criando uma monstruosidade cósmica que, na história, toma a forma de um palhaço chamado Pennywise. Há vários séculos, de 27 em 27 anos, que Pennywise atormenta Derry, uma cidadezinha do Maine, provocando catástrofes inexplicadas, raptando e matando crianças e alimentando-se do seu medo. (O novo filme actualizou a acção, das décadas de 50 e 80, como acontece no livro e na minissérie, para os anos 80 e o nosso tempo.) Pennywise persegue os sete jovens heróis, que se autodenominam O Clube dos Falhados, assombrando-os com vários horrores, mas principalmente com os seus medos e pesadelos mais íntimos.

[Veja o “trailer” de “It”]

Por exemplo, o gago e sensível Billy tem visões do irmão mais novo, Georgie, que Pennywise matou depois de lhe comer um braço, e por cuja morte ele se culpa; Eddie, a quem a obesíssima mãe possessiva mantém encharcado em remédios e num constante pavor de contágios e infecções, é perseguido por um morto-vivo que cospe comprimidos; Mike revive sem parar o incêndio em que morreram os pais; e Beverly, a única rapariga do grupo, vê-se perante terrores associados ao assédio sexual que é vítima por parte do pai. Em “It”, o terror sobrenatural tem contrapartidas em terrores bem reais que se manifestam na escola, na rua (há em Derry um “gang” de fanfarrões violentos que não pára de atormentar os sete protagonistas) e até no seio das famílias.

[Veja a entrevista com o realizador Andy Muschietti]

Quer a minissérie dos anos 90, quer este novo filme, captam bem a mistura de narrativa nostálgico-idílica de juventude a lembrar “Conta Comigo”, e de história dominada por um terror incomensurável representado por uma figura do mundo real, que dá identidade a “It” Ambas as produções tiveram que aparar, simplificar e resumir muito ao livro, mesmo que a minissérie tenha mais de três horas e o filme esteja dividido em duas partes, sendo esta sobre o primeiro combate entre os Falhados e Pennywise, e a segunda sobre o recontro final entre eles, 27 anos depois. E também ambas, apesar destes inevitáveis cortes e sínteses, conseguem ser fiéis ao essencial do livro de King, desde as características das personagens à visualização dos horrores. Embora o “It” de Muschietti beneficie de efeitos especiais com que nem se sonhava quando a minissérie foi feita, há 27 anos.

[Veja a entrevista com Bill Skarsgard]

Um filme destes não pode depender só dos computadores, precisa também de actores à altura das personagens. E Andy Muschietti recrutou um grupo de miúdos que se saem lindamente da tarefa, funcionando quer colectiva, quer individualmente, porque o filme lhes dá tempo para serem personagens plenas, diversas, cada qual com a sua identidade, e não apenas um conjunto mal esboçado de caricaturas ou de estereótipos. O ponto fraco de “It” é o que na minissérie era um dos pontos fortes: Pennywise. Aqui, tal como Bill Skarsgard o interpreta, ele é um boneco sobrenatural com hipertrofia da dentição – o pai molestador de Beverly chega quase a meter mais medo. O Pennywise televisivo de Tim Curry estava mais próximo do do livro, um tipo vestido de palhaço que de repente se transformava num monstro diabólico com um sentido de humor escarninho e sádico.

[Veja o elenco jovem do filme falar sobre Bill Skarsgard como Pennywise]

O segundo filme, “It: Chapter 2” não foi rodado em simultâneo com esta parte I e só se sabe até agora que será de novo realizado por Andy Muschietti, que terá apenas um argumentista, Gary Dauberman, em vez dos três de “It” (em cujo guião também participou) e que Bill Skarsgard continuará a ser Pennywise. Sobre quem comporá o elenco dos Falhados enquanto adultos, ainda não há notícia. Mas como “It” pulverizou toda a concorrência nas bilheteiras, tendo transformado o seu modesto orçamento de 35 milhões de dólares em receitas de 123 milhões nos EUA e 66 milhões fora de portas (e a calculadora continua a contabilizar) , o mais certo é podermos contar que o desenlace da história dos sete amigos e do palhaço maléfico chegue às telas rapidamente. O lucro, tal como o medo, dá asas. Para fazer ainda mais dinheiro à custa desse mesmo medo.

[Stephen King pronuncia-se sobre o filme]

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