Cinema

“Lucky”: o adeus muito “zen” de Harry Dean Stanton

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Realizado em estreia pelo seu colega John Carroll Lynch, o último filme do lendário actor americano homenageia-o e tira-lhe o retrato sob forma ficcional. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Logan Sparks e Drago Sumonja, amigos de longos anos de Harry Dean Stanton (o filho do primeiro até é afilhado deste) inspiraram-se na vida, nas histórias, nas conversas e nos ditos do actor para escreverem “Lucky”. E Stanton saiu da reforma para interpretar uma personagem ficcional baseada na sua pessoa, naquele que acabaria por ser o seu último filme, já que morreu, com 91 anos, pouco depois de o concluir. Realizado em estreia pelo actor John Carroll Lynch (“Fargo”, “Zodiac”, “American Horror Story”), “Lucky” é um presente de amizade, uma celebração de vida e uma homenagem calma a um dos actores característicos mais “principais” do cinema e da televisão, escanzelado mas resistente e emblemático veterano de mais de 60 anos de papéis por montes e vales de filmes maus ou memoráveis, de séries esquecidas ou de culto, com uma cara triste e vivida que parecia “uma estrada do velho Oeste”, como escreveu David Thomson, e que “contava histórias”, nas palavras do também já desaparecido Sam Shepard.

[ Veja o “trailer” de “Lucky”]

Em “Lucky”, Harry Dean Stanton confunde-se e combina-se com a personagem do título, um nonagenário que vive numa terrinha do Arizona onde toda a gente se conhece e não se passa quase nada – tal como no filme. Lucky segue uma rigorosa rotina diária, do ioga e do copo de leite gelado matinal em casa ao Bloody Mary e à conversa fiada com os amigos no bar à noite. Uma manhã, e depois do seu amigo Howard ter comunicado a fuga do seu cágado de estimação, chamado Presidente Roosevelt, Lucky cai redondo no chão em casa. Vai ao médico e este diz-lhe que não tem doença nenhuma e não vale a pena ele parar de fumar. Lucky caiu porque está velho, e mais velho vai ficar. A queda é o primeiro – e provavelmente, o último aviso – de que um dia irá morrer.

[Veja a entrevista com o realizador John Carrol Lynch]

E como recebe Lucky esta notícia reveladora? Muda a rotina diária? Fica com angústias existenciais? Agarra-se em desespero à religião? Vai comprar pantufas de gel? Nada disso. Continua a fazer a sua vida normal, a regar o cacto de estimação em roupa interior, botas de cano alto e chapéu, a fazer as palavras cruzadas acompanhadas por um café no “diner” local, a ver o concurso de perguntas e respostas na televisão, a cantar em espanhol numa festa de aniversário e até compra uma caixa de grilos para os ouvir, à noite, quando está na cama de janela aberta e lhe entra em casa o vento seco do deserto. Lucky é a versão “small town” americana de um “cowboy” estóico, um incréu em paz consigo mesmo e com o mundo, um mestre budista do Arizona. E toda a sua filosofia de vida está contida no breve e eloquente discurso que faz no bar, quando a dona o quer mandar fumar para a rua e ele recusa e respiga.

[Veja o realizador, os argumentistas e os actores do filme evocarem Harry Dean Stanton]

Um actor sabe como filmar outro actor, sobretudo se se trata de uma lenda viva e um favorito da cinéfilia. John Carroll Lynch dá a Harry Dean Stanton, um grande actor “natural”, todo o tempo que ele precisa e merece para “ser” Lucky (espantosamente, o filme não chega a ter 90 minutos de duração, mas chega e bonda para tudo o que Stanton e o realizador querem mostrar e dizer), rodeando-o de um “quem é quem” de intérpretes secundários: Ed Begley, Jr., James Darren, Beth Grant, Ron Livingston, Barry Shabaka Henley ou Tom Skerritt. Este contracenou com Harry Dean Stanton em “Alien-O 8º Passageiro”, faz quase 40 anos e partilham um dos melhores e mais melancólicos momentos da fita, trocando recordações do tempo da II Guerra Mundial (tal como Stanton, Lucky foi cozinheiro na Marinha).

[Veja uma cena de “Lucky”]

E temos ainda, “last but not least”, David Lynch, velho amigo e cúmplice de conversas e cigarradas de Harry Dean Stanton, no papel de Howard, o inconsolável dono do cágado fujão (que tanto pode ser apenas isso, um velho cágado evadido, como um correlativo animal para Lucky, como ainda o símbolo de algo maior e transcendente que nos escapa). Lynch interpreta Howard como se fosse uma personagem que tivesse saído de um filme seu para aparecer em “Lucky” e homenagear Stanton, que dirigiu em “Coração Selvagem”, “Uma História Simples” e em “Twin Peaks”. E é um regalo e comovente ao mesmo tempo, vê-los lado a lado ao balcão de um bar, por uma vez actores e comparsas na mesma fita.

[Veja Harry Dean Stanton e David Lynch em “Lucky”]

Pequeno filme de orçamento modesto como os estúdios americanos os faziam por sistema nos anos 60 e 70, mas abandonaram pelas bisarmas de efeitos digitais e receitas descomunais, “Lucky” fala de pessoas comuns, dos pequenos mas quantas vezes importantes e valiosos gestos, sentimentos, palavras e incidentes do dia-a-dia, encontra cinema, poesia, sabedoria e emoções no real rotineiro e ao alcance da mão. E é o adeus muito “zen”, de Harry Dean Stanton.

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