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Cusco. Lembra-se do Google português?

03 Maio 2016593

Quando ouviu pela primeira vez o termo "empreendedor", Pedro Seabra foi procurar o significado no dicionário. Com dois PC e 500 contos, lançou o Cusco. Vinte anos depois, onde para a Viatecla?

Março de 1996. Pedro Seabra liga para a mulher Teresa e diz-lhe que vai despedir-se. Tinha 26 anos. Ela estava grávida do primeiro filho, tinham comprado uma casa, estavam casados de fresco. Ele nunca tinha acabado a licenciatura em Engenharia Física. Ela disse-lhe que a escolha era dele. E ele fechou a porta da empresa em que trabalhava religiosamente das 9h às 17h. Queria mais do que aquilo. Queria influenciar a vida das pessoas. Há um dia em que o patrão lhe diz para ele não se chatear muito com as coisas que queria fazer, porque não valiam a pena. Foi o dia em que se despediu.

Jorge Sampaio assumia a Presidência da República, António Guterres era primeiro-ministro, o euro era (ainda) um sonho, Bill Clinton liderava os EUA, Larry Page e Sergey Brin não tinham sequer lançado o Google. A World Wide Web (www) era uma realidade ainda remota para a maioria dos portugueses. Navegar na internet era expressão que não existia. Email era uma carta (no máximo, um fax). E redes sociais talvez se assemelhassem mais a ficção científica. E, no entanto, passaram apenas 20 anos. Hoje, talvez sejam raros os portugueses que não têm um smartphone na carteira ou no bolso do casaco. Onde estão frequentemente online.

Em 1996, o “fascínio” de Pedro era a computação e a facilidade com que poderia influenciar a vida das pessoas. Quando decidiu despedir-se e enfiar-se na garagem de sua casa, ligou a Filipe Clérigo, 25 anos e seu rival na várias edições do concurso nacional de software educativo. Ora ganhava um, ora ganhava o outro. Quando Pedro percebeu que não conseguia montar sozinho a ideia que tinha, percebeu que não poderia haver melhor pessoa. “Era o meu maior concorrente, dava-me luta. Era a melhor pessoa que tinha em termos de credibilidade e competência”, conta ao Observador.

ViaTecla

Pedro Seabra, em 1996, quando lançou a Viatecla na garagem de sua casa

Foram os dois almoçar à churrasqueira do Campo Grande, em Lisboa. Pedro contou a Filipe que queria “criar soluções críticas ao negócio de eventuais cientes baseadas em tecnologias web“. Filipe Clérigo estudava informática no Instituto Superior Técnico, mas trabalhava no departamento de Informática da Universidade Nova de Lisboa. Também não chegou a acabar o curso. Também bateu com a porta. No dia a seguir, ligou a Pedro Seabra com a decisão tomada. Não foi preciso muito tempo para decidir-se por aquela que viria a ser a Viatecla, uma das primeiras startups tecnológicas portuguesas. A mãe do Cusco, uma espécie de Google português que mais tarde foi vendido à Cofina. Ainda a internet era “uma euforia”, ainda a bolha das dotcom não tinha rebentado. Ainda a internet era um sonho.

Quinhentos contos, dois computadores Pentium e uma garagem. Foi com isto que Pedro Seabra e Filipe Clérigo lançaram a Viatecla. Expandiram-se para uma garagem vizinha quando contrataram São, a primeira (e ainda) colaboradora da empresa. Só saíram das duas garagens quatro anos depois, quando venderam 50% da empresa (e do Cusco) à Cofina. Mas, antes, é preciso saber como tudo começa. Como é que na segunda metade da década, dois jovens portugueses se assemelham a outros dois do outro lado do Oceano Atlântico. E como os destinos divergem.

ViaTecla

Filipe Clérigo, na ViaTecla, em 1996. Então com 25 anos

Quando Pedro e Filipe se uniram para lançar uma empresa juntos, mesmo sem terem concluído licenciaturas, sabiam que tinham de ter um “cartão de visita”, contam ao Observador no escritório que agora ocupam em Almada e onde empregam 31 colaboradores. No pico da euforia chegaram a ser 75. No pico da depressão, cerca de 20. A “visão sóbria” que tinham do negócio fê-los reinventarem-se, mesmo quando “levaram porrada”. Mas, antes, o Cusco, que nasceu com uma caixa de pesquisa em branco, seguido de um botão “ok”.

“O que hoje é óbvio, em 1996 não era. A maioria das empresas não tinha website, quanto mais pensar em gerir os seus negócios através de plataformas web. Para sermos levados a sério, tínhamos de ter algo que nos desse credibilidade e mostrasse que dominávamos a tecnologia, algo que naquela altura ainda era muito abstrato. As pessoas não sabiam muito bem o que estávamos a falar. E o Cusco surgiu como uma ideia que era capaz de mostrarmos que dominávamos a tecnologia. Desenvolvemos um indexador – um robot que navegava pela internet em Portugal e indexava todo o conteúdo e respondia às perguntas dos utilizadores”, conta Pedro Seabra.

O Cusco foi o que tornou a Viatecla conhecida. Levou o indexador às páginas do Expresso e a curiosidade aguçou-se. Era isso que Pedro e Filipe queriam: que lhes desse margem de manobra para fazer o resto. Foi assim que desenvolveram a primeira solução de pay-per-view portuguesa para uma revista: os clientes compravam um crédito e por cada artigo que via era-lhe retirado esse valor. “Fizemos a primeira integração com a SIBS [entidade que gere a rede multibanco] na garagem. Vivíamos disso para pagar as contas e passávamos a maior parte do tempo agarrados ao Cusco”, conta Pedro Seabra.

ViaTecla

Os fundadores da Viatecla na garagem onde estiveram durante quatro anos

Quando Diogo Vasconcelos (político, empresário e vice-presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários) disse a Pedro, naquela altura, que ele e Filipe eram uns empreendedores e que estavam a fazer um bom trabalho, o jovem foi para casa procurar o significado da palavra. “Fiquei na dúvida, porque não sabia se aquilo era um elogio ou se era algo depreciativo. Não havia aquela onda empacotada e comercial do empreendedorismo que havia agora, apesar de os empreendedores sempre terem existido”, lembra Pedro.

Identificaram uma oportunidade de mercado. Filipe Clérigo conta que conseguiram rentabilizar toda a tecnologia que desenvolviam prestando consultoria a outras empresas, como a Siemens ou a Novabase. “Nós fazíamos a parte core da tecnologia web de grandes projetos, recebíamos o pagamento e eles tinham a força de trabalho. Era o mundo ideal”, conta. Na altura, chegaram a ganhar 18 mil contos para fazer um projeto de integração de material circulante para a CP. Desenvolveram outra solução para as alfândegas, outra para a Portugal Telecom, entre outras. “Foram projetos que fizemos por tuta e meia. Só depois percebemos que deveríamos tê-los vendido por 20 vezes aquele valor”, diz Pedro Seabra. “Vinte não, 100”, acrescenta Filipe Clérigo.

“Loucos” com cheques à porta

Quando o Cusco começa a ter sucesso, entre 98 e 99, começam a aparecer convites para almoçar. No final de cada reunião, havia sempre um livro de cheques que se tirava. “Acabávamos uma reunião, como esta que aqui estamos a ter, e havia sempre alguém que dizia que o advogado ia falar connosco porque queriam comprar parte da empresa. Havia pessoas que nos apareciam à porta a convidar para almoçar e, sem perceber sequer muito bem o que nós tínhamos ou o que era o Cusco, sacavam do livro de cheques para fazer negócio logo ali. Percebemos que algo se estava a passar e decidimos profissionalizarmo-nos”, contam.

Foi nessa altura que aceitaram a proposta de compra de 50% do Cusco (que entretanto se tinha autonomizado enquanto empresa) e de 50% da Viatecla, por parte da Cofina. Não revelam o valor da aquisição, mas contam que receberam propostas mais generosas, de “largas centenas de milhares de contos”, mas optaram pela Cofina pela proximidade que podiam ter com a gestão. Assinaram o acordo a 28 de dezembro de 1999. A partir daí, não pararam. Os telefones começaram a tocar às 2 horas da manhã com reuniões relâmpago no dia seguinte em Londres, as noites e os fins de semana deixaram de existir.

“Lembro-me de uma missão empresarial que fiz em 98, ainda antes de irmos para a Cofina. Estive uma semana em Nova Iorque, outra em São Francisco e outra em Las Vegas. Estava num evento tipo os First Tuesday [encontros informais na primeira terça-feira de cada mês entre empreendedores e investidores] em que tinhas 30 segundos para passar a tua ideia a um investidor, que tinha um maço de cartões. E se interessava, ok, se não, passava a a outra. Numa dessas reuniões, estava um executivo do Citibank que se ia despedir para se juntar a uma startup com 10 pessoas. Perguntaram-lhe porque ia fazer isso. Respondeu que um dia os netos iam perguntar-lhe o que fazia na altura da revolução e que ele não queria dizer-lhes que era banqueiro. Queria dizer-lhe que tinha feito parte da revolução e esse era o nosso espírito”, conta Pedro Seabra.

Cusco

Entraram para o grupo Cofina numa altura em que nasceram 18 startups dentro do grupo. Corria o ano 2000. Num domingo de janeiro, caiu-lhes no colo o projeto da primeira agência de viagens exclusivamente online do país, a Netviagens, que mais tarde venderiam à Espírito Santo Viagens. Não sabiam nada sobre turismo, sobre como funcionavam os negócios na área, qual era a tecnologia utilizada. Mas, em setembro desse ano, a Netviagens estava na rede para quem queria comprar pacotes de férias sem ter de se deslocar. Estavam, sem saber, no início do fim da euforia.

Quando entraram para a Cofina, a palavra de ordem era só uma: “crescer, crescer, crescer”. Seguida de outra: “contratar, contratar, contratar”. Em três meses, passaram de 20 para 75 pessoas. Quando a bolha tecnológica da empresas que atuavam na internet, as dotcom, rebentou, nos EUA, depressa chegou a Portugal. “Foi uma questão de meses”, conta Filipe Clérigo. Em Nova Iorque, o índice bolsista norte-americano Nasdaq Composite, que agrega empresas tecnológicas, sofreu uma das correções mais fortes de sempre nos mercados financeiros internacionais, provocada pela euforia que se vivia nas empresas do setor. Antes de rebentar a bolha, a valorização das empresas tecnológicas elevou o índice Nasdaq Composite aos 5.048,62 pontos. Cerca de dois anos depois, o valor do índice tocava um mínimo de 1.114,11 pontos, menos de um quarto.

O tubarão Mark Cuban tinha vendido a Broadcast.com por cinco milhões de dólares à Yahoo!, antes de a bolha estourar

“Quando o estoirar da bolha chegou cá, as pessoas achavam que a internet ia desaparecer, mas nós não. Acreditávamos no nosso projeto. É a diferença entre achar que as coisas acontecem todas de um dia para o outro e saber que é preciso ter paciência nas coisas que vão acontecer no futuro. Prova disso foi que daquelas 18 startups criadas a única que subsistiu foi a Netviagens. Morreu mais tarde e não foi por causa da tecnologia”, conta Pedro Seabra. Com a pressão dos investidores para despedirem pessoas, os fundadores da Viatecla acabam por recomprar as partes que tinham vendido à Cofina. Os valores dessa operação também não foram revelados.

Certo é que Pedro e Filipe lembram 2004 e 2005 como anos “duros”. Se, antes, tudo o que era internet “valia ouro”, depois deixou de ser assim. “Ninguém queria ouvir falar na internet. E nós fomo-nos especializando, investindo internamente no produto, convertemos o desenvolvimento que tínhamos feito para o Netviagens e transformámo-lo num produto para outros negócios”, conta Pedro Seabra. Em 2003, venderam-no à Espírito Santo Viagens e passaram a ser seus fornecedores. “Fomos consolidando muito devagarinho o nosso negócio, com muita teimosia e perseverança”, conta.

A Viatecla já não tem o Cusco, mas emprega 31 pessoas, é uma empresa que pertence à rede PME Excelência, à PME Inovação COTEC e que mantém uma parceria tecnológica com a Microsoft Corporation, tendo estatuto de Microsoft Gold Certified Partner. Presente em Portugal, Brasil, Perú, Inglaterra, Angola e Emirados Árabes Unidos, tem clientes ativos nos EUA, Suíça, Espanha, França, China, Luxemburgo e Mexico. Em 2015, a Viatecla cresceu 28% face ao ano anterior e atingiu uma faturação de 2,4 milhões de euros.

Atualmente, a empresa fundada por Pedro e Filipe desenha e implementa sistemas de informação críticos ao negócio dos seus clientes, ou seja, fornece soluções para o mercado corporativo, que respondem às necessidades das empresas em mercados e setores na área do turismo e na gestão de informação. Entre os principais produtos que disponibiliza o destaque vai para o KeyForTravel (uma plataforma modular de gestão de produtos viagem e turismo) ou a FutureboxTv (uma plataforma para a apresentação de conteúdos Vídeo em Digital Signage e interfaces Web).

Texto de Ana Pimentel, fotografia de Hugo Amaral.
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