Pornografia: o substantivo feminino que as mulheres querem revolucionar

28 Maio 2017235

Aviso

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Com cada vez mais público feminino a ver pornografia, já há mulheres a realizar filmes e a impor novas abordagens à indústria: mais diversa, com prazer nos dois sentidos e até educação sexual.

“Confesse as suas fantasias eróticas.” Esta frase não foi retirada da promoção de uma saga de livros BDSM nem faz parte de um processo de confissão e penitência promovido numa igreja. É antes um dos desafios colocados pelo site XConfessions, “um novo tipo de cinema para adultos”, que é como quem diz – pornografia realizada, produzida e escrita por mulheres, e o objetivo é conseguir perceber cada vez melhor o que as mulheres querem que seja filmado.

“São homens heterossexuais, brancos e de meia-idade, que têm fantasias com mamas e rabos, que estão por trás da pornografia mainstream”, disse em entrevista à Harper’s Bazaar a realizadora Erika Lust, um dos nomes mais reconhecidos de uma nova corrente de mulheres que está a tentar provocar uma mudança na indústria, e também a criadora da referida plataforma XConfessions. “Escolhem sempre o mesmo tipo de mulheres muito novas, com corpos magros e peitos volumosos. Podem ter diferentes cores de cabelo, mas são sempre mais ou menos o mesmo tipo de mulher, vezes sem conta”, diz Lust, que em fevereiro de 2015 já tinha dado uma entrevista por Skype ao Observador. E, pior ainda: “A personagem principal é sempre um homem, e o papel da mulher é apenas excitá-lo e dar-lhe o que ele quer.”

Hoje em dia, com os números a registarem uma realidade em que um terço do tráfego na internet vai para vídeos de pornografia, e com sites como o Porn Hub a confirmarem que 26 por cento dos seus utilizadores são mulheres (de várias idades), o debate sobre os conteúdos que estão a ser disponibilizados é cada vez mais urgente. Já não é preciso ir a um clube de vídeo, já não é preciso pagar, está por todo o lado.

Erika Lust é realizadora de filmes pornográficos e uma das principais vozes na nova abordagem feminina à indústria.

“É um media de massas, e muita gente nova que não tem o privilégio de ter uma educação sexual em casa está a ir à internet para aprender sobre sexualidade. Depois acabam nestes sites horríveis, que mostram imagens violentas, chauvinistas, muitas delas racistas e homofóbicas”, completa Lust, que na universidade estudou feminismo e questões de género, e que tem também promovido bolsas financeiras para apoiar filmes para adultos realizados por mulheres, um caminho que acredita que pode gerar uma nova diversidade na oferta e que não tem apenas a ver com questões estéticas.

“O que me custa mesmo, quando se fala de pornografia, é o potencial de veículo de educação sexual e de exploração adulta, consentida, diversa e aberta ao prazer que acaba por não ser aproveitado”, analisa Joana Almeida, sexóloga, que valoriza essa possibilidade de haver “mais perspetivas sobre o que pode ser uma relação sexual” potenciada pelo trabalho de pessoas como Erika Lust, ou outras, como Candida Royalle ou Jacky St. James, e projetos que se encaixam num conceito mais vasto de “pornografia ética”, termo cunhado pelo sexólogo americano Ian Kerner.

Em busca do clitóris esquecido

Há poucas mulheres atrás das câmaras ou sentadas num lugar criativo quando se fala da indústria pornográfica, e é por isso que Erika Lust ainda é uma exceção. Mas a ausência de representatividade pode ir além disso: “Quando escrevem sobre as suas fantasias, as mulheres são menos explícitas. Encenam uma história imensa, que explora uma relação e um contexto, mas depois a descrição sexual não está lá”, conta Joana Almeida, que já dirigiu também algumas oficinas de escrita erótica.

"Há esta contradição interessante na pornografia mainstream – por um lado mostram-se mulheres que gritam de prazer, por outro não se desenvolve muito sobre como obtê-lo.”
Joana Almeida, sexóloga

Poucas mulheres se sentem confortáveis ao partilhar as suas fantasias. Poucas também dirão a outra que gostam de ver pornografia. “Talvez também seja por tudo isto que a indústria se vira mais para os homens. As mulheres de hoje em dia estão presas numa espécie de sanduíche que é ainda complicada de resolver: ainda fomos influenciadas pela cultura das nossas avós mas também crescemos a ver a MTV. Pode ser mesmo difícil encontrar o prazer pessoal no meio disto.”

O impacto da pornografia existente é, para Joana Almeida, indiscutível. “Não aprendemos as coisas apenas formalmente nas escolas. A maioria das coisas são aprendidas informalmente, por imitação, com o que vamos apreendendo como o real, familiar, possível. E há esta contradição interessante na pornografia mainstream – por um lado mostram-se mulheres que gritam de prazer, por outro não se desenvolve muito sobre como obtê-lo.”

O trabalho de Erika Lust e de outras realizadoras e criadores que estão pensar a pornografia por uma via mais feminina pode mesmo “abrir horizontes”, sobretudo em relação à sequência típica dos filmes para adultos – sexo oral, sexo vaginal, sexo anal. “Por exemplo, o clitóris é uma parte fundamental na sexualidade feminina que é ignorada nos filmes, simplesmente por não estar associado a uma ideia fálica e de penetração. Fico muito irritada quando oiço homens heterossexuais na brincadeira a dizerem que nem sabem onde fica – têm de saber, deviam ter vergonha de dizer uma coisa dessas.”

Rodagem de um dos filmes de Erika Lust

Uma pornografia não tem de eliminar a outra, e esta feita por mulheres também não tem de ser consumida apenas por mulheres. “A pornografia é muita coisa. O mais importante é que cada mulher possa explorar que pornografia faz sentido para si. Pode não ser aquela que o namorado recomendou ou que faz maravilhas pela amiga. Essa procura é muito íntima e pessoal e deve ser feita com o máximo de liberdade possível”, afirma Susana Romana, guionista, que conduziu durante alguns anos no Canal Q a rubrica “Ponto Q”, de crítica pornográfica.

Susana admite que alguma pornografia mainstream pode “manchar a imagem feminina (no pun intended)”, mas também acredita que a indústria tem tentado “fazer maravilhas pelo cunnilingus” e que uma mulher muito emancipada se pode excitar com conteúdos em que o homem assume uma clara posição de dominância. “Às vezes o nosso corpo e a nossa cabeça não estão na mesma corrente ideológica. E não nos podemos esquecer que é cinema, que tem a sua dose de faz-de-conta. Levar um filme da Disney à letra também pode dar mau resultado.” E se algumas mulheres não se “sentem servidas” com o que há, faz todo o sentido que procurem novas abordagens. Quantas mais, melhor, conclui Susana Romana, desde que não seja apenas superficial: “Como teres no supermercado giletes cor-de-rosa para as mulheres que de resto são iguais às pretas que os homens compram.”

Em Portugal, a fotografia e o teatro é que “matam” as estrelas do vídeo

Falar de indústria da pornografia em Portugal é entrar num espectro limitado, cada vez mais pequeno e com poucos meios técnicos e criativos, e por isso não é nessa área que se pode procurar um eco desta criação feminina em torno da sexualidade.

“A indústria pornográfica e o feminismo sempre conviveram mal, mas porque hoje há realizadoras a fazer filmes pornográficos e a fazer discursos que promovem como feministas parece que há uma alteração profunda dos mecanismos de produção. Mas haverá? No que diz respeito à objetificação da mulher e à exploração do outro, será que se deu alguma revolução? Talvez naquilo que é geralmente considerado ‘pornográfico’, mas a que acedemos por outro meio que não o do vídeo, talvez aí se tenham transformado os paradigmas, mas na indústria tenho muitas dúvidas”, diz Sofia Silva, fotógrafa, que assumiu a coordenação do número zero da revista Propeller, que sairá em breve para as bancas dedicada ao tema.

Na revista, um projeto da Hélice, o desafio para explorar a ideia do pornográfico foi feito a vários autores, num sentido tanto ético como estético, através da expressão fotográfica. “Vai desde um ensaio visual de António Júlio Duarte a uma conversa sobre ‘imagens pornográficas’ e ‘fotografias de atrocidade’ com Alfredo Jaar. Não temos respostas, mas creio que se levantaram questões pertinentes.”

Bruna Prazeres para a Propeller, uma revista cujo número zero é dedicado à pornografia © Sofia Silva

Algumas questões serão sobre a relação das pessoas com a sua sexualidade, que pode, segundo Sofia Silva, ser afetada pela pornografia mainstream. “Pode ter vantagens, mas para isso era preciso haver sentido crítico por parte de quem consome, e isso não acontece quando se tem 12 ou 13 anos e se é confrontado com uma tipificação do sexo.” Mas ainda que haja espaço para uma pornografia feminina – “e dizer feminino não é o mesmo que dizer feminista, ainda não chegámos aí” –, a referida tipificação “também é muito prejudicial para os homens, e não se pode deixar de dizer isso.”

Mónica Calle, actriz e encenadora, também tem encontrado muitas ambiguidades na abordagem artística feita pelas mulheres em relação à pornografia. “Falaram-me da Erika Lust, tenho vindo a conhecer o trabalho dela porque também ando à procura disso. O trabalho sobre a sexualidade, o corpo, o desejo, está muito ligado ao que faço no teatro porque também está muito ligado às questões que ocupam a minha vida”, explica.

Sempre foi uma das suas matérias, mas sente agora, à medida que fica mais velha e ao contrário do que se poderia esperar, que é cada vez mais importante. “Não sei se é do envelhecimento, se é da menopausa, que torna o meu corpo muito presente, mas a maturidade também tem disto: há coisas que se expõem com menos medo, sobretudo em frente a um público. Quando era mais nova e explorava estas questões da pornografia e da sexualidade havia, de alguma forma, um maior constrangimento. Talvez seja perturbador, mas também me parece fundamental, porque se parte demasiado do princípio que uma mulher deixa de ser sexual a partir de uma certa idade.”

Uma das imagens promocionais de um dos espectáculos mais recentes de Monica Calle, “O Quarto Escuro”.

Para a atriz, que está agora a apresentar no Porto a sua última peça, “Rifar o Meu Coração”, é fundamental que as mulheres assumam artisticamente a sua sexualidade, até porque, ao contrário do que se possa pensar, pelas reações aos espectáculos sente que “estamos numa sociedade cada vez mais pudica e mais condicionada. Há um impulso controlador das vontades, mesmo nos discursos sobre pornografia, que é um profundo equívoco e é bastante perigoso.”

E Mónica Calle até sabe que, por causa do seu trabalho em torno da sexualidade, é “rotulada” e gera “discursos depreciativos”, mas sente que pelo menos nas artes de palco, ou públicas, e ao contrário da pornografia, as mulheres têm assumido as exposições mais corajosas. “Na pornografia há um lado de secretismo e de refúgio privado que os homens aproveitam. Quando se trata de exposição, de assumir, de questionar publicamente, os homens heterossexuais não aparecem. Quem assume esse papel são as mulheres ou os homens homossexuais, e isso também quer dizer alguma coisa.”

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